Falta de financiamento força encerramento de pesquisas brasileiras na Antártica

O Brasil fica restrito ao oceano e à península, perdendo presença no interior
Glaciologista avalia impacto do encerramento das pesquisas antárticas na posição brasileira no Tratado Antártico.
Mark

Por que exatamente esses dois módulos precisam de manutenção tão frequente? Parecem ser equipamentos robustos se conseguem funcionar sozinhos por anos.

Mimi

As baterias têm vida útil limitada — dois anos é o máximo antes de começarem a falhar. Painéis solares e geradores eólicos mantêm os equipamentos funcionando, mas as baterias armazenam essa energia. Sem troca, não há como continuar.

Luke

Mas espera — a última manutenção foi em 2022/23. Estamos em 2026. Isso são quatro anos, não dois. Como os módulos ainda estão funcionando?

Mark

Boa pergunta. Então as baterias já deveriam ter falhado?

Mimi

Teoricamente, sim. Mas equipamentos antárticos são construídos com margens de segurança. Elas duraram mais do que o esperado. Agora estão no limite.

Luke

Então não sabemos exatamente quando falharão. O Criosfera 2 "desligará em novembro" — mas isso é uma previsão ou uma certeza?

Mark

E quanto ao custo? 330 mil dólares por ano parece muito ou pouco para uma missão científica?

Mimi

Para a escala de pesquisa que esses módulos geram — dados para toda a comunidade científica nacional e internacional — é relativamente modesto. Mas para um orçamento de ciência já pressionado, é um obstáculo.

Luke

Modesto comparado a quê? Não temos contexto sobre quanto o Brasil investe em pesquisa antártica no total, ou quanto outros países gastam. Sem isso, "330 mil dólares" flutua.

Mark

O que exatamente se perde em termos de previsão climática?

Mimi

Dados contínuos sobre o ar frio que vem da Antártica. Sem eles, fica mais difícil prever chuvas extremas no Rio Grande do Sul. Eventos como os de 2023 e 2024 estão ligados a fenômenos monitorados pelo Criosfera 2.

Luke

Mas a fonte diz que as chuvas "estiveram diretamente associadas" aos fenômenos. Isso significa que sem os dados, não conseguiremos prever? Ou apenas que entenderemos menos bem?

Mark

Qual é o impacto político disso tudo?

Mimi

O Brasil perde presença no Tratado Antártico. Pesquisa é como moeda — quanto mais você investe, mais voz tem nas decisões sobre o continente.

Luke

Isso é verdade, mas é uma consequência de longo prazo e difícil de medir. O que sabemos com certeza é que dois laboratórios vão desligar. O resto é interpretação.

  • Sem financiamento aprovado pelo MCTI e pelo FNDCT, a expedição de manutenção 2026/2027 foi cancelada, condenando os módulos Criosfera 1 e 2 ao desligamento progressivo por esgotamento de baterias.
  • O Criosfera 2 perderá energia em novembro de 2025; o Criosfera 1 seguirá em doze meses — e os dados atmosféricos, climáticos e geofísicos que coletam simplesmente deixarão de existir.
  • A interrupção compromete diretamente o monitoramento das massas de ar antárticas associadas às chuvas extremas de setembro, novembro de 2023 e maio de 2024 no Rio Grande do Sul.
  • O Brasil passará a operar apenas nas regiões mais acessíveis da Antártica, perdendo protagonismo no Tratado Antártico e a posição de único país latino-americano com laboratórios no interior profundo do continente.
  • Novos equipamentos planejados para o Criosfera 2 — medidor de metano, sistema avançado de aerossóis, receptor GPS — jamais chegarão, enterrando também o futuro científico dos módulos junto com o presente.

No silêncio gelado do interior da Antártica, dois laboratórios brasileiros aguardam o inevitável: o esgotamento de suas baterias e o fim de uma década de observação científica ininterrupta. Por falta de pouco mais de 330 mil dólares anuais, o Brasil abre mão de uma presença estratégica no continente que mais influencia o clima do hemisfério sul — e, com ela, da capacidade de compreender as chuvas extremas que já devastaram o Rio Grande do Sul. É o tipo de abandono que não acontece de uma vez, mas em silêncio, grau a grau, até que os instrumentos parem de falar.

Dois laboratórios brasileiros instalados no interior da Antártica estão prestes a silenciar. O Criosfera 2 perderá sua energia em novembro; o Criosfera 1, em doze meses. Ambos dependem de baterias trocadas a cada dois anos, mas nenhuma missão de manutenção chegará até lá neste verão austral. O motivo é direto: o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação e o Fundo Nacional de Ciência e Tecnologia não liberaram os recursos necessários. Uma expedição anual custa cerca de 330 mil dólares — valor que, desta vez, não foi aprovado.

