Desde 1965, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro atravessa ditaduras, censuras e crises orçamentárias como um espelho fiel da alma cultural do país. Ao completar 59 edições, o evento reafirma que a memória coletiva de uma nação não se apaga por decreto nem por falta de verba — ela resiste, organiza-se e volta a projetar luz na tela grande. A sobrevivência desta edição, arrancada da incerteza pela pressão da sociedade civil, é ela mesma um ato cinematográfico: a narrativa de um povo que recusa o silêncio.
Festival de Brasília chega à 59ª edição após crise orçamentária e resgate do cinema nacional
Nada substitui a liturgia de assistir a um filme numa sala de cinema
Como um festival que começou em 1965 conseguiu sobreviver a seis décadas de mudanças tão radicais no país e na indústria do cinema?
Porque ele nunca foi apenas um festival. Desde o início, foi um espaço político — um lugar onde cineastas, críticos e diplomatas se reuniam para debater. Isso o tornou alvo da ditadura, mas também o tornou insubstituível. Quando a ditadura o fechou entre 1972 e 1974, a comunidade cultural o trouxe de volta.
Mas é importante notar que ele fechou. Não foi contínuo. E agora, em 2026, quase fecha de novo por falta de dinheiro. Isso sugere que a sobrevivência dele depende muito mais de mobilização política e pressão da mídia do que de um modelo sustentável.
O que exatamente mudou quando o festival se tornou patrimônio imaterial em 2007?
Formalmente, ganhou proteção legal e reconhecimento oficial. Mas na prática, como vimos este ano, isso não garante financiamento. O que realmente o protege é a comunidade — cineastas, críticos, a sociedade civil inteira.
Patrimônio imaterial é um título simbólico. Não vem com orçamento garantido. E a fonte deixa claro que o governo atrasou repasses em julho e quase cancelou o festival em 2026. O título não impediu nenhuma dessas crises.
Por que Sara Rocha insiste tanto que nada substitui a experiência de cinema numa sala escura?
Porque é verdade — e porque é uma defesa. Quando você tem streaming, plataformas, acesso ilimitado em casa, a sala de cinema vira um luxo. Ela está argumentando que não é luxo, é experiência irredutível. É também um argumento para que o governo invista.
É um argumento válido, mas também é retórica. A questão real é: quantas pessoas estão dispostas a sair de casa para isso? Mais de 35 mil espectadores nas últimas edições é bom, mas em uma cidade de mais de 3 milhões? Não sabemos se o público está realmente voltando ou se é sempre o mesmo público.
O festival é realmente tão importante para o cinema brasileiro quanto a matéria sugere?
Sim. Revelou Zezé Motta, premiou "A Hora da Estrela", foi palco da última aparição pública de Grande Otelo. Esses não são detalhes — são marcos. E funciona como ágora onde o setor debate políticas públicas.
Mas a matéria não diz quantos filmes exibidos no festival depois se tornaram sucessos comerciais, quantos cineastas revelados aqui tiveram carreira internacional, ou qual é o impacto econômico real. Sabemos que é historicamente importante, mas o impacto contemporâneo não está claro.
Le Pouls
- O governo do Distrito Federal não garantiu o financiamento a tempo, e o festival chegou a ser cancelado oficialmente por falta de recursos.
- Cineastas, entidades audiovisuais, imprensa e público pressionaram em uníssono, transformando uma crise burocrática em mobilização cultural de alcance nacional.
- As equipes trabalharam de março a agosto sem saber se o evento aconteceria, absorvendo meses de incerteza antes de a primeira parcela ser liberada.
- O Cine Brasília, sala mais antiga em funcionamento contínuo do país, também enfrentou atraso no repasse semestral, ameaçando salários e fornecedores.
- Com mais de 70 produções e sessões espalhadas pelo Distrito Federal, a 59ª edição abriu na sexta-feira 11 de setembro e segue até o dia 19, provando que a resistência chegou à linha de chegada.
Desde 1965, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro atravessa ditaduras, censuras e crises orçamentárias como um espelho fiel da alma cultural do país. Ao completar 59 edições, o evento reafirma que a memória coletiva de uma nação não se apaga por decreto nem por falta de verba — ela resiste, organiza-se e volta a projetar luz na tela grande. A sobrevivência desta edição, arrancada da incerteza pela pressão da sociedade civil, é ela mesma um ato cinematográfico: a narrativa de um povo que recusa o silêncio.
O Cine Brasília abriu suas portas em 1965 — o mesmo ano em que nasceu o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Seis décadas depois, a instituição chega à 59ª edição carregando a história inteira do cinema nacional: os filmes que marcaram época, os cineastas que definiram gerações e as cicatrizes de um país que tentou silenciar a cultura.
Em 1967, o festival ganhou o nome que carrega até hoje e se tornou um espaço onde diplomatas, jornalistas e críticos debatiam cinema e política — combinação que o tornou perigoso aos olhos da ditadura militar. Em 1971, o documentário 'O país de São Saruê', de Vladimir Carvalho, foi censurado e substituído por um filme de futebol. O público vaiou. O festival fechou entre 1972 e 1974, sua única interrupção em quase seis décadas, e retornou em 1975.
