Fitoplâncton, responsável por 50% do oxigênio planetário, reduz 1,78% anualmente devido ao aquecimento global e estratificação oceânica. Pesquisadores de universidades chinesas, britânicas e americanas usaram satélites e medições de clorofila A para documentar o declínio desde 2001.
Fitoplâncton dos oceanos cai 1,78% ao ano; microrganismo produz metade do oxigênio terrestre
Uma única célula faz tudo que uma árvore inteira faz
Se o fitoplâncton produz metade do oxigênio que respiramos, por que não estamos em pânico total?
Porque o declínio é gradual — 1,78% ao ano — e os oceanos ainda têm uma quantidade enorme desses organismos. Mas "gradual" não significa "sem consequência". É como uma bateria que perde carga consistentemente.
Mas aqui está a questão: estamos medindo clorofila, não biomassa real. O professor Brandini deixa isso claro. Pode ser que a concentração de clorofila caia enquanto a quantidade de carbono nos organismos se mantenha estável.
Verdade. E é por isso que ele pede cautela. Mas mesmo com essa ressalva, uma redução consistente em clorofila durante 22 anos é um sinal que não podemos ignorar.
O aquecimento global é o único culpado?
É o principal identificado no estudo — através da estratificação oceânica. Mas Brandini menciona que poluição e sobrepesca também afetam os oceanos. Provavelmente é uma combinação.
E aqui está o ponto: o estudo não quantifica o impacto relativo de cada fator. Sabemos que o aquecimento causa estratificação, mas quanto da queda é por isso e quanto é por outras causas? Não fica claro.
Então o que acontece se essa tendência continuar?
Os autores alertam que pode comprometer o equilíbrio dos oceanos e a produção de oxigênio. Mas "pode" é importante — não é uma previsão certa, é um risco.
Exatamente. E ninguém sabe ainda qual é o ponto de não retorno, se é que existe um.
Der Puls
- Fitoplâncton reduz 1,78% ao ano entre 2001 e 2023
- Responsável por aproximadamente 50% do oxigênio planetário
- Pesquisa de universidades de Tsinghua, Bangor e Pensilvânia publicada em Science Advances
- Aquecimento global causa estratificação oceânica que impede nutrição do fitoplâncton
Fitoplâncton, responsável por 50% do oxigênio planetário, reduz 1,78% anualmente devido ao aquecimento global e estratificação oceânica. Pesquisadores de universidades chinesas, britânicas e americanas usaram satélites e medições de clorofila A para documentar o declínio desde 2001.
Estudo publicado em Science Advances revela queda de 1,78% ao ano no fitoplâncton oceânico entre 2001 e 2023, ameaçando a produção de metade do oxigênio terrestre e a cadeia alimentar marinha.
Os oceanos estão perdendo um dos seus microrganismos mais fundamentais. Um estudo publicado na revista Science Advances documenta uma queda consistente na população de fitoplâncton — aquelas microalgas microscópicas que flutuam nas águas do planeta — reduzindo em média 1,78% a cada ano entre 2001 e 2023. Para colocar isso em perspectiva: esses organismos invisíveis a olho nu produzem aproximadamente metade de todo o oxigênio que respiramos na Terra. Pesquisadores das universidades de Tsinghua, na China, Bangor, no Reino Unido, e Pensilvânia, nos Estados Unidos, chegaram a essa conclusão analisando imagens de satélite e dados de bóias oceânicas, medindo a concentração de clorofila A — o pigmento que marca a presença dessas microalgas nas águas.
O culpado identificado pelos cientistas é o aquecimento global. À medida que as temperaturas oceânicas aumentam, ocorre um fenômeno chamado estratificação — as camadas superficiais da água, mais quentes, criam uma barreira que impede a mistura com as águas profundas, ricas em nutrientes essenciais. Sem acesso a esses nutrientes, o fitoplâncton não consegue prosperar. A consequência vai além do oxigênio: esses microrganismos formam a base da cadeia alimentar marinha inteira. Quando desaparecem, todo o ecossistema oceânico sofre.
Frederico Brandini, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo, oferece uma analogia que ajuda a dimensionar a importância desses organismos invisíveis. "No oceano, uma única célula faz tudo que uma árvore inteira faz", explica. "São microalgas que formam um gramado tridimensional planetário chamado fitoplâncton." Essa descrição captura algo essencial: não estamos falando de um detalhe marginal da biologia marinha, mas de um sistema fundamental que sustenta a vida no planeta.
Mas Brandini também traz uma nota de cautela importante. A medição por clorofila, embora seja um indicador útil de abundância, não é exatamente o mesmo que biomassa — a quantidade real de carbono presente nesses organismos. "O estudo usa a clorofila porque ela é um indicador de abundância, mas clorofila não é biomassa, a biomassa é o carbono", ressalva. Essa distinção técnica importa porque afeta como interpretamos os números. Um declínio de 1,78% ao ano em clorofila não necessariamente significa um declínio idêntico em biomassa real.
Brandini também contextualiza o problema dentro de um quadro maior de ameaças aos oceanos. Poluição e sobrepesca representam desafios mais imediatos e visíveis para a humanidade do que a redução gradual de microrganismos. Ainda assim, os autores do artigo não minimizam o risco. Alertam que a queda contínua do fitoplâncton pode comprometer o equilíbrio dos ecossistemas oceânicos e, potencialmente, a produção global de oxigênio — uma consequência que vai muito além dos oceanos.
O que torna esse estudo particularmente significativo é seu alcance temporal e geográfico. Vinte e dois anos de dados, coletados através de múltiplas metodologias e analisados por pesquisadores de três continentes diferentes, oferecem uma visão robusta de uma tendência global. Não é um fenômeno localizado ou uma flutuação sazonal. É um padrão consistente que aponta para uma transformação profunda nos oceanos do planeta.
Bemerkenswerte Zitate
No oceano, uma única célula faz tudo que uma árvore inteira faz. São microalgas que formam um gramado tridimensional planetário chamado fitoplâncton.— Frederico Brandini, Instituto Oceanográfico da USP
O estudo usa a clorofila porque ela é um indicador de abundância, mas clorofila não é biomassa, a biomassa é o carbono.— Frederico Brandini, Instituto Oceanográfico da USP