O festival resgata a atmosfera do histórico show 'Paraíso' de 1977, quando Milton levou artistas como Chico Buarque para tocar gratuitamente em sua cidade natal. Wagner Tiso, aos 80 anos, participou de homenagens ao amigo Milton, que aos 83 anos enfrenta diagnóstico de demência e não compareceu ao evento.
Festival em Três Pontas celebra legado de Milton Nascimento e Wagner Tiso
Dali saía som e beleza
Por que um festival em homenagem a Milton e Wagner importa tanto para uma cidade pequena como Três Pontas?
Porque esses dois homens moldaram o som da cidade. Não é apenas sobre celebridade—é sobre o fato de que a música deles saiu daquele lugar específico, daquelas montanhas, daquele trem que passava. A cidade inteira respira música porque eles respiraram.
O show de 1977 parece ter sido algo extraordinário. Como o festival de agora se relaciona com aquilo?
Não tenta ser igual. Aquele show foi acidental, espontâneo, capturou um momento irrepetível. Este festival é mais estruturado, mas tenta resgatar o espírito—a ideia de que a música pertence a todos, não apenas aos palcos grandes.
Wagner Tiso estava lá, mas Milton não. Como isso muda o significado do evento?
Muda tudo e nada ao mesmo tempo. A ausência de Milton é sentida, é real. Mas sua música está em cada nota tocada. Wagner representou aquela amizade, aquela parceria que durou décadas. Ele estava ali dizendo: o que fizemos juntos continua vivo.
A serenata no cemitério parece ser o coração do festival. Por quê?
Porque é onde a morte e a música se encontram de verdade. Não é sentimental ou artificial. É uma família tocando para seus mortos, e a comunidade se junta. É a tradição mais pura—começou com um pedido de um homem há 50 anos e virou parte de quem aquela cidade é.
Como a geografia—as montanhas, o trem—se torna parte da música?
Milton transformou a paisagem em arte. Aquelas três montanhas não são apenas o que você vê; são o que você ouve. O trem que trazia discos, as montanhas que ensinaram a cantar. A cidade não é cenário da música; é matéria-prima dela.
Le Pouls
- Festival Música do Mundo retornou após dez anos de hiato, de quinta a domingo
- Milton Nascimento tem 83 anos e enfrenta diagnóstico de demência por corpos de Lewy
- Wagner Tiso, aos 80 anos, participou de homenagens ao amigo no sábado
- Show 'Paraíso' de 1977 levou Chico Buarque, Clementina de Jesus e outros para tocar gratuitamente
- Serenata no cemitério começou há 50 anos a partir de pedido de Mário Tiso
O festival resgata a atmosfera do histórico show 'Paraíso' de 1977, quando Milton levou artistas como Chico Buarque para tocar gratuitamente em sua cidade natal. Wagner Tiso, aos 80 anos, participou de homenagens ao amigo Milton, que aos 83 anos enfrenta diagnóstico de demência e não compareceu ao evento.
Festival Música do Mundo retorna após dez anos em Três Pontas, homenageando Milton Nascimento e Wagner Tiso com programação gratuita que resgata a tradição musical da cidade mineira.
Numa sexta-feira à noite, três jovens tocam violão sentados num banquinho diante da praça central de Três Pontas. Pela manhã, uma fanfarra percorre as ruas enquanto moradores dançam atrás dela. Ao entardecer, uma família leva instrumentos até o cemitério e faz uma serenata para cerca de cem pessoas. Em todas essas cenas, a música de Milton Nascimento e Wagner Tiso tece a narrativa comum.
Essas imagens resumem o retorno do festival Música do Mundo, que interrompeu suas atividades por uma década e voltou entre quinta-feira e domingo com uma programação majoritariamente gratuita dedicada aos dois filhos mais notáveis da cidade de 55 mil habitantes no sul de Minas Gerais. O evento nasceu em 2009 a partir da iniciativa de Maria Dolores, autora da biografia "Travessia: A Vida de Milton Nascimento" lançada duas décadas antes. Sua inspiração veio do show "Paraíso", realizado em 1977, quando Milton decidiu convidar amigos como Chico Buarque, Clementina de Jesus, Gonzaguinha e Beto Guedes para tocar gratuitamente na cidade onde cresceu. Aquele encontro, marcado pela casualidade e pela espontaneidade, ficou conhecido como o "Woodstock mineiro" e entrou para a história da música popular brasileira.
