A incerteza é dolorosa. O que faz com que me sinta melhor é saber que há pessoas que nem sequer são meus familiares e que estão aí.
Félix estava hospedado em La Guaira antes de viajar para o Chile; último sinal de celular foi registrado na região da padaria e hotel Marriott durante os terremotos. Família carece de máquinas e equipamentos; depende de voluntários e doações em redes sociais, sem ajuda do Estado, para escavar escombros onde acreditam estar cinco pessoas.
- Félix Tovar, 70 anos, desaparecido há oito dias sob escombros da padaria La Almendrina em La Guaira
- Último sinal de celular registrado às 19h19 na região da padaria e hotel Marriott durante os terremotos
- Família depende de voluntários e doações em redes sociais; sem ajuda do Estado
- 130 corpos contabilizados no necrotério improvisado do porto; cinco pessoas acreditadas soterradas na padaria
Félix Tovar, 70 anos, desapareceu em padaria durante terremotos na Venezuela; seu filho Daniel, brasileiro-venezuelano, mobiliza doações e voluntários para buscas nos escombros há oito dias sem sucesso.
Félix Tovar tinha 70 anos e estava em uma padaria quando a terra começou a tremer. Isso foi oito dias atrás, na cidade de La Guaira, na Venezuela. Ele não saiu. Sua família ainda o procura.
Félix era venezuelano, mas vivia no Brasil há quase vinte anos com sua família. Era empresário, dividindo a vida entre os dois países. Naquele dia, estava hospedado em La Guaira porque viajaria pelo Aeroporto Internacional Simón Bolívar — ia visitar sua filha Elibel no Chile e conhecer o neto. Um recepcionista da pousada onde dormia viu Félix sair poucos minutos antes dos terremotos. Disse que ele havia ido à padaria La Almendrina, no setor de Playa Grande. O recepcionista tinha certeza disso.
Seu filho Daniel, 28 anos, brasileiro-venezuelano, começou a mobilizar a busca do exterior. Sua irmã Elibel, 38 anos, que mora no Chile, viajou para a Venezuela e se colocou na frente dos escombros. Eles organizaram tudo desde o primeiro dia. Não tiveram ajuda do Estado. O que tiveram foram voluntários — alguns deles sem nenhuma ligação familiar com as vítimas, pessoas que simplesmente apareceram para cavar. A família pediu doações de ferramentas nas redes sociais. Tudo que usavam era doado. Tudo que conseguiam tinha que ser guardado com cuidado, porque às vezes roubavam.
A padaria não estava sozinha. Ao lado ficava o hotel Marriott, conhecido na região. No momento do terremoto, várias pessoas estavam no restaurante do hotel, no piso inferior que desabou, assistindo ao jogo do Brasil contra a Escócia na Copa do Mundo. Há muitos venezuelanos que torcem pelo Brasil — pela proximidade, pela fama do futebol, e porque a comunidade venezuelana no país cresce cada vez mais. Félix poderia estar em qualquer um dos dois lugares. Sua família conseguiu descobrir, junto à operadora de celular, que o último sinal do aparelho dele foi registrado às 19h19 do dia do terremoto, exatamente na região da padaria e do hotel.
Equipes espanholas chegaram ao local na noite de quarta-feira com equipamentos de medição de temperatura. Indicaram que havia ao menos dois vivos sob os escombros. A família acreditava que cinco pessoas ainda estavam soterradas na padaria. Os voluntários trabalhavam praticamente sem dormir, três dias seguidos. Quando a reportagem chegou ao local, eles tinham acabado de se retirar, exaustos.
Nos primeiros dias, a família também foi ao Bolipuerto, o porto da cidade que se transformou em necrotério a céu aberto. Viram fotos primeiro. Depois foram ver todos os corpos, expostos ao sol. Quando Elibel foi, havia 130 corpos. Familiares visitaram todos os hospitais, todos os centros de feridos. Não encontraram Félix. Oito dias depois dos terremotos, as chances de encontrar alguém vivo diminuem radicalmente. O calor acelera a decomposição. O desespero é palpável.
Elibel falou com a reportagem na frente dos escombros, emocionada. "Tenho forças", disse. "Acho que muitos vivem o mesmo, mas a incerteza é dolorosa. O que faz com que me sinta melhor é saber que há pessoas que nem sequer são meus familiares e que estão aí. Estão dando tudo para buscar uma pessoa que não é sua família." Ela e Daniel dizem que nunca abandonariam o pai, sejam quais forem as circunstâncias.
Há um detalhe que pesa nessa história. Em 1999, quando a família ainda morava na Venezuela, todos foram afetados pelo chamado desastre de La Guaira — uma semana de chuvas fortes que causou inundações e deslizamentos de terra, matando milhares. Félix saiu de casa para levar dinheiro e comida a uma funcionária que trabalhava com eles. A água tomou conta da estrada. Ele teve de abandonar o carro. Por cinco dias, a família não teve notícias dele. Até que ele conseguiu retornar. É disso que os filhos se lembram agora, enquanto lutam para encontrá-lo novamente.
Notable Quotes
O que temos desde o dia 1 são voluntários, alguns que nem sequer têm família aqui; não tivemos ajuda do Estado, nenhuma— Elibel, filha de Félix
Tenho forças. Acho que muitos vivem o mesmo, mas a incerteza é dolorosa— Elibel, filha de Félix
The Hearth Conversation Another angle on the story
Como uma família consegue manter a esperança quando oito dias já passaram e as chances diminuem?
Eles não falam em esperança. Falam em incerteza. Elibel disse que a incerteza é dolorosa — pior que saber. Enquanto não sabem, precisam continuar.
E os voluntários? Por que pessoas sem ligação com a família continuam cavando?
Porque La Guaira é uma comunidade. Porque quando a terra treme, não há estrangeiro ou vizinho — há apenas pessoas soterradas. E há outras pessoas que decidem que vão cavar.
A família tinha recursos? Dinheiro para contratar equipamento?
Não. Dependem de doações nas redes sociais. Tudo que usam é doado. E têm que guardar com cuidado porque roubam. Não há máquinas do Estado, não há resgate oficial — há voluntários e ferramentas que chegam porque alguém postou um pedido online.
Félix tinha 70 anos. Estava visitando a filha. Isso muda algo?
Muda tudo. Ele estava prestes a sair da Venezuela, a ver o neto. Estava hospedado em uma pousada, conhecia a cidade como a palma da mão. Entrou em uma padaria por alguns minutos. E desapareceu.
E aquele desastre de 1999 que mencionaram?
É o peso que carregam. Félix desapareceu naquela semana também — cinco dias sem notícias. Conseguiu voltar. Agora os filhos estão vivendo aquilo novamente, mas desta vez não sabem se ele vai voltar.