Ficção e realidade se encontram em filme rodado no Cine Dom José

Parece que eu estou escrevendo a história desse cara
Caru Alves percebeu que sua ficção sobre duas irmãs herdando um cinema pornô ecoava a realidade vivida por Giscard Luccas.
Mark

Como é que uma diretora acaba descobrindo um cinema pornô no centro de São Paulo e pensa "vou fazer um filme aqui"?

Mimi

Caru passava pelo centro com frequência, tomava cerveja no bar da frente do Cine Dom José e ficava observando. Ela estava tentando entender como aquele espaço funcionava, o que o mantinha vivo. Quando começou a procurar locação para o filme, aquele lugar já estava na sua imaginação.

Luke

Mas ela já tinha o roteiro pronto quando descobriu o cinema, certo? Então não foi exatamente o lugar que inspirou a história.

Mimi

Não, o roteiro já existia. Mas quando ela conheceu Giscard e ouviu a história dele — como ele mantém o cinema aberto, as pressões que enfrenta, as coisas estranhas que acontecem lá — ela percebeu que sua ficção ecoava a realidade dele de um jeito quase assustador.

Mark

E qual é a história do filme, exatamente?

Mimi

Duas irmãs herdam um cinema pornô. Uma delas, Gilda, passou a vida toda lá, mora e trabalha no cinema. A outra, Julieta, volta do exterior e quer vender o lugar o quanto antes. Elas entram em conflito.

Luke

E isso é exatamente o que Giscard está vivendo? Ele quer manter o cinema aberto e alguém quer fechá-lo?

Mimi

Não exatamente. Giscard é o único dono. Mas ele enfrenta pressões reais — especulação imobiliária, dificuldade de manter o negócio funcionando, a necessidade de alugar o espaço para outras coisas. O filme captura aquela tensão entre preservar um espaço e as forças que querem que ele desapareça.

Mark

Como ele resolveu o problema de ter que ceder o cinema para as filmagens?

Mimi

Ele tinha outro imóvel, o Cine Oásis, que estava alugado para uma igreja evangélica. Quando o contrato terminou, ele transferiu a operação do cinema pornô para lá. Montou tudo em vinte dias.

Luke

Espera — ele conseguiu montar uma sala de cinema funcional em vinte dias? Com 158 lugares?

Mimi

Sim. Recuperou poltronas antigas que estavam guardadas, adaptou o espaço, instalou os equipamentos. Avisou seus frequentadores com flyers e cartazes.

Luke

Mas ainda assim as pessoas aparecem no endereço antigo procurando entrar.

Mimi

Exatamente. É só 550 metros de distância, mas para pessoas idosas, rotineiras, é uma mudança significativa.

Mark

Qual é o tipo de pessoa que frequenta um cinema pornô no centro de São Paulo em 2026?

Mimi

Principalmente idosos LGBT. Para muitos deles, aquele espaço é um lugar de acolhimento e liberdade, onde podem exercer sua sexualidade sem julgamento.

  • Cine Dom José, inaugurado em 1955 como Cine Jussara, transformou-se em cinema erótico
  • Giscard Luccas transferiu a operação para o Cine Oásis em vinte dias, montando uma sala com 158 lugares
  • Frequentadores são principalmente idosos LGBT que encontram no espaço lugar de convivência e liberdade
  • Filmagens de 'Corações Solitários' começaram três semanas antes da publicação, com três semanas ainda por vir

O Cine Dom José, inaugurado em 1955, transformou-se em cinema erótico e agora abriga comunidade de frequentadores idosos que encontram no espaço lugar de acolhimento e liberdade. A diretora Caru Alves descobriu o cinema por acaso e percebeu que sua história ficcional sobre duas irmãs herdando um cinema pornô ecoava a realidade vivida pelo proprietário Giscard Luccas.

A diretora Caru Alves de Souza filma o longa 'Corações Solitários' no Cine Dom José, um cinema pornô do centro de SP que funciona como espaço de convivência para idosos LGBT. A ficção espelha a realidade do local.

Caru Alves de Souza cresceu sabendo que ser diretora de cinema era um trabalho raro para mulheres, e não porque as portas estivessem abertas — sua mãe, Tata Amaral, também cineasta, havia trilhado um caminho difícil. Quando Caru e sua produtora Rafaella Costa começaram a procurar a locação perfeita para filmar "Corações Solitários", um roteiro que ela havia escrito com Josefina Trotta, a diretora já tinha um lugar em mente: o Cine Dom José, no centro de São Paulo, um cinema pornô que ela observava há tempos, tomando cerveja no bar da frente, tentando compreender como aquele espaço funcionava e por que existia.

Giscard Luccas, filho de uma atriz e de um empresário dono de salas de cinema, havia herdado uma missão diferente: manter aquele cinema aberto. Não era um negócio fácil. O Cine Dom José, originalmente chamado Cine Jussara, havia sido inaugurado em 1955 com mais de mil lugares. Quando o circuito comercial de cinemas de rua entrou em colapso, a sala se transformou em cinema erótico. Mas para Giscard, o que importava não era o tipo de filme exibido — era a comunidade que se reunia ali. Seus frequentadores eram principalmente idosos LGBT que encontravam naquele espaço um lugar onde podiam exercer sua sexualidade livremente, longe de julgamentos, mesmo que os filmes em cartaz fossem heterossexuais. O cinema havia se tornado o centro nervoso de uma pequena comunidade, junto com o bar da frente e uma galeria do outro lado da rua.

