Fantástico acompanha combate à epidemia de ebola no Congo em meio a crise humanitária

Quase 4 mil mortes confirmadas; bebês órfãos contaminados; gestantes infectadas enfrentam risco extremo; profissionais de saúde expostos a contaminação diária.
Seis em cada dez morrem em casa, sem chegar a um hospital
A falta de acesso e confiança nos centros de tratamento deixa a maioria das vítimas sem qualquer assistência médica.
Mark

Por que essa epidemia é tão diferente das outras que o Congo já enfrentou?

Mimi

Porque é a variante Budinbugyo, que é rara e não tem remédio específico. As outras dezesseis epidemias foram da variante Zaire, para a qual existe vacina e tratamento antiviral. Dessa vez, a OMS está testando vacinas e antivirais existentes na esperança de encontrar algo que funcione.

Luke

Mas espera — a OMS está testando, ou já tem algo que funciona? O texto diz que é possível tratar e curar pacientes com hidratação e isolamento, então a falta de remédio específico não é necessariamente uma sentença de morte.

Mimi

Verdade. O remédio específico ajudaria, mas não é absolutamente necessário. O problema real é que metade dos pacientes morre mesmo assim, e seis em cada dez morrem em casa, sem acesso a nenhum tratamento.

Mark

E por que as pessoas não vão aos centros de tratamento se sabem que podem ser curadas?

Mimi

Porque há boatos de que as pessoas estão sendo mortas nos hospitais. Isso provocou ondas de violência. Quando você vive em um lugar onde já há conflitos armados e doenças constantes, é difícil confiar em instituições.

Luke

Mas o texto também diz que os primeiros sintomas de ebola podem ser confundidos com cólera, febre tifoide e malária. Então talvez as pessoas nem saibam que têm ebola quando estão doentes.

Mimi

Exatamente. E a epidemia pode ter começado em janeiro, mas só foi declarada em maio. Os sistemas de vigilância estavam enfraquecidos por cortes na ajuda humanitária internacional.

Mark

Então os cortes de financiamento dos EUA agravaram a situação?

Mimi

Sim. O governo americano ajudou a financiar o combate depois que a pandemia foi decretada, mas Elon Musk foi nomeado para cortar drasticamente o financiamento do programa humanitário dos EUA.

Luke

Espera — o texto diz que Musk foi nomeado para cortar o financiamento, mas não especifica quanto foi cortado ou se isso afetou diretamente o Congo. É uma conexão que o texto faz, mas não há números concretos sobre o impacto.

Mimi

Verdade. Mas a enfermeira Érica Silva Rocha trabalha em uma maternidade que claramente sofre com falta de equipamentos e água. Isso é concreto.

Mark

E como ela consegue trabalhar nessas condições?

Mimi

Com muita dificuldade. Ela treina equipes e adapta o local para a epidemia, mas a sensação é de impotência. Quando gestantes estão infectadas, há risco extremo de contaminação para a equipe, e eles precisam limitar procedimentos.

  • Quase 4 mil mortes confirmadas desde maio de 2026
  • Variante Budinbugyo, rara, sem remédio específico disponível
  • Três em cada quatro mortes ocorrem em Bunia e arredores
  • Seis em cada dez mortes acontecem em casa, sem acesso hospitalar
  • Epidemia é a mais grave das 17 registradas no Congo

A epidemia de ebola no Congo é a mais grave das 17 registradas, com variante rara (Budinbugyo) sem remédio específico disponível. Profissionais de saúde trabalham em condições extremas; metade dos pacientes morre, e desinformação afasta pessoas dos centros de tratamento.

Surto de ebola matou quase 4 mil pessoas no Congo, espalhando-se por sete províncias. Repórteres acompanharam profissionais de saúde enfrentando a doença em sistema fragilizado por conflitos e cortes de financiamento humanitário.

Quase quatro mil pessoas morreram. O vírus se espalhou por sete províncias da República Democrática do Congo, e a cidade de Bunia virou o epicentro de uma epidemia que ninguém consegue conter completamente. Repórteres da Fantástico embarcaram em um avião da Organização das Nações Unidas para documentar o que acontecia lá — um convite da Monusco, a missão de paz comandada por um general brasileiro. Voos comerciais não chegam mais a Bunia. Apenas aviões da ONU e de organizações humanitárias conseguem pousar naquela região.

O vírus do ebola tem um formato de cordão. Entra pela boca, pelo nariz ou por pequenos ferimentos na pele e engana as células de defesa do corpo. Ele se multiplica até que as células explodem, espalhando uma carga viral imensa pelo organismo. Ataca o fígado e o baço, órgãos que param de produzir as substâncias necessárias para a coagulação do sangue. Em casos graves, o paciente sofre hemorragias e uma resposta inflamatória tão intensa que vários órgãos falham. O principal suspeito de ser o hospedeiro original é o morcego da fruta, consumido por parte da população local. A origem exata do vírus ainda não é completamente conhecida.

Este surto é diferente dos anteriores. Existem quatro variantes do ebola que infectam humanos, e para a mais comum, a Zaire, há vacina e remédio antiviral. Mas o que está circulando agora é o Budinbugyo, uma variante mais rara. A Organização Mundial da Saúde testa uma vacina e coordena testes com antivirais existentes na esperança de encontrar algo que funcione contra ela. Mesmo sem remédio específico, é possível tratar e curar pacientes através de hidratação, nutrição, isolamento rigoroso e prevenção de complicações.

