Nos primeiros dias após a concepção, o genoma de um novo ser depende de mecanismos herdados do óvulo materno para se manter íntegro. Pesquisadores brasileiros da UFSCar documentaram que a ausência da proteína RAD51 nesses óvulos não impede a fertilização, mas desencadeia uma cascata silenciosa de danos genéticos que reduz em até dois terços a viabilidade dos embriões e semeia mutações inéditas nas gerações seguintes. O estudo, publicado em setembro de 2026 na revista Molecular Human Reproduction e financiado pela FAPESP, revela que o início da vida é também um dos momentos de maior vulnerabili
Falha no reparo do DNA materno reduz embriões viáveis e gera mutações pós-fecundação
O embrião acumula quebras de DNA sem reparo adequado
Por que essa falha no reparo de DNA só afeta o embrião depois da fecundação? O óvulo não deveria estar mais vulnerável?
Exatamente a pergunta certa. O óvulo é de fato mais sensível a danos de DNA do que outros tipos de célula, mas neste caso mostrou-se resistente. Sem RAD51, ele acumula quebras, mas continua crescendo, maturando e sendo fecundado normalmente. O impacto só explode nos primeiros dias após a fertilização, quando o embrião começa a se dividir.
Mas como sabemos que é especificamente a falta de RAD51 causando isso e não apenas um efeito colateral da modificação genética? Os camundongos foram criados em laboratório especificamente para não expressar essa proteína.
Boa observação. O estudo foi feito com camundongos geneticamente modificados, desenvolvidos no laboratório de Pierre Olivier Frappart na Alemanha. Mas o que torna isso convincente é que o fenômeno é muito específico: óvulos normais, fecundação normal, depois colapso embrionário. Se fosse um efeito colateral geral, veríamos problemas antes.
E essas mutações que surgem — são perigosas? Todas as ninhadas que sobrevivem têm mutações?
O sequenciamento revelou um aumento significativo de mutações "de novo", principalmente em mosaico. Mas o estudo não detalha quais genes foram afetados ou qual é o impacto clínico específico. Chiaratti disse que continuam investigando exatamente isso.
Então não sabemos ainda se essas mutações causam doenças nos camundongos sobreviventes, ou se são neutras, ou se variam muito. É um achado importante, mas incompleto.
Correto. O que sabemos é que há mais mutações do que o normal, e que elas surgem nos primeiros dias de desenvolvimento. O que isso significa para a saúde dos animais — isso ainda está sendo estudado.
E a aplicação em humanos? Quando poderíamos ver isso em clínicas de reprodução assistida?
Chiaratti propõe suplementar RAD51 diretamente em óvulos antes da fertilização in vitro. Seria um suporte temporário para proteger o embrião nos primeiros dias. Mas isso ainda é uma proposta, não um tratamento disponível.
E não sabemos se adicionar RAD51 a um óvulo humano teria os mesmos efeitos que em camundongos, ou se haveria efeitos colaterais. É uma direção promissora, mas há muitos passos entre um estudo em roedores e uma terapia clínica.
El Pulso
- A proteína RAD51, guardiã do DNA nos óvulos, quando ausente não impede a fertilização — mas transforma os dias seguintes em uma crise genética silenciosa.
- Sem ela, os embriões perdem até dois terços de sua viabilidade: ninhadas que deveriam ter oito filhotes chegam a ter apenas dois ou três.
- As células recorrem a mecanismos de emergência que 'colam' o DNA quebrado sem verificar o molde original, inserindo mutações de novo que aparecem pela primeira vez no indivíduo.
- O sequenciamento genômico dos descendentes confirmou o acúmulo dessas mutações em mosaico, surgidas logo após a formação do zigoto — apontando o início do desenvolvimento embrionário como fonte crítica de instabilidade genética.
- Cientistas agora propõem suplementar RAD51 diretamente no óvulo antes da fertilização in vitro, oferecendo uma janela concreta de intervenção para reduzir abortamentos precoces e mutações em gestações tardias.
Nos primeiros dias após a concepção, o genoma de um novo ser depende de mecanismos herdados do óvulo materno para se manter íntegro. Pesquisadores brasileiros da UFSCar documentaram que a ausência da proteína RAD51 nesses óvulos não impede a fertilização, mas desencadeia uma cascata silenciosa de danos genéticos que reduz em até dois terços a viabilidade dos embriões e semeia mutações inéditas nas gerações seguintes. O estudo, publicado em setembro de 2026 na revista Molecular Human Reproduction e financiado pela FAPESP, revela que o início da vida é também um dos momentos de maior vulnerabilidade do código genético humano — e que intervir nesse instante pode redefinir o futuro da reprodução assistida.
Um mecanismo de proteção genética falha silenciosamente nos primeiros dias após a concepção, e pesquisadores brasileiros acabam de documentar as consequências. Quando a proteína RAD51 — responsável por reparar quebras no DNA — está ausente em óvulos, os embriões resultantes acumulam danos genéticos graves, reduzindo drasticamente a viabilidade da gravidez e gerando mutações que surgem pela primeira vez em um indivíduo.
O estudo, liderado por pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos com financiamento da FAPESP, usou camundongos geneticamente modificados para não expressar essa proteína. A descoberta central foi precisa em sua crueldade: a ausência de RAD51 não prejudica a formação nem a fecundação do óvulo. O problema emerge depois. Entre dois e três dias após a fertilização, o impacto se torna devastador — ninhadas que normalmente teriam sete ou oito filhotes passaram a ter apenas dois ou três, uma queda de até dois terços.