Daí em diante, o evento revelou nomes que definiram o cinema brasileiro: Zezé Motta recebeu seu primeiro prêmio aqui em 1976, 'A Hora da Estrela' foi coroado melhor filme em 1985, e Grande Otelo fez sua última aparição pública no festival. Em 2007, o evento foi reconhecido como patrimônio imaterial do Distrito Federal.
Esta edição, porém, quase não aconteceu. O governo do DF não havia garantido o financiamento, e o festival foi cancelado por falta de verba. A pressão da comunidade cultural, de entidades do setor audiovisual e da imprensa forçou a liberação dos recursos — mas apenas em agosto, meses depois de as equipes já terem começado a trabalhar. O Cine Brasília também enfrentou atraso no repasse semestral, ameaçando funcionários e fornecedores.
Sara Rocha, diretora-geral do festival, foi direta: foi a sociedade civil que salvou o evento. Para ela, o festival continua sendo algo que nenhuma plataforma de streaming substitui — 'a liturgia de assistir a um filme numa sala de cinema', com tela grande, som envolvente e escuridão compartilhada. Com mais de 70 produções e sessões em várias regiões do DF, a 59ª edição abriu em 11 de setembro e segue até o dia 19, lembrando que cultura não é luxo — é resistência.
O Cine Brasília, a sala de cinema mais antiga em funcionamento contínuo do país, abriu suas portas pela primeira vez em 1965 — o mesmo ano em que nasceu o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Seis décadas depois, a instituição chega à sua 59ª edição carregando consigo a história inteira do cinema nacional: os filmes que marcaram época, os cineastas que definiram gerações, e as cicatrizes de um país que tentou silenciar a cultura.
Quando o festival começou, em 1965, era apenas uma semana de exibições. Dois anos depois, em 1967, ganhou o nome que carrega até hoje e se transformou em algo maior — um espaço onde diplomatas, jornalistas e críticos se reuniam para debater cinema e política. Essa combinação o tornou perigoso aos olhos da ditadura militar. Em 1971, no auge da repressão, o documentário "O país de São Saruê", de Vladimir Carvalho, foi censurado e substituído por um filme sobre futebol. O público vaiou. A tensão cresceu. O festival fechou entre 1972 e 1974 — sua única interrupção em quase seis décadas — e retornou apenas em 1975.
Mas o festival sobreviveu e continuou revelando nomes que definiram o cinema brasileiro. Zezé Motta recebeu seu primeiro prêmio aqui em 1976 por "Xica da Silva". Em 1985, "A Hora da Estrela", adaptação do clássico de Clarice Lispector, foi coroado melhor filme. O ator Grande Otelo fez sua última aparição pública no festival. Esses momentos não são apenas histórico de cinema — são história do país. Em 2007, o festival foi reconhecido como patrimônio imaterial do Distrito Federal.
Nas últimas edições, mais de 35 mil espectadores passaram pelo Cine Brasília. Este ano, a programação traz mais de 70 produções, com a abertura na sexta-feira 11 de setembro e a mostra competitiva começando no sábado 12. As exibições seguem até 19 de setembro, com sessões também em outras regiões do Distrito Federal. Mas chegar até aqui foi uma luta.
Este ano, a 59ª edição quase não aconteceu. O governo do Distrito Federal não havia garantido o financiamento, e o festival foi cancelado por falta de verba. A pressão veio de todos os lados — da comunidade cultural, de entidades do setor audiovisual, da imprensa, de cineastas de todo o Brasil. Apenas depois dessa mobilização, o governo efetivou o pagamento da primeira parcela dos recursos e confirmou a realização do evento. Henrique Rocha, diretor de produção do festival, descreveu o impacto dessa incerteza: as equipes começaram a trabalhar em março, mas só receberam os recursos em agosto. Meses de trabalho sem saber se o festival aconteceria.
O próprio Cine Brasília enfrentou dificuldades paralelas. Em julho, o governo atrasou o repasse semestral, afetando o pagamento de funcionários e fornecedores e ameaçando o funcionamento da sala. Sara Rocha, diretora-geral do festival e do cinema, reconhece que foi a sociedade civil que salvou o evento. "O que de fato defende o cinema brasileiro e o festival hoje é a comunidade cultural, audiovisual e a sociedade civil de uma maneira mais ampla", disse ela.
Para Rocha, o festival continua sendo algo que nenhuma plataforma de streaming consegue substituir. "Nada substitui a liturgia de você assistir a um filme numa sala de cinema", explicou, descrevendo a experiência imersiva da tela grande, do som envolvente, da escuridão compartilhada com outras pessoas. O festival também funciona como ágora — um espaço onde o setor audiovisual se reúne para debater políticas públicas, através de masterclasses, encontros e oficinas. É onde o futuro do cinema brasileiro é pensado coletivamente.
A 59ª edição acontece dentro do cronograma, apesar de tudo. O festival que resistiu à ditadura, à censura e à falta de dinheiro segue em pé, lembrando que a cultura não é um luxo — é resistência.
Citations marquantes
O que de fato defende o cinema brasileiro e o festival hoje é a comunidade cultural, audiovisual e a sociedade civil de uma maneira mais ampla— Sara Rocha, diretora-geral do festival e do Cine Brasília
A gente iniciou os trabalhos do festival em março e só veio receber esse recurso no mês passado. Foi bem difícil esse tempo todo com a equipe trabalhando e com esse nível de incerteza— Henrique Rocha, diretor de produção do festival