No segundo trimestre de 2026, 37,4% da população ocupada do Brasil ainda vivia na informalidade, cerca de 38,6 milhões de pessoas, um patamar que, embora em queda, lembra que a economia brasileira carrega uma ferida antiga. É sobre esse terreno que se discute o fim da escala 6x1, mudança que devolve folgas e encurta a jornada, e que pode, segundo a maioria dos economistas ouvidos, alargar um pouco a fronteira do trabalho sem carteira, sobretudo nos pequenos negócios. O debate expõe menos uma catástrofe anunciada do que a pergunta de sempre: quem paga o custo de cada conquista no trabalho.
Fim da escala 6x1 pode elevar informalidade de forma marginal, sem demissões em massa, avaliam especialistas
"Não vai ser uma hecatombe de jeito nenhum"
Se ninguém espera demissões em massa, onde está o risco?
Na margem. Quem ganha perto do mínimo fica mais caro com a jornada menor, e o empregador de pequena empresa pode contratar "por fora".
Mas isso é previsão. Ulyssea e Firpo esperam alta; Marilane Teixeira diz que a hipótese precisa ser demonstrada. Ainda não há dado mostrando.
E o escalonamento de 44 para 40 horas ajuda?
Ajuda a amortecer, junto com o fato de que a maioria já trabalha em 5x2.
Vale notar que "tende a amortecer" é avaliação dos especialistas, não resultado medido.
E as medidas do governo?
Perdão de dívidas para o setor de eventos no Simples e crédito subsidiado do BNDES. O projeto ainda deve ser enviado ao Congresso.
Ou seja, nada disso está aprovado ainda. E o texto não diz quanto custará nem se será suficiente.
Então o que acompanhar?
A Pnad dos próximos trimestres, principalmente nos estados do Norte e Nordeste.
Il Polso
- A jornada cai de 44 para 40 horas de forma escalonada, e o temor de que pequenas empresas recorram ao trabalho sem carteira ganha força.
- Economistas divergem sobre o tamanho do impacto, mas concordam que não há sinal de demissões em massa com o desemprego ainda baixo.
- Empresários se preparam com repasse de preços e reorganização de turnos, enquanto o número dos que esperam impacto negativo recua.
- O governo tenta amortecer a transição com perdão de dívidas do setor de eventos e uma linha subsidiada do BNDES para pequenos negócios.
- A tendência aponta para uma alta pontual da informalidade, cuja confirmação depende dos próximos trimestres da Pnad.
No segundo trimestre de 2026, 37,4% da população ocupada do Brasil ainda vivia na informalidade, cerca de 38,6 milhões de pessoas, um patamar que, embora em queda, lembra que a economia brasileira carrega uma ferida antiga. É sobre esse terreno que se discute o fim da escala 6x1, mudança que devolve folgas e encurta a jornada, e que pode, segundo a maioria dos economistas ouvidos, alargar um pouco a fronteira do trabalho sem carteira, sobretudo nos pequenos negócios. O debate expõe menos uma catástrofe anunciada do que a pergunta de sempre: quem paga o custo de cada conquista no trabalho.
Segundo o IBGE, 37,4% da população ocupada estava na informalidade no segundo trimestre de 2026, algo como 38,6 milhões de trabalhadores. O número é o menor para um segundo trimestre desde 2020, mas ainda alto, e é nesse contexto que economistas discutem o que o fim da escala 6x1 pode provocar.
A leitura predominante é de um efeito marginal, não de uma hecatombe. Gabriel Ulyssea e Sergio Firpo preveem alguma alta da informalidade, concentrada em pequenas empresas e em quem ganha perto do salário mínimo. Marilane Teixeira é mais cautelosa e diz que essa hipótese ainda precisa ser demonstrada. A maior parte da força de trabalho já está em 5x2, o que amortece a mudança, e o desemprego baixo afasta a expectativa de demissões em massa.
O cenário mais provável inclui trabalhadores fazendo horas "por fora", repasse de custos aos preços e margens menores. Firpo observa que, em pequenas empresas com pouca fiscalização, a troca de formal por informal fica mais tentadora, e que jovens da periferia do Nordeste e do Norte podem permanecer mais tempo sem carteira.
A desigualdade regional é grande: Maranhão, Pará e Amazonas têm as maiores taxas, enquanto Santa Catarina, Distrito Federal e Mato Grosso do Sul têm as menores. Uma pesquisa do Sebrae indica que a fatia de empresários que espera impacto negativo caiu de 32% para 27%.
