Fake news religiosa: arma eleitoral recorrente que afeta ambos os lados

O medo abastece a máquina das fake news
Cientista político explica por que desinformação religiosa prospera em campanhas, independentemente do lado político.
Mark

Por que uma notícia falsa sobre Nossa Senhora Aparecida consegue ganhar tração agora, em 2026, se é tão obviamente infundada?

Mimi

Porque não funciona pelo que diz literalmente. Funciona porque toca num medo que já existe — a ideia de que evangélicos conservadores querem impor sua visão de mundo. A fake news é só o combustível.

Luke

Mas quem está espalhando isso? O texto diz que circulou, mas não identifica a origem ou os canais específicos. Sabemos se foi organizado ou apenas viral?

Mimi

Boa pergunta. O texto não detalha a origem. Sabemos que redes sociais amplificam essas coisas exponencialmente, mas a fonte não rastreia quem começou.

Mark

E por que a esquerda é mais atingida por isso historicamente?

Mimi

Porque há décadas circulam acusações de que a esquerda vai fechar igrejas, reformar a Bíblia, proibir pregações. Lula enfrentou isso desde 1989. Essas narrativas pegam melhor em grupos menos politizados.

Luke

Mas o texto também mostra que a direita não é imune — Bolsonaro foi atingido por fake news sobre ser maçom. Então não é exatamente uma arma de um lado só.

Mimi

Verdade. É mais que a esquerda é alvo preferencial, mas ambos os lados usam e sofrem com isso. É uma ferramenta disponível para quem quiser.

Mark

Como alguém como Lula deveria ter respondido melhor em 1989?

Mimi

Ele mesmo disse depois que subestimou. Precisava ter insistido mais nas acusações, ter feito mais programas especiais, ter falado diretamente com eleitores menos politizados. Não era suficiente estar certo; precisava convencer.

Luke

Mas o texto não diz se essas estratégias de resposta funcionariam. Lula perdeu em 1989 mesmo assim. Não sabemos se mais comunicação teria mudado o resultado.

Mimi

Justo. O que sabemos é que ele aprendeu a lição. Nas campanhas seguintes, foi mais atento a isso.

Mark

E agora, com redes sociais, é possível combater isso?

Mimi

Mais difícil. A velocidade e o alcance são exponenciais. Um panfleto apócrifo em 1990 atingia quem saía de missa. Agora um vídeo falso atinge milhões em horas.

  • Flávio Bolsonaro foi alvo de fake news sobre destituir Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil em 2026
  • Lula enfrenta acusações infundadas sobre fechar igrejas desde sua primeira campanha presidencial em 1989
  • Fake news religiosa ganhou escala exponencial com migração de campanhas para redes sociais
  • Em 2018, circulou notícia falsa de que Fernando Haddad distribuiria mamadeiras em formato de pênis em creches

Fake news religiosas circulam há décadas em eleições brasileiras, atingindo principalmente a esquerda, mas também alvejando candidatos de direita com acusações infundadas. A eficácia dessas falsidades não depende da veracidade literal, mas da capacidade de reforçar preconceitos pré-existentes em grupos específicos de eleitores.

Notícia falsa sobre Flávio Bolsonaro destituir Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil exemplifica uso sistemático de desinformação religiosa em campanhas eleitorais brasileiras, afetando candidatos de diferentes espectros políticos.

Uma notícia falsa circulou recentemente: Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência pelo PL, estaria empenhado em destituir Nossa Senhora Aparecida do posto de padroeira do Brasil. Não há qualquer evidência disso. Seu pai, Jair Bolsonaro, foi alvo da mesma acusação em 2018, embora com circulação bem menor na época. O episódio é apenas o mais recente de uma prática que atravessa décadas da política eleitoral brasileira — o uso sistemático de desinformação religiosa como arma de campanha.

Em agosto, Flávio declarou que um de seus primeiros atos como presidente seria "decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo". A frase foi interpretada como um sinal cifrado dirigido ao eleitorado evangélico, uma promessa velada de prioridade. Mas nada nela autoriza a conclusão de que ele rebaixaria Aparecida. Trata-se de uma distorção calculada, do tipo que vem sendo usada para criar pânico moral e simular uma guerra espiritual em troca de dividendos eleitorais. O bolsonarismo, neste caso, prova do próprio remédio — ajudou a disseminar várias inverdades de apelo religioso contra adversários durante eleições anteriores.

