Febrasgo alerta: vacina covid-19 ainda não recomendada para gestantes

Potencial risco de aborto, parto pré-termo e má-formação fetal se vacinas covid-19 forem administradas sem dados de segurança em gestantes.
Sem dados de segurança, a cautela era necessária
A Febrasgo recomendava não vacinar gestantes contra covid-19 enquanto faltassem informações sobre possíveis complicações.
Mark

Por que as gestantes foram excluídas dos ensaios clínicos das vacinas covid-19?

Mimi

É uma prática comum em pesquisa médica. Mulheres grávidas são consideradas população vulnerável, então raramente participam de estudos de novos medicamentos ou vacinas. O risco potencial para o feto é sempre uma consideração.

Luke

Mas isso deixa um vazio real, certo? Sem dados de gestantes, como você sabe se é seguro?

Mark

E qual era a recomendação da Febrasgo naquele momento?

Mimi

Não vacinar. Aguardar mais informações. Esperar que a vacinação em massa mostrasse seu perfil de segurança na população geral antes de indicar para grávidas.

Luke

Isso faz sentido do ponto de vista de precaução, mas deixa as gestantes em uma posição difícil — sem proteção contra covid-19.

Mark

E para mulheres que queriam engravidar?

Mimi

A recomendação era completar as duas doses antes de tentar conceber. Se descobrisse que estava grávida após a primeira dose, deveria esperar o parto e a recuperação para receber a segunda.

Luke

Isso pressupõe que as mulheres sabem que estão grávidas logo. Nem sempre é assim.

Mark

Mas havia outro problema que a Febrasgo estava sinalizando?

Mimi

Sim. A cobertura vacinal de gestantes para outras doenças estava caindo drasticamente. Menos de 50% das grávidas em 2020 receberam as vacinas recomendadas — dTpa, hepatite B, influenza.

Luke

Essas vacinas são antigas, comprovadas, seguras. Então por que a queda?

Mark

Qual era a meta de cobertura?

Mimi

95%. Mas em 2019 a dTpa estava em 63,23%, e em 2020 caiu para 43,75%.

Luke

Isso é uma queda de quase 20 pontos em um ano. Precisa entender o que causou isso — foi covid-19 desviando atenção? Medo de sair de casa? Falta de acesso?

Mark

A Febrasgo fez algo em resposta?

Mimi

Lançou a campanha Gestante Consciente, com informações sobre importância da vacinação, quando receber cada vacina, como funciona, benefícios para mãe e bebê.

Luke

Campanha de informação é importante, mas não explica a queda. Se as pessoas já sabiam que era seguro, por que deixaram de se vacinar?

  • Gestantes foram excluídas dos ensaios clínicos de vacinas covid-19
  • Menos de 50% das gestantes brasileiras se vacinaram em 2020 contra doenças preveníveis
  • Cobertura da vacina dTpa caiu de 63,23% em 2019 para 43,75% em 2020
  • Meta de cobertura vacinal para gestantes é 95%

Gestantes foram excluídas dos ensaios clínicos de vacinas covid-19, faltam dados sobre segurança e possíveis complicações gestacionais. Menos de 50% das gestantes brasileiras se vacinaram em 2020 contra doenças preveníveis como dTpa, influenza e hepatite B.

Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia alerta que gestantes não participaram de estudos clínicos de vacinas covid-19 e recomenda cautela. Organização também aponta queda crítica na cobertura vacinal de gestantes no Brasil.

No início de 2021, quando as primeiras vacinas contra a covid-19 começavam a chegar aos países, uma questão prática e urgente ainda não tinha resposta: o que fazer com as mulheres grávidas? A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) enfrentou essa pergunta diretamente e chegou a uma conclusão que deixava muita coisa em aberto.

O problema era simples de enunciar e complexo de resolver. As mulheres grávidas, as que acabavam de dar à luz e as que amamentavam não participaram dos ensaios clínicos das vacinas contra covid-19. Ninguém sabia, portanto, como essas vacinas se comportariam nesse grupo. A Febrasgo reuniu seus especialistas e foi claro: faltavam informações sobre segurança, sobre possíveis efeitos colaterais, sobre o risco de aborto, parto prematuro ou má-formação fetal. Sem esses dados, a recomendação era não vacinar.

Dra. Cecilia Roteli Martins, que presidia a Comissão Nacional Especializada em Vacinas da Febrasgo, explicou o cenário. Havia mais de cem vacinas em desenvolvimento contra a covid-19, cada uma usando tecnologias diferentes. Algumas usavam vírus inativados, outras fragmentos do vírus como seu RNA. O desafio não era apenas confirmar que funcionavam na população geral, mas entender se poderiam prejudicar uma gravidez. "Ainda há poucos estudos publicados sobre essas vacinas em veículos médicos reconhecidos", disse ela. "Por princípio de precaução, não recomendaria a vacinação nesse perfil de mulheres." A orientação era aguardar. Aguardar que a vacinação em massa mostrasse seu perfil de segurança. Aguardar que houvesse dados suficientes.

Para mulheres que planejavam engravidar, a Febrasgo tinha uma recomendação específica: receber as duas doses antes de tentar conceber. Se uma mulher descobrisse que estava grávida após a primeira dose, deveria esperar o parto e a recuperação pós-parto para receber a segunda. Dr. Geraldo Duarte, presidente da Comissão Nacional Especializada em Doenças Infectocontagiosas da Febrasgo, acrescentou que pelo menos duas vacinas em desenvolvimento tinham gestantes em seus grupos de estudo, mas os resultados ainda não haviam sido divulgados. Ele também observou que as vacinas com vírus inativado, já usadas com segurança em grávidas para outras doenças, poderiam ser as primeiras candidatas se a covid-19 eventualmente fosse indicada para esse grupo.

Mas havia outro problema que a Febrasgo não podia ignorar, e talvez fosse ainda mais urgente. Enquanto o mundo inteiro focava na covid-19, a cobertura vacinal de gestantes para outras doenças estava desabando. Em 2020, menos de 50% das mulheres grávidas no Brasil receberam as vacinas recomendadas para sua proteção e a de seus bebês. Essas vacinas — dTpa contra difteria, tétano e coqueluche, dT, hepatite B e influenza — são seguras, bem toleradas e não oferecem risco para mães ou fetos. Mais que isso: os anticorpos que as gestantes desenvolvem são transferidos aos bebês, protegendo-os nos primeiros meses de vida, quando ainda não podem ser vacinados.

Os números revelavam uma tendência preocupante. Em 2019, a cobertura da vacina dTpa havia sido de 63,23%. Um ano depois, caiu para 43,75%. A meta era 95%. O Programa Nacional de Imunizações (PNI) documentava essa queda consistente ao longo dos anos. A Febrasgo respondeu lançando a campanha Gestante Consciente, disponibilizando informações sobre quando cada vacina deveria ser recebida, como funcionava no corpo, quais os benefícios para mães e bebês, e qual o papel da família na proteção da gestante e do recém-nascido. O conteúdo estava no site da federação e em suas redes sociais.

O que emergiu desse momento foi uma tensão dupla: de um lado, a cautela necessária diante do desconhecido — uma vacina nova, sem dados de segurança em um grupo vulnerável. Do outro, a negligência crescente de proteções já conhecidas e comprovadas. A Febrasgo estava pedindo paciência com a covid-19, mas urgência com tudo o mais.

Por princípio de precaução, não recomendaria a vacinação nesse perfil de mulheres
— Dra. Cecilia Roteli Martins, presidente da Comissão Nacional Especializada em Vacinas da Febrasgo
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