Por sessenta anos, o Festival de Cinema de Brasília sobreviveu a ditaduras e pandemias como guardião da memória cultural brasileira. Em 2026, pela primeira vez, não haverá festival — não por censura ou catástrofe, mas por ausência de verbas públicas e pelo colapso financeiro de seu patrocinador master. O que a força política e a adversidade histórica não conseguiram interromper, a crise orçamentária do Distrito Federal conseguiu. O silêncio onde deveria haver cinema é, em si, um documento sobre o tempo em que vivemos.
Festival de Cinema de Brasília cancelado por falta de verbas após 60 anos
Sessenta anos de resistência, derrotados pela falta de dinheiro
Como é possível que um festival com sessenta anos de história, que resistiu à ditadura, simplesmente desapareça por falta de dinheiro?
Porque a resiliência cultural não sobrevive sem infraestrutura financeira. O festival resistiu à ditadura porque havia vontade política de resistir. Agora há apenas apatia orçamentária.
E o Banco de Brasília? Era o patrocinador master. O que aconteceu?
Entrou em colapso. Transações malsucedidas com outro banco o deixaram em crise — a pior de sua história. Não divulga balanços há um ano. Não há dinheiro para dar.
Mas o governo do Distrito Federal não deveria ter um orçamento para cultura?
Deveria. Mas quando o patrocinador master falha e o governo não compensa, a máquina para. Quarenta pessoas ficaram sem salário.
E o Cine Brasília? É um prédio de Oscar Niemeyer, patrimônio mundial.
Exatamente. Um patrimônio mundial que não consegue pagar seus funcionários. A arquitetura permanece, mas o funcionamento desaparece.
Isso é reversível? Pode voltar em 2027?
Tecnicamente sim. Mas há uma pergunta maior: se um festival de sessenta anos pode ser cancelado assim, o que mais está frágil?
The Pulse
- O mais antigo festival de cinema do Brasil, que resistiu à ditadura e à pandemia, foi cancelado pela primeira vez em 60 anos por falta de dinheiro.
- Mais de 40 profissionais — curadores, produtores, técnicos — ficaram sem salário enquanto governo e banco patrocinador se enredavam numa crise financeira silenciosa.
- O Banco de Brasília, patrocinador master desde 2024, não divulga balanços há um ano após transações malsucedidas, deixando o festival sem o aporte esperado.
- O Cine Brasília, patrimônio de Oscar Niemeyer e único cinema de rua do DF, também enfrenta risco de fechamento por falta de repasse governamental.
- O Palácio do Buriti permanece em silêncio oficial, enquanto a curadoria já estava concluída e os filmes já haviam sido selecionados para a edição cancelada.
Por sessenta anos, o Festival de Cinema de Brasília sobreviveu a ditaduras e pandemias como guardião da memória cultural brasileira. Em 2026, pela primeira vez, não haverá festival — não por censura ou catástrofe, mas por ausência de verbas públicas e pelo colapso financeiro de seu patrocinador master. O que a força política e a adversidade histórica não conseguiram interromper, a crise orçamentária do Distrito Federal conseguiu. O silêncio onde deveria haver cinema é, em si, um documento sobre o tempo em que vivemos.
Desde 1965, o Festival de Cinema de Brasília funcionou como termômetro cultural do país. Resistiu à ditadura militar — quando deixou de acontecer entre 1972 e 1974 em protesto, mas depois retornou. Sobreviveu à pandemia quando outras instituições desapareceram. Neste ano, pela primeira vez em seis décadas, não haverá festival. O governo do Distrito Federal não garantiu os recursos para pagar a equipe e cobrir os custos de produção. O Palácio do Buriti não se pronunciou oficialmente.
A 59ª edição estava marcada para setembro. A curadoria já estava feita, os filmes já haviam sido selecionados. Apenas uma semana antes do cancelamento, mais de quarenta pessoas envolvidas na produção ainda aguardavam seus salários. A Secretaria de Cultura reconheceu os atrasos, mas negou que o cancelamento fosse iminente — até que foi.
O colapso tem raízes mais profundas. O Banco de Brasília, patrocinador master desde 2024, atravessa a pior crise de sua história e não divulga balanços há um ano, após transações malsucedidas com o Banco Master. Sem esse aporte, a engrenagem do festival travou.
