Em um momento em que o mundo debate os limites entre compaixão e morte, o cineasta canadense Denis Côté chega à 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo com uma obra nascida de sua própria luta contra o adoecimento. 'A Violência de Ninguém' acompanha uma mulher que percorre um Canadá distópico auxiliando pessoas a morrer — e, ao fazê-lo, permanece estranhamente distante de tudo que toca. É um filme sobre o isolamento como condição humana, filmado por alguém que aprendeu, à força, o que significa estar à beira do silêncio.
Filme sobre morte assistida explora alienação na Mostra de SP
Eu queria que nos sentíssemos alienados, como ela.
Por que um diretor escolheria fazer um filme sobre morte assistida justamente depois de quase morrer?
Côté diz que queria representar uma dança com a morte. Depois do transplante, ele finalmente conseguiu ver com clareza novamente — e isso o permitiu filmar algo que havia estado gestando.
Mas é importante notar que ele não faz um documentário sobre morte assistida. O filme é ficção. A trama central foi inventada, mesmo que o Canadá seja o cenário real.
O que torna esse filme diferente de outras obras sobre isolamento?
Côté não quer contar uma história com começo, meio e fim. Ele trabalha com atmosferas, com sensações. O filme tem 117 minutos de tons diferentes, personagens que aparecem do nada.
Isso é uma escolha estética deliberada, mas também significa que nem todos vão gostar. O próprio Côté admite isso. Há cenas longas que muitos espectadores rejeitam.
A transformação que acontece na metade do filme — quando Mira entra no culto — é importante para entender a alienação?
Sim. A partir daí, o filme reforça a distância entre ela e essa família improvável. Há uma cena em que ela está em uma festa do grupo, totalmente isolada, aos fundos. Côté diz que talvez estivesse falando sobre si mesmo através de Mira.
Mas o filme nunca explica quem são essas pessoas, de onde vêm, por que formam um culto. Côté deixa isso em aberto propositalmente. Alguns vão achar isso profundo; outros, frustrante.
Qual é o público para um filme assim?
Côté diz que faz cinema para pessoas curiosas, para aqueles que gostam de brincar com o fogo. Não é para quem quer certeza de que vai apreciar.
E isso é honesto. Ele não está tentando agradar a maioria. Fez 17 filmes em 21 anos sem se preocupar com fama ou sucesso comercial.
El Pulso
- Denis Côté quase não voltou a filmar: uma doença degenerativa e um transplante de rim o mantiveram afastado das câmeras por anos, tornando este projeto uma espécie de retorno existencial.
- A protagonista Mira atravessa um mundo desolado ajudando desconhecidos a morrer, mas sua frieza mecânica e seu isolamento profundo são o verdadeiro tema do filme — não a morte em si, mas a distância que ela impõe.
- Na metade do filme, a narrativa sofre uma ruptura deliberada: Mira se une a um culto, e a câmera passa a reforçar, cena a cena, o abismo entre ela e qualquer forma de pertencimento.
- Uma longa sequência de festa — em que Mira está presente mas completamente à margem — incomoda o público; Côté a mantém exatamente por isso, querendo que o espectador sinta na pele a alienação da personagem.
- O filme chega à Mostra como obra de nicho assumida: sem garantias narrativas, sem fórmulas de trailer, destinada àqueles dispostos a se perder por 117 minutos de atmosfera e mistério.
Em um momento em que o mundo debate os limites entre compaixão e morte, o cineasta canadense Denis Côté chega à 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo com uma obra nascida de sua própria luta contra o adoecimento. 'A Violência de Ninguém' acompanha uma mulher que percorre um Canadá distópico auxiliando pessoas a morrer — e, ao fazê-lo, permanece estranhamente distante de tudo que toca. É um filme sobre o isolamento como condição humana, filmado por alguém que aprendeu, à força, o que significa estar à beira do silêncio.
Denis Côté chegou à 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo carregando uma obra moldada pela experiência pessoal com a morte. Após um transplante de rim e anos afastado das câmeras por uma doença degenerativa, o cineasta canadense transformou esse período de vulnerabilidade em 'A Violência de Ninguém' — 117 minutos que acompanham Mira, interpretada por Larissa Corriveau, percorrendo um Canadá distópico para ajudar pessoas a encerrar suas vidas.
Mira trabalha com uma frieza quase mecânica, acompanhada apenas por um cachorro, movendo-se por um mundo desolado sem jamais se conectar verdadeiramente a ele. Côté descreve o filme como uma tentativa de representar uma dança com a morte — projeto que só se tornou possível quando ele voltou a enxergar com clareza, literal e metaforicamente.
O diretor é figura recorrente em festivais, onde seus filmes encontram acolhida mais fácil do que no circuito comercial. Sua filmografia habita as margens: um homem exilado após praticar eutanásia na mãe, um pai hiperprotetor em uma floresta perturbada por cadáveres, a paixão entre duas ex-presidiárias. O que une essas obras não é uma estrutura narrativa convencional, mas atmosferas, variações de tom e uma recusa deliberada pela evidência. Côté cita os 'gialli' de Dario Argento e Mario Bava como referência — filmes lembrados não por seus roteiros, mas pela forma como traduzem o medo em imagens que desafiam a realidade.