Sem RAD51, as células perdem a capacidade de usar a recombinação homóloga, um mecanismo preciso que restaura o DNA usando uma cópia intacta como molde. Em seu lugar, recorrem a vias de emergência que simplesmente colam as pontas quebradas — um processo imperfeito que frequentemente insere mutações no genoma. O sequenciamento dos descendentes revelou aumento significativo de mutações chamadas 'de novo', a maioria em mosaico, surgidas logo após a formação do zigoto.
A descoberta tem implicações práticas imediatas. A capacidade de reparo do óvulo decai naturalmente com a idade, contribuindo para infertilidade e doenças genéticas em gestações tardias. Os pesquisadores vislumbram agora a possibilidade de suplementar RAD51, ou seu RNA, diretamente no óvulo antes da fertilização in vitro — uma reposição temporária que poderia proteger o genoma do embrião e reduzir abortamentos precoces. Marcos Roberto Chiaratti e sua equipe continuam investigando quais mutações específicas surgem, em quais genes se concentram e quais intervenções poderiam evitá-las ou revertê-las.
Um mecanismo fundamental de proteção genética falha silenciosamente nos primeiros dias após a concepção, e pesquisadores brasileiros acabam de documentar as consequências. Quando a proteína RAD51 — responsável por reparar quebras no DNA — está ausente em óvulos, os embriões resultantes acumulam danos genéticos graves, reduzindo drasticamente a viabilidade da gravidez e gerando mutações que aparecem pela primeira vez em um indivíduo.
O estudo, liderado por pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos em parceria com instituições internacionais e financiado pela FAPESP, usou camundongos geneticamente modificados para não expressar essa proteína. O que os cientistas descobriram foi surpreendente em sua especificidade: a ausência de RAD51 não prejudica a formação do óvulo, nem sua capacidade de ser fecundado. Óvulos sem a proteína amadurecem normalmente, são ovulados normalmente, e a fertilização ocorre sem obstáculos. Do ponto de vista da fertilidade inicial, tudo funciona. O problema emerge depois.
Entre dois e três dias após a fecundação, o impacto se torna devastador. Camundongos com a proteína RAD51 normal produziram de sete a oito filhotes por ninhada. Aqueles sem a proteína produziram de dois a três — uma queda de até dois terços. Marcos Roberto Chiaratti, professor do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde da UFSCar e autor correspondente do artigo publicado em setembro na revista Molecular Human Reproduction, explicou que o embrião acumula múltiplas quebras de fita dupla de DNA sem reparo adequado, ou com várias mutações inseridas no processo.
O DNA é formado por duas fitas em formato espiral, unidas por ligações de hidrogênio. Radiação, exposição química, erros celulares e processos metabólicos podem romper essas fitas. Quando isso acontece, as células normalmente ativam um mecanismo chamado recombinação homóloga — uma via altamente precisa que usa uma cópia intacta do código genético como molde para restaurar a sequência original sem erros. Mas quando RAD51 está ausente, a célula perde essa capacidade. Em vez disso, ela recorre a mecanismos de emergência que simplesmente colam as pontas quebradas sem conferir o molde original. É um processo imperfeito que frequentemente insere mutações no genoma.
O sequenciamento do genoma completo dos descendentes revelou um aumento significativo de mutações chamadas "de novo" — aquelas que surgem pela primeira vez em um indivíduo e não estão presentes nos pais. A maioria foi compatível com mutações em mosaico, que afetam apenas uma fração das células do organismo, não sua totalidade. Essas mutações surgiram após a formação do zigoto, a primeira célula resultante da união do óvulo e do espermatozoide. Os resultados confirmam que o reparo do DNA materno protege a estabilidade do genoma durante a transição crítica do óvulo para o embrião, e apontam o início do desenvolvimento embrionário como uma importante fonte de mutações espontâneas.
A descoberta tem implicações práticas imediatas. Sabe-se que a capacidade de reparo do óvulo decai naturalmente com a idade — um fator que contribui para infertilidade e aumento de doenças genéticas em gestações tardias. Os pesquisadores agora vislumbram a possibilidade de suplementar a proteína RAD51, ou seu RNA, diretamente no óvulo antes da fertilização in vitro. Essa reposição funcionaria como um suporte temporário para proteger o genoma do embrião logo após a fecundação, potencialmente reduzindo as taxas de abortamento precoce e o risco de mutações em gestações de mulheres mais velhas.
Chiaratti e sua equipe continuam investigando quais são especificamente essas mutações, se estão concentradas em genes particulares, seus desdobramentos clínicos e as possibilidades de intervenção para evitá-las ou revertê-las. O trabalho foi financiado por um Projeto Temático da FAPESP coordenado por Chiaratti em parceria com Patrick Francis Chinnery, da Universidade de Cambridge, cujo foco é estudar mecanismos moleculares que modulam a transmissão de variantes de DNA mitocondrial. Chinnery liderou um estudo publicado na Science no ano anterior que revelou como mutações mitocondriais escapam da seleção celular e se acumulam nas gerações seguintes — um achado que complementa e contextualiza os resultados agora divulgados.
Citas Notables
O ovócito é mais sensível a danos do que outros tipos de células, mas mostrou-se resistente à quebra de DNA, sem inviabilizar seu crescimento, maturação ou capacidade de ser fecundado. Porém, na ausência de RAD51, entre dois e três dias após a fecundação, o número de filhotes chegou a cair até um terço.— Marcos Roberto Chiaratti, professor da UFSCar e autor correspondente do artigo