O problema se estende ao Cine Brasília, último cinema de rua do Distrito Federal e sede histórica do festival. Projetado por Oscar Niemeyer e inaugurado em 1960, é Patrimônio Mundial da Humanidade desde 1987 e um dos mais importantes equipamentos cinematográficos da América Latina. Em julho, a falta de repasse já ameaçava seu fechamento e comprometia o pagamento de funcionários e fornecedores.
O cancelamento é o ponto final de uma crise que continua. O Cine Brasília permanece de pé, mas frágil, aguardando uma decisão sobre seu futuro. O que ditaduras e pandemias não conseguiram destruir, a ausência de vontade orçamentária conseguiu suspender.
Sessenta anos. Desde 1965, o Festival de Cinema de Brasília funcionou como um termômetro da vida cultural do país — resistiu à ditadura militar, sobreviveu à pandemia, manteve-se de pé enquanto outras instituições desapareciam. Neste ano, pela primeira vez em seis décadas, não haverá festival. O governo do Distrito Federal não garantiu os recursos necessários para pagar a equipe e cobrir os custos de produção do evento. A notícia foi revelada pela rádio CBN e confirmada ao g1 por membros da administração e pela organização responsável pelo festival. O Palácio do Buriti, até o momento, não se pronunciou oficialmente.
A 59ª edição estava marcada para começar em 11 de setembro. A curadoria já tinha sido feita. Os filmes já tinham sido selecionados para a mostra competitiva e para as mostras de exibição. Os títulos ainda não tinham sido divulgados ao público quando a decisão de cancelamento foi tomada. Apenas uma semana antes, o g1 e a TV Globo tinham reportado que a organização social contratada para tocar o evento e mais de quarenta pessoas envolvidas na produção estavam sem receber seus salários. Na ocasião, a Secretaria de Cultura reconheceu o atraso nos pagamentos, mas negou que o cancelamento fosse iminente, afirmando estar em diálogo com as áreas competentes do governo para avaliar as condições orçamentárias.
O colapso financeiro não é repentino. Desde 2024, o Banco de Brasília (BRB) é o patrocinador master do festival. O banco enfrenta a pior crise de sua história — não divulga balanços há um ano devido a transações malsucedidas com o Banco Master. Sem o aporte esperado, a engrenagem que mantinha o evento funcionando começou a travar.
Mas o problema é maior que o festival. Em julho, a falta de repasse já tinha atingido o Cine Brasília, o último cinema de rua do Distrito Federal e o maior do país. O espaço é a sede do Festival de Cinema de Brasília desde sua criação. Sem recursos, a instituição correu o risco de fechar as portas. Os gestores reportaram que a situação já afetava o pagamento de funcionários e fornecedores, comprometendo o próprio funcionamento do cinema.
O Cine Brasília não é apenas um espaço de exibição. Parte do projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer, foi inaugurado em 1960 e recebeu o título de Patrimônio Mundial da Humanidade em 1987. É um dos mais importantes equipamentos culturais de exibição cinematográfica da América Latina. Desde 2007, o festival em si é considerado patrimônio imaterial do Distrito Federal.
O que torna este cancelamento particularmente significativo é o que o festival já sobreviveu. Entre 1972 e 1974, não houve edições — em protesto contra a ditadura militar. Mas depois voltou. Durante a pandemia de Covid-19, quando tantas instituições culturais fecharam, o festival encontrou maneira de continuar. Agora, em tempos de paz e normalidade, é a falta de dinheiro que o detém.
Mais de quarenta pessoas deixaram de receber. A equipe que faz o festival funcionar — desde curadores até produtores, técnicos, administrativos — ficou sem salário enquanto o governo e o banco patrocinador travavam uma luta silenciosa pela sobrevivência financeira. O cancelamento é o ponto final dessa história, mas não é o fim da crise. O Cine Brasília continua de pé, mas frágil, aguardando uma decisão sobre seu futuro.
Notable Quotes
Estava em diálogo com a organização do evento e com as áreas competentes do governo do Distrito Federal para avaliar as condições orçamentárias e financeiras necessárias à sua realização— Secretaria de Cultura do DF