No Centro de Tratamento de Ebola dos Médicos Sem Fronteiras, os pacientes ficam em áreas de isolamento chamadas de zonas vermelhas. Os profissionais entram nesses locais usando macacão, luvas, máscaras, gorro e proteção facial. O protocolo é rígido porque o vírus se transmite pelo contato direto com fluidos corporais — sangue, vômito, secreções. Mathias Vermaelen, pediatra holandês com pai brasileiro, trabalha lá. Ele chegou duas semanas antes da visita dos repórteres e começou a trabalhar no primeiro dia. Trabalha seis dias em sete, e é muito intenso. Durante uma das visitas, Mathias atendeu um menino de sete anos que estava desidratado, com problemas pulmonares e diarreia. O garoto recebeu hidratação pela veia, mas morreu naquela noite.

A cada quatro mortes de ebola, três acontecem em Bunia e arredores. A rotina da cidade mudou completamente. Até os marceneiros passaram a produzir principalmente caixões, porque os enterros precisam ser feitos rapidamente para evitar novos contágios. Na República Democrática do Congo, tocar o corpo de uma pessoa morta faz parte do ritual funerário, mas o vírus continua capaz de infectar mesmo após a morte. Por isso, a Cruz Vermelha mobilizou voluntários para um trabalho perigoso e fundamental. Com roupas de proteção, eles garantem uma despedida digna e com segurança. Nas ruas, a vida parece continuar. Feirantes dizem ter medo do ebola, mas acreditam estar seguros se mantiverem certa distância. Essa aparente normalidade existe porque os congoleses aprenderam a tocar a vida em meio a tantas adversidades. Há anos convivem com ataques de grupos armados e doenças transmissíveis que nunca saem — cólera, febre tifoide, malária. Os primeiros sintomas de ebola podem ser confundidos com essas outras doenças, o que costuma levar à demora em procurar tratamento.

A epidemia foi declarada em maio, mas os primeiros sinais podem ter aparecido em janeiro. Alvert Stern, coordenador de Emergência do MSF na cidade de Beni, explicou que suspeitam que a epidemia começou três ou quatro meses antes do alerta oficial. Os sistemas de controle de surtos de doenças sofreram muito com cortes na ajuda humanitária internacional. O ebola encontrou um sistema de saúde já fragilizado. Depois que a pandemia foi decretada, o governo americano ajudou a financiar o combate. Mas no início do atual governo de Donald Trump, o bilionário Elon Musk foi nomeado para cortar drasticamente o financiamento do programa humanitário dos Estados Unidos. Uma maternidade em Beni, onde a enfermeira brasileira Érica Silva Rocha trabalha pelo MSF, foi um dos lugares afetados. Érica foi lá para treinar equipes e adaptar o local para a epidemia. Na sala de parto, faltam equipamentos e até a água precisa ser armazenada em galões. Quando gestantes estão infectadas pelo vírus, há um grande perigo de contaminação para a equipe de saúde, que é obrigada a fazer escolhas duras. A equipe precisa limitar procedimentos, o que provoca uma sensação de impotência.

Um dos sobreviventes é Toiabo Ale, um bebê prematuro que nasceu contaminado pelo ebola. A mãe morreu durante o parto, e o pai morreu dias depois. Os médicos consideraram que não havia chances de sobrevivência, mas o bebê se recuperou e passou a ganhar peso em uma creche que acolhe vítimas da epidemia. A estudante de medicina Neema decidiu cuidar de órfãos do ebola. Ela gosta de pediatria e gosta de cuidar deles, de vê-los sorrir. Não é fácil perder a mãe tão novinho, ficar sem ninguém e ter que se adaptar a alguém desconhecido.

Mas a falta de informação ainda faz as pessoas terem medo de ir aos centros de tratamento. Metade dos pacientes morre, e o boato de que as pessoas estavam sendo mortas nos hospitais provocou ondas de violência. Famílias que não procuram hospitais podem ser contaminadas enquanto cuidam de parentes doentes em casa. Jermè procurou ajuda depois de perder doze parentes e, depois de ser curado, agora ajuda a cuidar dos pacientes. Esta é a mais grave das dezessete epidemias de ebola registradas na República Democrática do Congo. Especialistas do MSF avaliam que as condições geográficas e a fragilidade da estrutura de saúde tornam o controle do surto extremamente difícil. Enquanto a epidemia avança, seis em cada dez pessoas que morrem de ebola ainda morrem dentro de casa, sem chegar a um hospital.

Eu cheguei aqui há duas semanas. E comecei a trabalhar no primeiro dia. A gente trabalha seis em sete dias, mais ou menos. É muito intenso.
— Mathias Vermaelen, pediatra do MSF
O ebola é uma crise dentro de outra crise. As pessoas continuam adoecendo de outras coisas. As mulheres continuam grávidas. Continuam parindo.
— Érica Silva Rocha, enfermeira brasileira do MSF
Quieres la nota completa? Lee el original en G1 ↗
Contáctanos FAQ