Enquanto o Brasil registra a menor taxa de homicídios em treze anos — um avanço real e mensurável —, os feminicídios atingem um recorde histórico, revelando que o progresso na segurança pública não é distribuído de forma igual entre todos os corpos. A queda nas mortes violentas celebrada pelas estatísticas agregadas esconde uma trajetória ascendente e específica: a morte de mulheres por razões de gênero segue crescendo, alimentada por dinâmicas de poder e controle que os mecanismos convencionais de segurança não alcançam. O Brasil que ficou mais seguro para alguns permanece, para muitas, um lu
Feminicídios batem recorde enquanto homicídios caem a menor nível em 13 anos
O Brasil que ficou mais seguro não ficou mais seguro para todos
Como é possível que homicídios caiam enquanto feminicídios sobem? Não deveriam andar juntos?
Não necessariamente. Homicídios gerais costumam estar ligados a conflitos entre grupos criminosos, disputas de território, violência urbana. Feminicídios têm outra origem — muitos acontecem em casa, entre pessoas que se conhecem, em dinâmicas de controle e poder que não desaparecem quando a violência criminal geral cai.
Então a queda nos homicídios mascara um problema que está piorando?
Exatamente. Quando você olha apenas para o número total de mortes violentas, parece que o país está melhorando. E em certos aspectos está. Mas essa melhoria não é distribuída igualmente. Mulheres não estão colhendo os benefícios da mesma forma que homens.
Por que alguns estados conseguem reduzir feminicídios e outros não?
Provavelmente porque alguns estados têm políticas específicas para violência doméstica — delegacias especializadas, abrigos, programas de proteção. Outros ainda tratam feminicídio como um homicídio comum, sem reconhecer suas características únicas.
O Ceará é interessante nesse contexto — maior taxa de mulheres mortas, mas segunda menor de feminicídios.
Isso sugere que muitas mulheres estão morrendo por outras razões — talvez envolvimento em atividades criminosas, ou morte colateral em conflitos que não são especificamente sobre gênero. Mas ainda assim estão morrendo. A categoria estatística muda, mas a morte permanece.
O que isso diz sobre o que funciona?
Que não existe uma solução única. O que reduz homicídios entre homens — operações policiais, desarticulação de facções — pode não tocar em feminicídio. Você precisa de estratégias diferentes: educação, acesso a denúncia, proteção de vítimas, punição de agressores. É trabalho mais lento, menos visível, mas é o que realmente muda a dinâmica.
El Pulso
- Feminicídios batem recorde histórico no Brasil em 2025, mesmo enquanto o total de homicídios cai ao menor patamar em treze anos — uma contradição que expõe a seletividade do progresso.
- Negros, mulheres, pessoas LGBT+ e crianças continuam morrendo em proporções desproporcionais, revelando que a segurança conquistada é profundamente desigual.
- A fragmentação geográfica é alarmante: o Ceará registrou a maior taxa de mulheres mortas, mas a segunda menor taxa de feminicídios, indicando que diferentes formas de violência letal afetam mulheres de maneiras distintas por região.
- Políticas de segurança que reduziram homicídios entre homens mostram-se ineficazes contra feminicídios, que ocorrem majoritariamente em contextos íntimos e familiares, fora do alcance das abordagens convencionais.
- A disparidade regional exige respostas diferenciadas: alguns estados conseguiram reduzir a violência contra mulheres, e entender o que funcionou nessas localidades é urgente para replicar os resultados.
Enquanto o Brasil registra a menor taxa de homicídios em treze anos — um avanço real e mensurável —, os feminicídios atingem um recorde histórico, revelando que o progresso na segurança pública não é distribuído de forma igual entre todos os corpos. A queda nas mortes violentas celebrada pelas estatísticas agregadas esconde uma trajetória ascendente e específica: a morte de mulheres por razões de gênero segue crescendo, alimentada por dinâmicas de poder e controle que os mecanismos convencionais de segurança não alcançam. O Brasil que ficou mais seguro para alguns permanece, para muitas, um lugar de vulnerabilidade crescente.
O Brasil vive uma contradição brutal: os homicídios caíram ao menor nível em treze anos, mas os feminicídios batem recorde. O progresso é real — mas não é universal. Ele não alcança as mulheres.