O governo prepara um projeto de perdão de dívidas do Simples para empresas do setor de eventos e uma linha de crédito do BNDES para pequenos negócios. A informalidade, lembram os pesquisadores, tem raízes antigas e estruturais. Só a Pnad dirá nos próximos trimestres se a alta prevista se confirma.
Segundo o IBGE, 37,4% da população ocupada do país estava na informalidade no segundo trimestre de 2026. São 38,6 milhões de trabalhadores, o menor patamar para um segundo trimestre desde 2020. É nesse pano de fundo, de informalidade em queda mas ainda alta, que economistas discutem o que o fim da escala 6x1 pode provocar no mercado de trabalho.
A avaliação dos especialistas ouvidos pela reportagem é parecida: o efeito deve ser uma alta marginal da informalidade, sobretudo nas relações de trabalho de pequenas empresas, e não uma hecatombe. Gabriel Ulyssea, da University College London, e Sergio Firpo, do Insper, preveem alguma elevação. Marilane Teixeira, do Cesit/Unicamp, é mais cautelosa e diz que essa hipótese precisa ser demonstrada.
Com o fim da 6x1, os empregados formais passam a ter duas folgas semanais remuneradas. A jornada cairá de 44 para 40 horas, de forma escalonada, e a maior parte da força de trabalho já está na escala 5x2, o que tende a amortecer o impacto. O cenário mais provável, segundo os especialistas, é uma alta pontual da informalidade, com trabalhadores fazendo algumas horas "por fora", repasse de custos aos preços e redução de margens. Demissões em massa não são esperadas, já que o desemprego segue baixo.
Ulyssea afirma que a redução afetará mais alguns setores do que outros, mas "não vai ser uma hecatombe de jeito nenhum". Para quem ganha perto do mínimo não há como cortar salário, e esses trabalhadores ficam mais caros; uma possibilidade, diz ele, é contratar "por fora". Lembra que a PEC das Domésticas, mudança mais drástica, também gerou previsões de fim do mundo, e vê "muito terrorismo de alguns setores". Defende ampliar o banco de horas e facilitar o contrato por tempo parcial.
Firpo vê a alta na margem do emprego sem carteira. Em pequenas empresas, onde a fiscalização é menos provável, o empregador pode trocar formal por informal. O jovem da periferia no Nordeste e no Norte, diz, "vai ficar mais tempo no emprego sem carteira", sem garantia de que a transição para a carteira assinada vá acontecer. Teixeira reconhece que a adaptação é mais difícil para pequenos negócios, mas afirma que isso não permite concluir que haverá aumento da informalidade.
A taxa varia muito pelo país. Maranhão (56,9%), Pará (55,9%) e Amazonas (51,7%) têm as maiores; Santa Catarina (25,4%), Distrito Federal (28,7%) e Mato Grosso do Sul (29,2%), as menores. Pesquisa do Sebrae mostra que a parcela de empresários que esperava impacto negativo caiu de 32%, em 2024, para 27%, em 2026, e 51% não esperavam impacto. Entre as estratégias, 28,9% citam aumentar preços e 24%, reorganizar turnos.
O governo Lula (PT) deve enviar ao Congresso um projeto para perdoar dívidas de empresas do setor de eventos no Simples Nacional, nos moldes do que fez com os MEIs. Pequenas empresas também poderão acessar uma linha de crédito subsidiada do BNDES, prevista para os próximos dias.
Os pesquisadores lembram que a informalidade tem raízes estruturais. Teixeira diz que ela nunca ficou abaixo de 20% desde 1940 e que dos 25,9 milhões de trabalhadores por conta própria, 16,6 milhões (64,1%) não contribuíam para a Previdência; dos 17,4 milhões de MEIs, só 10,1 milhões entregaram a declaração anual em 2025. Ulyssea vê a informalidade como sintoma de muitas empresas de baixa produtividade que permanecem pequenas, critica a rigidez da regulação e diz que a reforma de 2017 foi "um fracasso completo": o contrato intermitente teve adoção abaixo de 1%. Para reduzi-la, propõe ampliar os benefícios de ser formal e fiscalizar também empresas não registradas. A Pnad dirá nos próximos trimestres se a alta prevista se confirma.
Citazioni salienti
O fim da 6x1 é um passo importante na direção certa, mas não vai ser uma hecatombe de jeito nenhum.— Gabriel Ulyssea, University College London
Essa hipótese precisa ser demonstrada.— Marilane Teixeira, Cesit/Unicamp