Há sessenta anos, o Festival de Brasília de Cinema Brasileiro resiste a ditaduras e pandemias como testemunha viva da cultura nacional — mas hoje enfrenta uma ameaça mais prosaica e, por isso, mais reveladora: a indiferença burocrática. Quarenta trabalhadores sustentam o evento desde março sem receber salário, enquanto R$ 3 milhões em financiamento público permanecem sem destino claro, entre uma negativa do secretário de Cultura e uma confirmação vaga da governadora feita sob pressão popular. O que está em jogo não é apenas uma edição de festival, mas a pergunta sobre o quanto uma sociedade va
Festival de Cinema de Brasília confirma edição, mas equipe segue sem receber desde março
Quarenta pessoas trabalhando desde março sem receber um centavo
Como é possível um festival com sessenta anos de história chegar a esse ponto — com quarenta pessoas trabalhando sem receber?
Porque o financiamento público não acompanhou a realidade. O dinheiro deveria ter começado em janeiro ou fevereiro. Não veio. As pessoas continuaram trabalhando porque o festival é importante, porque acreditam nele. Mas há um limite para isso.
E o Banco de Brasília? Ele não deveria estar ajudando?
Deveria, e tecnicamente está tentando. Mas o BRB enfrenta sua própria crise — a pior em sua história. Além disso, o dinheiro que ele oferece é reembolso, não adiantamento. Significa que o festival precisa gastar primeiro, depois pedir o dinheiro de volta. Sem caixa, isso é impossível.
A governadora confirmou o festival, mas não explicou de onde virá o dinheiro. Isso não é estranho?
É mais do que estranho. É uma confirmação sem solução. Ela disse que a Secretaria de Economia vai "providenciar os recursos", mas ninguém sabe de onde. Pode ser que cancelem outro gasto, pode ser que encontrem uma fonte que ninguém conhece. A incerteza é o pior cenário possível.
Se o festival for cancelado, qual seria o impacto?
Seria histórico. Sessenta anos, e nunca aconteceu por falta de dinheiro. Nem na ditadura — apenas em protesto. O Cine Brasília também sofreria, porque é a sede do festival. E há uma questão simbólica: o Brasil estaria dizendo que não consegue financiar seu festival de cinema mais antigo.
Quanto tempo resta?
Uma semana. Os organizadores dizem que precisam do dinheiro até o fim desta semana para conseguir fazer tudo a tempo. A abertura é em um mês. É um prazo muito curto para resolver uma crise que vem se arrastando desde março.
The Pulse
- Quarenta trabalhadores atuam há meses sem remuneração — fazendo curadoria, divulgação e logística — enquanto passagens aéreas para convidados sequer foram emitidas por falta de verba.
- O secretário de Cultura negou publicamente o financiamento na mesma segunda-feira em que a governadora, pressionada pela repercussão, anunciou que o festival estava confirmado — sem explicar de onde virá o dinheiro.
- O principal patrocinador privado, o Banco de Brasília, atravessa sua pior crise histórica e opera sem divulgar balanços há um ano, tornando incerta até mesmo a contribuição de R$ 750 mil já prevista em contrato.
- O festival mais antigo do Brasil — que sobreviveu à censura da ditadura e à pandemia — corre o risco inédito de ser cancelado por insolvência administrativa, com abertura marcada para 11 de setembro e prazo crítico expirando ao fim desta semana.
Há sessenta anos, o Festival de Brasília de Cinema Brasileiro resiste a ditaduras e pandemias como testemunha viva da cultura nacional — mas hoje enfrenta uma ameaça mais prosaica e, por isso, mais reveladora: a indiferença burocrática. Quarenta trabalhadores sustentam o evento desde março sem receber salário, enquanto R$ 3 milhões em financiamento público permanecem sem destino claro, entre uma negativa do secretário de Cultura e uma confirmação vaga da governadora feita sob pressão popular. O que está em jogo não é apenas uma edição de festival, mas a pergunta sobre o quanto uma sociedade valoriza sua própria memória cinematográfica quando o custo é concreto e o holofote se apaga.
Na manhã de 10 de agosto, o secretário de Cultura do Distrito Federal reuniu-se com os organizadores do Festival de Brasília e entregou uma notícia direta: não havia dinheiro público para o evento. Horas depois, a governadora Celina Leão desmentiu publicamente a posição, confirmando o festival — mas sem explicar de onde viriam os R$ 3 milhões necessários. Entre uma declaração e outra, o que mudou foi apenas a pressão da opinião pública.
Enquanto o impasse político se desenrolava, cerca de quarenta pessoas já trabalhavam há meses na 59ª edição sem receber um centavo. Elas triaram 1.928 inscrições de filmes — um recorde histórico —, concluíram a curadoria e enviaram convites a cineastas e artistas de todo o país. A programação está pronta para ser anunciada. As passagens aéreas, porém, ainda não foram emitidas: não há verba para isso.