As estatísticas agregadas costumam encerrar a conversa quando mostram queda geral nas mortes violentas. O que escondem, porém, é uma trajetória específica e ascendente: a morte violenta de mulheres segue crescendo, atingindo patamares nunca antes registrados. Não se trata de coincidência, mas de um padrão que aponta para dinâmicas de poder e controle que os mesmos mecanismos responsáveis pela queda geral nos homicídios simplesmente não conseguem conter.
A desigualdade vai além do gênero. Negros, pessoas LGBT+ e crianças também continuam morrendo em proporções desproporcionais. O Brasil mais seguro que emergiu nos últimos anos é um Brasil seletivo. A fragmentação geográfica reforça essa leitura: o Ceará, por exemplo, registrou a maior taxa de mulheres mortas em 2025, mas a segunda menor taxa de feminicídios — uma distinção que revela como diferentes formas de violência letal operam de maneiras distintas em diferentes regiões.
Essa fragmentação exige respostas igualmente diferenciadas. O que funciona em um estado pode não funcionar em outro. Feminicídios ocorrem majoritariamente em contextos de relacionamentos íntimos ou familiares — espaços que as políticas de segurança pública convencionais raramente alcançam com efetividade. O mapa político de 2025 mostra que o problema não é ideológico, mas estrutural: estados de diferentes espectros aparecem tanto entre os mais quanto entre os menos violentos.
O desafio é duplo: entender por que algumas regiões conseguem conter a violência contra mulheres e replicar o que funciona — e, ao mesmo tempo, reconhecer que nenhuma queda nos homicídios gerais é suficiente enquanto a violência de gênero segue intacta. O Brasil mais seguro de hoje ainda é, para muitas mulheres, um país de vulnerabilidade crescente.
O Brasil chegou a um ponto de contradição brutal: enquanto os homicídios caem para o menor nível em treze anos, os feminicídios batem recorde. A queda geral nas mortes violentas é real e mensurável, um progresso que deveria ser celebrado. Mas esse progresso não é universal. Ele não alcança as mulheres.
Os números revelam uma realidade que as estatísticas agregadas costumam esconder. Quando se fala em redução de homicídios, a conversa tende a terminar ali — como se o problema estivesse resolvido. Mas a morte violenta de mulheres segue em trajetória ascendente, atingindo patamares nunca antes registrados. Isso não é coincidência. É um padrão que aponta para dinâmicas específicas de violência que não estão sendo contidas pelos mesmos mecanismos que reduziram outras formas de homicídio.
A disparidade é ainda mais evidente quando se olha para quem morre. Negros, mulheres, pessoas LGBT+ e crianças continuam sendo vítimas de violência em proporções desproporcionais. O Brasil que ficou mais seguro para alguns não ficou mais seguro para todos. Alguns estados conseguiram reduzir significativamente suas taxas de feminicídio, enquanto outros enfrentam epidemias localizadas. Ceará, por exemplo, registrou a maior taxa de mulheres mortas em 2025, embora tenha apresentado a segunda menor taxa de feminicídios — uma distinção que revela como diferentes formas de morte violenta afetam mulheres de maneiras distintas em diferentes regiões.
Essa fragmentação geográfica da violência exige uma resposta igualmente fragmentada. Políticas de segurança pública que funcionam em um estado podem não funcionar em outro. O que reduz homicídios entre homens pode não reduzir feminicídios. A violência contra mulheres tem raízes em dinâmicas de poder e controle que operam de forma diferente da violência criminal tradicional. Muitos feminicídios ocorrem no contexto de relacionamentos íntimos ou familiares, em espaços que as políticas de segurança pública convencionais não conseguem alcançar com efetividade.
O mapa político de 2025 mostra estados governados por diferentes espectros ideológicos tanto entre os mais violentos quanto entre os menos violentos, sugerindo que a questão não é simplesmente ideológica, mas estrutural. O desafio está em entender por que algumas regiões conseguem conter a violência contra mulheres enquanto outras não, e em replicar o que funciona. Mas também está em reconhecer que a redução de homicídios gerais não é suficiente se deixar intacta a violência de gênero. O Brasil mais seguro que emergiu nos últimos treze anos é um Brasil ainda profundamente desigual quando se trata de quem está protegido e quem continua vulnerável.
Citas Notables
Homicídios caem, mas violência persiste— Folha de S.Paulo
O Brasil mais violento para negros, mulheres, LGBT+ e crianças— G1 - O Assunto