O que se perde é muito mais do que equipamentos. Os módulos monitoram ozônio, radiação ultravioleta, raios cósmicos, carbono negro, dióxido de carbono e aerossóis, além de alimentar redes do Instituto Nacional de Meteorologia e da Organização Meteorológica Mundial. Mais do que isso: as regiões onde estão instalados — o Mar de Weddell e a Sky Train Ice Rise — são as fontes das massas de ar frio diretamente associadas às chuvas extremas que devastaram o Rio Grande do Sul em 2023 e 2024. Sem dados contínuos desses pontos, a capacidade de prever esses eventos fica seriamente comprometida.

O glaciologista Jefferson Cardia Simões, da UFRGS e pioneiro dos estudos antárticos brasileiros, alerta que a interrupção reduz o protagonismo do Brasil no Tratado Antártico. O país passará a operar apenas no oceano e na Península Antártica — as áreas mais acessíveis —, abandonando o interior profundo do continente, onde o Criosfera 1 opera a menos 33 graus Celsius, a apenas 660 quilômetros do Polo Sul. É o laboratório mais meridional de toda a América Latina, e sua extinção não será anunciada com estardalhaço: acontecerá em silêncio, quando a última bateria se esgotar.

Dois laboratórios científicos brasileiros na Antártica enfrentam o desligamento iminente. O Criosfera 2 perderá sua energia em novembro. O Criosfera 1 seguirá o mesmo caminho em doze meses. Ambos funcionam com baterias que precisam ser trocadas a cada dois anos, mas nenhuma missão de manutenção chegará até lá neste verão austral.

A razão é simples e brutal: faltam recursos. O Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação e o Fundo Nacional de Ciência e Tecnologia não aprovaram o financiamento necessário para enviar uma expedição até os módulos. Uma missão anual custa aproximadamente 330 mil dólares. Sem esse dinheiro, a expedição do verão 2026/2027 foi cancelada. A última vez que alguém visitou o Criosfera 2 foi durante sua instalação, no verão de 2022/23. Desde então, os equipamentos funcionam sozinhos, alimentados por painéis solares e geradores eólicos, coletando dados que ninguém consegue recuperar pessoalmente.

O que se perde com esse desligamento é substancial. Os dois módulos monitoram uma série de fenômenos atmosféricos e climáticos que afetam diretamente o Brasil. Há medidores de ozônio, de radiação ultravioleta, de raios cósmicos, de carbono negro, de dióxido de carbono. Há coletores de aerossóis. Há estações meteorológicas que alimentam a rede nacional do Instituto Nacional de Meteorologia e também a Organização Meteorológica Mundial. Todos esses instrumentos deixarão de funcionar quando as baterias se esgotarem. O Criosfera 2 deveria receber novos equipamentos — um medidor de metano atmosférico, um sistema de coleta de aerossóis mais avançado, um receptor GPS, um novo sistema de transmissão de dados — mas nada disso chegará.

O impacto científico é particularmente grave para o entendimento dos eventos extremos que atingem o sul do Brasil. A Antártica é uma fonte de ar frio que se desloca até o continente, influenciando chuvas em setembro, novembro e maio. As chuvas de setembro e novembro de 2023 e maio de 2024 no Rio Grande do Sul estiveram diretamente associadas a fenômenos monitorados pelo Criosfera 2 — especificamente a região do Mar de Weddell e a Sky Train Ice Rise. Sem dados contínuos desses locais, a capacidade de prever e entender esses eventos fica comprometida.

O Criosfera 1 ocupa uma posição única na ciência latino-americana. Está localizado a 2.500 quilômetros ao sul da Estação Comandante Ferraz, a apenas 660 quilômetros do Polo Sul geográfico. É o laboratório científico mais meridional de toda a América Latina, funcionando em uma temperatura média anual de menos 33 graus Celsius. O Criosfera 2 fica ao sul do Mar de Weddell, em uma região onde nascem as massas de ar que causam ondas de frio no Brasil. Ambos os locais são estratégicos para pesquisas em química atmosférica, glaciologia, climatologia, geofísica de geleiras, microbiologia e física de alta energia.

Jefferson Cardia Simões, glaciologista e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, é um dos pioneiros dos estudos antárticos brasileiros. Ele avalia que a interrupção das pesquisas no interior da Antártica reduz o protagonismo do Brasil dentro do Tratado Antártico. O país fica restrito a pesquisas no oceano e na Península Antártica — as regiões mais acessíveis. O interior do continente, onde estão os dois módulos, exige investimento maior e compromisso de longo prazo. Sem esse investimento, o Brasil perde presença em um dos ambientes mais importantes para entender o clima global.

O que acontece agora é uma espécie de abandono gradual. As baterias se descarregarão. Os equipamentos silenciarão. Os dados deixarão de chegar. E uma década de pesquisa contínua — desde a instalação do Criosfera 2 em 2022/23 — será interrompida sem possibilidade de recuperação dos últimos registros. O Brasil terá deixado de coletar informações cruciais sobre o planeta no momento em que essas informações são mais necessárias.

A não realização de pesquisas no interior da Antártica reduz o protagonismo do Brasil dentro do Tratado Antártico
— Jefferson Cardia Simões, glaciologista e professor da UFRGS
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