Lula enfrenta essas acusações desde 1989, quando disputou sua primeira eleição presidencial. Rumores infundados afirmavam que ele fecharia igrejas, seja porque era contrário à moral cristã tradicional, seja porque estava aliado ao catolicismo progressista e privilegiaria essa vertente. Dois meses após perder para Fernando Collor, em fevereiro de 1990, Lula refletiu sobre a derrota com o cientista político André Singer. Reconheceu que o PT havia subestimado a penetração dessas acusações entre eleitores menos politizados. "Precisávamos ter insistido nestas questões, porque é exatamente na faixa menos politizada que essas coisas pegam", disse.

A lista de falsidades contra Lula se estendeu por anos. Circulou sem base factual que ele proibiria igrejas de pregar que a união de homem e mulher é a única permitida por Deus, que reformularia a Bíblia para remover trechos considerados homofóbicos e que obrigaria igrejas a conduzir casamentos homoafetivos. Nos anos 1990, a Igreja Universal do Reino de Deus lançou uma enxurrada de acusações contra ele — que era comunista, perseguidor do povo evangélico, candidato da Igreja Católica, frequentador de umbanda e candomblé, fechador de igrejas. O PT conseguiu direito de resposta por duas vezes e tirou a Record, canal ligado à Universal, do ar por uma hora. Anos depois, numa reviravolta política típica do Brasil, a Universal apoiou o PT por um tempo. Em 2010, o jornal Folha Universal refutou boatarias de que Dilma fecharia igrejas se eleita.

Em 2010, temas de voltagem moral dominaram a campanha presidencial. Panfletos apócrifos, distribuídos inclusive na saída de missas e cultos, tentavam colar em Dilma a pecha de abortista "assassina de criancinhas". Quatro anos depois, Marina Silva, então rival do PT, acusava a campanha de Dilma de "extrapolar os limites da ética". Disse que chegou ao Pará e as pessoas afirmavam que, pelo fato de ela ser evangélica, acabaria com o Círio de Nazaré. Essas maledicências com embalagem religiosa corriam por vias analógicas, até mesmo de boca em boca. Ganharam escala exponencial quando as campanhas migraram para as redes sociais.

Segundo o cientista político Vinicius do Valle, que estuda o segmento evangélico, a eficácia dessas falsidades não se apoia na mensagem literal, mas na capacidade de reforçar preconceitos que já impregnam determinados grupos. "O que se chama de fake news faz mais efeito quanto mais comunica uma informação que já está presente numa visão sobre um candidato." Em 2018, circulou a notícia falsa de que Fernando Haddad distribuiria mamadeiras em formato de pênis em creches públicas. Valle observa que não acredita que uma multidão votou em Bolsonaro com medo disso. O que aconteceu foi que um conjunto de mensagens, até de caráter cômico, deu vazão a um discurso que exagerava nas "políticas de inclusão" e na ideia de que o PT era contra a família tradicional.

A religião serviu como instrumento político contra oponentes de esquerda desde os anos 1950, climatizados pela Guerra Fria. O rádio, então o principal meio de comunicação de massas, espalhou mentiras que apavoravam um Brasil profundamente rural e católico — se triunfassem grupos ligados ao comunismo, propriedades da Igreja seriam confiscadas, seminários fechados e padres enviados para campos de concentração na Sibéria. Embora o campo progressista seja um alvo preferencial, a direita também sai chamuscada. Em 2022, um vídeo antigo de Bolsonaro num templo maçônico, da época em que era deputado, foi recebido como uma ogiva eleitoral capaz de detonar pontes com sua base evangélica. A polêmica recente em torno de Aparecida não é, portanto, um episódio isolado. Para Valle, o que esse último capítulo da guerra religiosa evidencia é o terror de parte da sociedade com o avanço de um evangelicalismo conservador e bolsonarizado. A vitória dessa frente fortaleceria o que veem como "setores elitistas e intolerantes que querem trazer a fé deles a todo momento". Mais uma vez, o medo abastece a máquina das fake news.

Precisávamos ter insistido nestas questões, porque é exatamente na faixa menos politizada que essas coisas pegam
— Lula, em reflexão sobre sua derrota em 1989
O que se chama de fake news faz mais efeito quanto mais comunica uma informação que já está presente numa visão sobre um candidato
— Vinicius do Valle, cientista político
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