Quando Caru e Rafaella bateram na porta de Giscard — ele usava uma das imensas salas nos andares superiores como escritório — algo inesperado aconteceu. Conforme Giscard contava a história de sua vida e de seu cinema, Caru percebeu que estava ouvindo a própria trama que já havia escrito. "Parece que eu estou escrevendo a história desse cara", ela lembrou de ter dito à produtora. Em "Corações Solitários", duas irmãs herdam um cinema pornô chamado Cine Astro após a morte do pai. Gilda, interpretada por Gilda Nomacce, passou a vida toda no cinema, mora e trabalha nele, e tem um apego profundo pelo negócio. Julieta, interpretada pela atriz e cantora Buhr, retorna ao Brasil depois de anos no exterior e quer vender o cinema o quanto antes. O conflito entre as duas irmãs espelhava perfeitamente o dilema que Giscard enfrentava: como manter aquele espaço funcionando em um mundo que o pressionava a desaparecer.

Manter um cinema pornô aberto criava problemas práticos. Afastava patrocinadores e parceiros comerciais. A especulação imobiliária no centro de São Paulo não parava de pressionar os donos de imóveis. Giscard havia começado a alugar o espaço para festas como forma de gerar receita adicional. Quando recebeu a proposta de alugar o cinema para as filmagens de "Corações Solitários", que começaram três semanas antes da publicação desta reportagem, ele enfrentou um dilema genuíno: o que fazer com seus frequentadores, que ele chamava de brincadeira de "velhinhos"?

A solução foi quase tão cinematográfica quanto o filme sendo rodado. Giscard e sua família possuíam outro imóvel, o Cine Oásis, que havia sido alugado por vinte anos para uma igreja evangélica ligada ao pastor R. R. Soares. Quando o contrato terminou pouco antes das filmagens começarem, Giscard transferiu a operação do cinema pornô para lá. Teve vinte dias para montar, do zero, uma sala com 158 lugares, recuperando poltronas antigas que estavam guardadas, adaptando o espaço e instalando os equipamentos necessários. Avisou seus frequentadores com flyers e cartazes, mas ainda assim, de vez em quando, alguém aparecia no Cine Dom José procurando entrar. A equipe orientava os visitantes: o novo endereço era Praça Júlio de Mesquita, 123 — apenas 550 metros, ou oito minutos a pé, do cinema original.

Enquanto as filmagens prosseguiam, a vida real do Cine Dom José se tornava material para a ficção. Caru incorporou histórias que Giscard havia compartilhado: um espectador que saiu do cinema com a braguilha aberta, seguido por uma prostituta gritando por pagamento. Histórias mais sombrias também. Giscard contou que pessoas haviam morrido na sala — não uma vez, mas três ou quatro vezes. Como o cinema não tinha sessões convencionais, com filmes passando continuamente e espectadores entrando e saindo quando queriam, as mortes só eram descobertas quando as luzes eram acesas ao final do dia. "O duro é que quase sempre as famílias não têm ideia do que esses senhores estão fazendo no meio da tarde", Giscard refletiu.

Uma das cenas filmadas capturou algo diferente: nostalgia e alegria. Durante uma das chuvas torrenciais que caem frequentemente na cidade, a água começou a vazar dentro do cinema, escorrendo pela parede lateral sobre o público. Gilda, a irmã que sempre cuidou do Cine Astro, quase desmaia ao perceber a água. Julieta, porém, acha a cena romântica, pega um balde que estava ali para recolher goteiras e começa a dançar e cantarolar "Singin' in the Rain", como Gene Kelly no clássico de 1952. Os outros espectadores na sala se juntam a ela, cantando e dançando, todos ensopados mas felizes.

"Corações Solitários" — ou "Cine Astro", como a equipe começava a considerar como título — estava no meio das filmagens quando esta reportagem foi publicada, com três semanas ainda por vir. Depois viriam a pós-produção, edição e finalização. A expectativa era que o filme ficasse pronto no segundo semestre de 2027. Segundo Caru, "ele tem jeito de festivais, que dão uma visibilidade importante para a obra". O elenco reunia Buhr, Gilda Nomacce, Leilah Moreno, Grace Gianoukas, Mestre Ivamar, Carlota Joaquina, Iara Jamra, Paula Pretta e Pedro Noizyman. E Giscard Luccas, que faz o papel de um fiscal da prefeitura que vai ao cinema e determina que ele seja fechado — um momento em que a arte tirou um sarro da vida.

O Cine Dom José pairava na minha imaginação há muito tempo. Eu tentava entender como é que esse cinema pornô existia, como funcionava.
— Caru Alves de Souza, diretora
Essa história de gente morrer não aconteceu nem uma vez só, foram umas três ou quatro. O duro é que quase sempre as famílias não têm ideia do que esses senhores estão fazendo no meio da tarde.
— Giscard Luccas, proprietário do Cine Dom José
Envie de l'histoire complète ? Lire l'original sur Folha de S.Paulo ↗
Nous contacter FAQ