Flávio Bolsonaro, a partir dos EUA, declara-se "verdadeiro presidente eleito" e acusa fraude no Brasil

Primeiro "presidente eleito", depois apenas "líder do Brasil"
A carta de Flávio Bolsonaro mudou o tom entre a primeira e a segunda versão publicadas.

Num momento em que a política brasileira ainda digere o resultado de uma segunda volta disputada, Flávio Bolsonaro escolheu colocar a sua derrota a uma distância de milhares de quilómetros, em Miami, e a partir dali proclamar-se presidente eleito legítimo. A sua carta fala de fraude, de golpe e de perseguição, uma narrativa que reencontra velhas tensões entre poder judicial, poder eleito e a memória de um pai também processado. Mas a ausência de provas e os factos processuais que a antecedem deixam em suspenso a pergunta mais antiga da democracia: quem tem legitimidade para dizer a verdade sobre as urnas, e onde se deve travar essa disputa.

Na quarta-feira, a partir de Miami, o senador Flávio Bolsonaro publicou uma carta em que se apresenta como presidente eleito legítimo do Brasil. Tinha perdido a segunda volta das presidenciais disputada no domingo anterior, e deixara o país com a família. Na carta, acusa o presidente Lula da Silva e o Supremo Tribunal Federal de terem montado um golpe eleitoral que anulou a sua vitória.

O texto existiu em duas versões. Na primeira, a expressão 'verdadeiro presidente eleito' era explícita; na segunda, desapareceu, e Flávio passou a apresentar-se apenas como 'líder do Brasil'. A carta agradece ao argentino Javier Milei e ao norte-americano Donald Trump, e descreve os Estados Unidos como terra de liberdades.

Sobre a eleição, fala de uma fraude que viu com os próprios olhos e aponta uma 'impossibilidade matemática' ligada a mais de 10 milhões de votos somados por Lula, além de abuso de poder político e económico. Não apresenta provas. Liga a sua saída a uma perseguição que começou com o pai, Jair Bolsonaro, e diz temer a apreensão do passaporte, a prisão e um julgamento de fachada.

Os factos conhecidos sugerem outro enquadramento. A viagem aconteceu um dia depois de a Polícia Federal o ter intimado, por ordem de Alexandre de Moraes, a entregar todos os passaportes em 24 horas. Ele e o advogado Willer Tomaz são investigados por branqueamento de capitais, num alegado esquema ligado a empresas e a uma plataforma de apostas. Na véspera, Flávio tinha garantido em vídeo que nunca deixaria o Brasil. Resta saber como reagirão as instituições e se a investigação e a apreensão dos passaportes avançarão.

Na quarta-feira, a partir de Miami, o senador Flávio Bolsonaro publicou uma carta em que se apresenta como o presidente eleito legítimo do Brasil. Perdeu a segunda volta das eleições presidenciais, disputada no domingo anterior, e deixou o país com a família. Na carta, acusa o presidente Lula da Silva e o Supremo Tribunal Federal de terem montado um golpe eleitoral que anulou a sua vitória.

Houve duas versões do texto. Na primeira, escrevia: "Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente eleito do Brasil". Na segunda, a expressão desapareceu e Flávio Bolsonaro passou a descrever-se apenas como "líder do Brasil".

A carta agradece ao presidente argentino, Javier Milei, pela "coragem, senso de justiça e legalidade", e ao presidente norte-americano, Donald Trump, e ao povo americano por o acolherem. Os Estados Unidos são, nas suas palavras, uma terra de liberdades e de irmãos que partilham os valores das boas pessoas do seu país. Diz ainda que Trump é um grande defensor da liberdade de expressão.

Sobre a eleição, o senador afirma ter visto, estarrecido, uma fraude concretizar-se diante dos seus olhos. Atribui ao "ex-advogado do Lula" uma atuação ilegítima e ilegal, que teria tornado possível uma "impossibilidade matemática": Lula teria somado mais de 10 milhões de votos entre a primeira e a segunda volta. Refere uma extensão da votação "no apagar das luzes", que teria sujeitado os eleitores a regras diferentes, e acusa a campanha de Lula de abuso de poder político e económico e de uso da máquina pública a favor da reeleição. A carta não apresenta provas destas alegações.

O texto liga a sua saída do Brasil ao que descreve como perseguição política, que teria começado com o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e alastrado a milhares de brasileiros comuns. Diz que um juiz tentou "sequestrar" os seus passaportes e que, muito provavelmente, estaria preso. Garante que não havia intenção de sair do país e que sabe "exatamente onde isso vai dar", chamando-lhe o manual clássico de qualquer golpe de Estado. Afirma que não existe mandado de prisão contra si, porque não cometeu crime algum, e fala de uma caça às bruxas politicamente motivada. O "roteiro da perseguição" que antecipa passaria pela apreensão do passaporte, pulseira eletrónica, censura, prisão domiciliária, julgamento de fachada e condenação política.

Conclui que não fugiu, mas saiu "para poder ser o líder que o povo merece", e que "calado, preso e censurado", como o pai, não poderia sê-lo. Diz ter levado a família para os Estados Unidos, onde estão em segurança, para não a submeter a esse percurso nem expor o país a novo vexame internacional.

Os factos conhecidos apontam para outro contexto. A viagem a Miami aconteceu um dia depois de a Polícia Federal o ter intimado, por ordem do juiz do Supremo Alexandre de Moraes, a entregar todos os passaportes em 24 horas, com proibição de sair do Brasil. A decisão consta de um processo em que Flávio e o amigo, o advogado Willer Tomaz, são investigados por branqueamento de capitais, num alegado esquema que envolveria empresas de Tomaz e uma plataforma de apostas.

Na segunda-feira, um dia antes de partir, Flávio publicara nas redes sociais um vídeo em que garantia que nunca deixaria o Brasil e que entregaria os passaportes às autoridades. Falta ver como reagem as instituições brasileiras e se a investigação por branqueamento de capitais e a apreensão dos passaportes avançam.

Não existe nenhum mandado de prisão contra mim, porque eu não cometi nenhum crime.
— Flávio Bolsonaro, na carta
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