Fim da escala 6x1 com redução para 40 horas semanais custaria 7,84% a mais em mão de obra; escala 4x3 com 36 horas subiria custos em 17,57%. Setores de vigilância e limpeza sofreriam mais (6% de aumento), enquanto indústria e comércio teriam impacto mínimo (1%) apesar de empregar 13 milhões de trabalhadores.
Fim da escala 6x1 elevaria custo do trabalho em 7,84%, mas economia pode absorver
A economia tem fôlego para essa mudança
O estudo diz que os custos subiriam 7,84%, mas como isso se traduz na prática? Uma empresa pequena de limpeza vai demitir gente?
Não necessariamente. O Ipea argumenta que o Brasil já passou por choques parecidos — a redução de 48 para 44 horas em 1988 — sem gerar desemprego. Além disso, muitas empresas já negociam escalas 5x2 informalmente porque precisam reter trabalhadores.
Mas isso é uma comparação com 1988. O contexto econômico era completamente diferente. E o estudo evita fazer projeções sobre desemprego justamente porque não sabe ao certo o que vai acontecer.
Verdade. Mas o ponto é que o Brasil está com desemprego em mínimas históricas e mercado aquecido. Se há um momento para fazer isso, é agora.
E quanto aos setores mais afetados? Vigilância e limpeza sofrem 6% de aumento. Isso não é muito?
É mais do que os 1% da indústria, mas ainda é absorvível. E o Ipea nota que esses setores já negociam escalas diferentes porque têm dificuldade de reter gente. Uma redução de jornada pode até ajudar.
Mas o estudo não analisa o que acontece se as empresas repassam esses custos para o consumidor. Vigilância e limpeza são serviços que afetam muita gente.
E quanto à inflação? Se os custos sobem, os preços não sobem também?
O Ipea diz que o impacto inflacionário seria pontual, apenas no momento da mudança. Depois não há propagação contínua.
Isso é uma projeção. Ninguém sabe ao certo. Mas é verdade que o aumento de custos não é acumulativo — acontece uma vez.
Então a PEC que foi aprovada em 2025 dilui isso ao longo de quatro anos?
Exatamente. Reduz de 44 para 40 horas no primeiro ano, depois uma hora por ano até chegar a 36. Isso espalha o choque.
Que é inteligente do ponto de vista de política econômica. Mas ainda deixa em aberto se as empresas vão absorver ou repassar os custos.
The Pulse
- Fim da escala 6x1 com redução para 40 horas semanais elevaria custos em 7,84%; escala 4x3 com 36 horas custaria 17,57% a mais
- Setores de vigilância e limpeza sofreriam impacto de 6%; indústria e comércio teriam apenas 1% de aumento apesar de empregar 13 milhões de trabalhadores
- Estudo analisou 44 milhões de trabalhadores celetistas; 31,8 milhões (74%) trabalham 44 horas semanais
- PEC 148/2015 aprovada em 2025 propõe redução gradual: 44 para 40 horas no primeiro ano, depois uma hora por ano até 36 horas
Fim da escala 6x1 com redução para 40 horas semanais custaria 7,84% a mais em mão de obra; escala 4x3 com 36 horas subiria custos em 17,57%. Setores de vigilância e limpeza sofreriam mais (6% de aumento), enquanto indústria e comércio teriam impacto mínimo (1%) apesar de empregar 13 milhões de trabalhadores.
Pesquisa do Ipea aponta que eliminar a escala 6x1 elevaria custos trabalhistas em 7,84%, mas economia brasileira teria capacidade de absorver o impacto sem gerar desemprego.
Um estudo do Ipea divulgado nesta terça-feira (10 de fevereiro) quantifica o que muitos já suspeitavam: eliminar a escala 6x1 teria um preço. A conta é precisa: 7,84% de aumento nos custos de mão de obra se o país passar para uma semana de cinco dias úteis com 40 horas, mantendo o salário mensal. Se a redução fosse mais ambiciosa ainda — para uma escala 4x3 com 36 horas semanais — os custos subiriam 17,57%. Mas aqui está o ponto que o Ipea quer deixar claro: a economia brasileira teria capacidade de absorver esse impacto.