O financiamento deveria ter chegado desde o primeiro semestre. Desde 2024, o Banco de Brasília contribui com R$ 750 mil anuais, mas apenas como reembolso pós-comprovação de despesas — e o banco atravessa sua pior crise histórica, sem publicar balanços há um ano após transações problemáticas com o Banco Master. Ainda assim, o diretor-geral de produção, Henrique Rocha, afirma que a instituição sinalizou intenção de manter o contrato.
O que torna a crise especialmente simbólica é a história que ela ameaça interromper. Fundado em 1965, o Festival de Brasília é o mais antigo do Brasil. Resistiu à ditadura — chegando a se suspender voluntariamente entre 1972 e 1974 em protesto —, atravessou a pandemia e é patrimônio imaterial do Distrito Federal desde 2007. Um cancelamento por falta de recursos seria absolutamente inédito. O Cine Brasília, projetado por Niemeyer e tombado como Patrimônio Mundial em 1987, também sentiu a pressão, com risco de fechamento e inadimplência com fornecedores e funcionários.
Os organizadores são categóricos: o dinheiro precisa chegar até o fim desta semana. A abertura está marcada para 11 de setembro. O governo disse que a Secretaria de Economia vai "providenciar os recursos", mas não disse como — nem o que será sacrificado para isso. O relógio corre, e a resposta ainda não veio.
Na segunda-feira, 10 de agosto, o secretário de Cultura do Distrito Federal, Fernando Modesto, reuniu-se com os organizadores do Festival de Brasília de Cinema Brasileiro e comunicou algo que ninguém queria ouvir: não havia dinheiro público para o evento. A notícia caiu como uma bomba. Horas depois, porém, a governadora Celina Leão (PP) anunciou publicamente que o festival estava confirmado. O que havia mudado entre uma reunião e outra? Nada, exceto a pressão da opinião pública.
No centro dessa confusão está uma quantia que, para um festival de cinema, é considerada modesta: R$ 3 milhões em financiamento público. Esse dinheiro deveria ter começado a ser repassado desde o primeiro semestre do ano. Não foi. Cerca de quarenta pessoas trabalham na montagem da 59ª edição desde março — fazendo divulgação, curando filmes, criando materiais, organizando logística. Até segunda-feira, nenhuma delas havia recebido um centavo.
O trabalho realizado foi substancial. No primeiro semestre, o festival recebeu 1.928 inscrições de filmes entre curtas, médias e longas-metragens, um recorde histórico. Toda a triagem, organização e curadoria dessas obras já foi concluída. A programação será anunciada na próxima semana. Convites já foram enviados para cineastas, realizadores, professores e artistas de fora do Distrito Federal. Mas as passagens aéreas? Ainda não foram emitidas. Não há dinheiro para isso.
Desde 2024, o principal patrocinador do festival é o Banco de Brasília (BRB), que contribui com R$ 750 mil por ano — mas apenas como reembolso, ou seja, depois que as despesas são comprovadas. O BRB enfrenta a pior crise de sua história e não divulga balanços há um ano, resultado de transações malsucedidas com o Banco Master. Ainda assim, segundo o diretor-geral de produção do festival, Henrique Rocha, o banco demonstrou intenção de manter o contrato.
A governadora disse ter determinado que a Secretaria de Economia "providencie os recursos necessários". Mas de onde virão? O governo ainda não explicou. E se algum outro gasto precisar ser cancelado para garantir o festival, também não disse.
O que torna essa crise particularmente grave é o que está em jogo. Criado em 1965, o Festival de Brasília é o mais antigo festival de cinema do Brasil. Em sessenta anos, ele só deixou de acontecer entre 1972 e 1974, quando foi suspenso em protesto contra a ditadura militar. Continuou durante a pandemia de Covid-19. Desde 2007, é considerado patrimônio imaterial do Distrito Federal. Um cancelamento por falta de dinheiro seria inédito.
O Cine Brasília, que abriga o festival desde sua criação, também está sob pressão. Projetado por Oscar Niemeyer e inaugurado em 1960, o cinema recebeu o título de Patrimônio Mundial da Humanidade em 1987 e é um dos mais importantes equipamentos de exibição cinematográfica da América Latina. Sem recursos, correu risco de fechar as portas, afetando o pagamento de seus próprios funcionários e fornecedores.
Os organizadores do festival dizem que precisam receber o dinheiro até o fim desta semana para viabilizar a edição de 2026. A abertura está marcada para 11 de setembro — exatamente um mês depois. O relógio está correndo, e a resposta do governo ainda não chegou.
Notable Quotes
Secretário de Cultura afirmou que não haveria dinheiro público para o evento— Fernando Modesto, secretário de Cultura
Governadora determinou que a Secretaria de Economia providencie os recursos necessários— Celina Leão, governadora do Distrito Federal