Em 'A Violência de Ninguém', essa filosofia se materializa em sobreposições de imagens que representam sonhos e impulsos. Na metade do filme, a trama sofre uma ruptura: Mira passa a trabalhar para um culto que lhe oferece clientes — moribundos sem nome nem história. A câmera então aprofunda o abismo entre ela e esse grupo de laços artificiais. Há uma longa cena de festa em que Mira permanece aos fundos, completamente isolada. Muitos espectadores rejeitam a sequência. Côté a mantém propositalmente. 'Eu queria que nos sentíssemos alienados, como ela', explica.
Em 21 anos de carreira e 17 filmes produzidos, o diretor não demonstra preocupação com sucesso ou fama. 'Sempre me sinto como um estudante de cinema', diz. Sua obra permanece à margem do cinema comercial — e 'A Violência de Ninguém' não oferece nenhuma das garantias que o público convencional costuma buscar.
Denis Côté chegou à 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo com um filme que nasceu de uma proximidade forçada com a morte. Após um transplante de rim e anos lutando contra uma doença degenerativa que o manteve afastado das câmeras, o cineasta canadense transformou essa experiência em "A Violência de Ninguém", uma obra de 117 minutos que acompanha uma mulher percorrendo um Canadá distópico, ajudando pessoas a morrer.
A protagonista Mira, interpretada por Larissa Corriveau, executa seu trabalho com uma frieza quase mecânica. Sozinha, acompanhada apenas por um cachorro leal, ela se move por esse mundo desolado atendendo aqueles que chegaram ao fim, mas permanece profundamente desconectada de tudo ao seu redor. Côté descreve a obra como uma tentativa de "representar uma dança com a morte", um projeto que só foi possível porque o diretor finalmente conseguiu enxergar com clareza novamente.
O cineasta é figura recorrente em festivais de cinema, onde seus projetos encontram acolhida mais fácil do que no circuito comercial. Seus filmes costumam habitar as margens, seguindo personagens controversos e isolados. Em seu longa de estreia, "Estados à Deriva", Côté misturou ficção e documentário para retratar o exílio de um homem que cometeu eutanásia contra a mãe — tema que ressoa especialmente no Canadá, onde a morte assistida foi legalizada há dez anos, mas continua gerando controvérsias globais. Depois vieram "Curling", sobre um pai hiperprotetor cuja vida na floresta é perturbada por cadáveres bizarros; "Bestiaire", que reexamina a relação entre humanos e animais em um zoológico; "Vic + Flo Viram um Urso", narrando a paixão entre duas ex-presidiárias; e "Paul", onde um rapaz solitário limpa casas de dominatrixes.
O que une essas produções não é uma estrutura narrativa convencional com começo, meio e fim bem delimitados. Côté trabalha com sensações, com atmosferas, com variações de tom e maneiras de filmar. "Gosto de brincar com formas e não sinto necessidade de criar histórias sólidas", explica. Ele cita os "gialli", aquele subgênero do terror centrado em assassinos e popularizado por Dario Argento e Mario Bava — filmes lembrados não por seus roteiros, mas pela forma como traduzem o medo em imagens e sons que desafiam a realidade. "O cinema é sobre mistério. É sobre se projetar em direção a ele. Não gosto de filmes que trabalham com evidências."
Em "A Violência de Ninguém", essa filosofia se materializa em passagens onde várias imagens se sobrepõem para representar sonhos e impulsos. O filme também sofre uma transformação abrupta na metade de sua duração. Mira visita um culto que a remunera e lhe oferece clientes — pessoas moribundas cujos nomes e histórias nunca são esclarecidos. A partir desse ponto, a direção reforça a distância entre a protagonista e essa família improvável, permeada por laços artificiais e construídos à força. Há uma cena particularmente longa em que Mira participa, aos fundos, de uma festa do grupo, totalmente isolada. Muitos espectadores não gostam dessa sequência. Côté a mantém propositalmente. "Eu queria que nos sentíssemos alienados, como ela."
O diretor reconhece que faz cinema para um público específico — aqueles curiosos o suficiente para se deixarem levar por 117 minutos de tons variados, personagens que surgem do nada, diálogos estranhos. "Eu só quero chegar àqueles que, como eu, gostam de brincar com o fogo", diz. Em 21 anos, produziu 17 filmes, e não tem tempo para se preocupar com sucesso ou fama. "Sempre me sinto como um estudante de cinema." Talvez por isso sua obra permaneça à margem do cinema comercial, onde a maioria dos espectadores escolhe ingressos baseada em trailers e fórmulas narrativas já conhecidas. "A Violência de Ninguém" oferece nenhuma dessas garantias.
Citas Notables
A ideia era representar uma dança com a morte. Se os filmes anteriores foram bons ou interessantes, não diria que foi por acidente, mas fico feliz de esse último ter sido feito em condições em que podia ver tudo com clareza.— Denis Côté
Faço cinema para pessoas curiosas. Nesse filme, trago 117 minutos de humores diferentes, personagens que aparecem do nada, diálogos estranhos. Eu só quero chegar àqueles que, como eu, gostam de brincar com o fogo.— Denis Côté