A edição atual possui estrutura bem mais robusta, embora não pretenda replicar aquela magia irrepetível dos anos 1970. O objetivo é olhar para o legado musical criado por essas figuras célebres numa cidade do interior. Dos dois homenageados, apenas Wagner Tiso, aos 80 anos, conseguiu estar presente. Milton, conhecido como Bituca, tem 83 anos e recebeu diagnóstico de demência por corpos de Lewy no ano anterior, o que o afastou praticamente das aparições públicas. No sábado, quando artistas como Nando Reis, Chico Chico e Beto Guedes se apresentaram no palco principal instalado no aeroporto da cidade, Tiso participou de uma homenagem ao amigo através do Ânima Minas, um tributo feito por músicos trespontanos que trabalharam com Milton ao longo da vida. Ele subiu ao palco ao final da apresentação e tocou "Maria, Maria" e "Coração de Estudante" no piano.
Em conversa com a reportagem naquela tarde, Wagner Tiso elegeu "Coração de Estudante" como sua parceria preferida com Milton. A canção se tornou uma espécie de hino do movimento das Diretas Já e integrou toda aquela mobilização política. Tiso havia composto a música originalmente para a trilha do filme "Jango", de Silvio Tendler, sobre João Goulart, e ela se chamava "Tema de Jango". Quando Milton assistiu à estreia do filme com ele, perguntou se podia adicionar uma letra. "Eu falei 'pô, Bituca, não precisa nem pedir'", recorda Tiso.
A mesma canção ecoou na noite anterior, durante a serenata que a família Tiso realizou no cemitério. Essa celebração começou há 50 anos, quando Mário Tiso pediu aos familiares que tocassem diante de seu túmulo quando falecesse. O encontro cresceu e se transformou numa tradição que agora foi incorporada ao festival. Foi um dos momentos mais tocantes do evento. Uma dezena de cantores e músicos de diferentes idades percorreu clássicos de Milton como "Encontros e Despedidas", "Travessia" e "Morro Velho" enquanto crianças brincavam entre as lápides e adultos se espalhavam sentados no chão, em cadeirinhas e nos próprios túmulos. Quando Wagner Tiso chegou, foi apresentado como "um primo que está aprendendo a tocar piano" e logo levou algumas pessoas às lágrimas. A noite prosseguiu com revezamento de microfone e faixas de Gilberto Gil, Pixinguinha e Chico Buarque.
O som dos instrumentos e vozes ecoando pelo cemitério retrata bem a herança sonora da cidade, um lugar onde a música brota de todos os cantos: pelas frestas das janelas das casas, portas das igrejas, pequenos palcos dos bares e corredores das escolas. Na manhã de sexta, a Banda Marcial Mário Tiso fez um cortejo que saiu da praça principal e terminou ao som de "Raça", de Milton, em frente à casa onde o artista cresceu. As irmãs dele, Jaceline e Beth, e uma prima, Vilma, assistiram à apresentação pela janela.
Foi naquela mesma casa, no caminho para a escola, que Wagner Tiso viu Milton pela primeira vez, ainda crianças. "Eu sempre achei muito interessante aquela figurinha sentada na escadaria com uma gaita entre os joelhos e um violão embaixo das pernas", lembra o músico. "Ele ficava ali tocando e soprando a gaitinha. E eu pensava 'poxa, é uma figura estranha'. Mas eu já via que dali saía som e beleza." Anos depois, a dupla passou a frequentar o Pizza Dog, bar que fez parte do circuito do festival. Chico Chico e outros músicos mantiveram a tradição do lugar e improvisaram no piano do irmão de Wagner, Gileno, que fica ali. O festival encontrou nessa recriação uma forma de evocar aquela atmosfera dos tempos passados. Betina Duarte Sousa, amiga de Milton e parte da produção do evento, recorda que o Pizza Dog se tornou um ponto de encontro de músicos por causa de Bituca. "Ele é um agregador. O dia a dia fazia a gente se dispersar, mas, quando ele dizia que vinha, era uma festa." Beth, irmã de Milton, confirma: as visitas dele viravam feriado, ninguém queria ir para a escola nem se afastar. "A gente só queria ficar grudadas no Bituca."
Era na fazenda de Duarte Sousa que Milton fazia caminhadas quando retornava à cidade. Da estrada de terra é possível ver a serra que batizou Três Pontas e que Milton adaptou numa pintura que se tornaria a capa do álbum "Geraes", que completa cinco décadas neste ano e também foi celebrado pelo festival. Nas mãos do cantor, o cenário virou um desenho simples: três montanhas pontudas sob o sol e um trem avançando na ferrovia. São elementos da história da cidade onde cresceu, mas também partes indissociáveis de sua arte—o eco das montanhas que usou para aprender a cantar, o trem que trazia os discos que o influenciariam, o horizonte de suas canções e, enfim, o sol na cabeça.
Citations marquantes
Ele é um agregador. O dia a dia fazia a gente se dispersar, mas, quando ele dizia que vinha, era uma festa.— Betina Duarte Sousa, amiga de Milton e parte da produção do evento
A gente só queria ficar grudadas no Bituca.— Beth, irmã de Milton Nascimento