A pesquisa, coordenada pelos técnicos Felipe Pateo e Joana Melo e pela pesquisadora Juliane Círiaco, analisou dados de 44 milhões de trabalhadores celetistas registrados na Rais de 2023. Desses, 31,8 milhões — cerca de 74% — trabalham 44 horas por semana. A lógica por trás do aumento de custos é simples: se alguém trabalha menos horas mas recebe o mesmo salário mensal, o valor da hora trabalhada sobe, e isso representa um custo adicional para as empresas. Não é uma mágica, é contabilidade pura.
O impacto, porém, não seria uniforme. Setores que dependem intensamente de mão de obra — vigilância, segurança, limpeza e seleção de pessoal — sentiriam mais o baque, com custos operacionais subindo 6%. Já indústria e comércio, que empregam 13 milhões de trabalhadores e contam com maior uso de tecnologia, teriam um impacto mínimo de apenas 1%. Em 31 dos 87 setores econômicos analisados, mais de 90% dos trabalhadores já cumprem jornadas acima de 40 horas semanais.
Pateo argumenta que o Brasil vive um momento particularmente favorável para essa mudança. O mercado de trabalho está aquecido, o desemprego bate mínimas históricas, e muitas empresas já negociam escalas como a 5x2 informalmente, mesmo sem previsão legal, porque precisam reter trabalhadores em setores onde a rotatividade é alta. Uma redução de jornada sem corte de salário, segundo ele, poderia tornar o emprego formal mais atrativo e estimular a migração de trabalhadores da informalidade para a formalidade, fortalecendo a CLT.
O estudo também rebate uma preocupação comum: que o aumento de custos levaria a demissões. Os pesquisadores apontam que o Brasil já enfrentou choques econômicos relevantes no passado sem que isso acontecesse. O exemplo mais direto é a redução da jornada de 48 para 44 horas semanais, prevista na Constituição de 1988, que não gerou impacto negativo no emprego. Pateo evita fazer projeções fechadas ou comparações diretas com outros países, argumentando que cada economia tem suas próprias condições. "Não faz sentido transferir resultados de outra economia para a realidade brasileira", afirma.
Sobre possíveis efeitos inflacionários, o técnico é categórico: o impacto seria pontual, concentrado no momento da mudança. "Uma vez feita a alteração, não há propagação do efeito ao longo do tempo. Não se trata de um fator inflacionário contínuo." Isso é importante porque significa que o aumento de custos não seria acumulativo — ocorre uma única vez.
A transição poderia ser ainda mais suave se a redução fosse diluída ao longo do tempo. É exatamente o que propõe a PEC 148/2015, do senador Paulo Paim (PT-RS), aprovada na Comissão de Constituição e Justiça do Senado no final de 2025. O texto reduz progressivamente a jornada de 44 para 40 horas no ano seguinte à promulgação, e depois diminui uma hora por ano durante três anos até chegar a 36 horas semanais. Essa gradação espalharia os custos ao longo de um período, reduzindo o choque para as empresas.
O que o Ipea está dizendo, em essência, é que o fim da escala 6x1 não é economicamente impossível. Tem custo, sim, mas é um custo que o país já absorveu em situações parecidas — como quando valorizou o salário mínimo acima da inflação. A questão agora é política e social: se há vontade de fazer, a economia tem fôlego.
Notable Quotes
É verdade que existe um custo, mas existem diversos indícios de que ele possa ser absorvido. São custos com os quais já tivemos experiências parecidas e a economia foi capaz de absorver.— Felipe Pateo, técnico de planejamento e pesquisa do Ipea
Uma vez feita a alteração, não há propagação do efeito ao longo do tempo. Não se trata de um fator inflacionário contínuo.— Felipe Pateo, sobre possíveis efeitos inflacionários