Fachin promete cortar penduricalhos vedados pelo STF, mas CNJ aprova novos benefícios

Se houver questão desbordando do decidido, nós vamos cortar
Fachin promete eliminar benefícios irregulares, mas o CNJ aprova novos dois dias antes.
Mark

Como Fachin consegue prometer cortar penduricalhos enquanto aprova novos benefícios pelo CNJ?

Mimi

Ele argumenta que a resolução segue as balizas do STF, mas a criação de um novo benefício — a gratificação de primeira infância — contradiz a própria lógica de extinção que a Corte estabeleceu.

Mark

O STF não deveria ter poder de veto sobre o que o CNJ aprova?

Mimi

Teoricamente sim, mas Fachin preside ambos os órgãos. A tensão é que ele vota a favor da resolução e depois promete cortar o que ela autoriza.

Mark

Por que o Congresso não resolve isso com uma lei nova?

Mimi

Porque está em ano eleitoral e ninguém quer tocar em benefícios de magistrados. Fica tudo em suspenso, com o grupo de trabalho tentando implementar regras que já nascem contraditórias.

Mark

Qual é o risco real para os servidores?

Mimi

Se o STF realmente cortar, haverá insegurança jurídica. Se não cortar, a promessa de Fachin vira apenas retórica.

Mark

E a transparência que ele menciona?

Mimi

O grupo de trabalho vai tentar garantir uniformidade, mas sem legislação clara, a transparência fica comprometida. Cada tribunal pode interpretar as regras de forma diferente.

  • Fachin prometeu publicamente cortar pagamentos que violem as decisões do STF sobre supersalários — mas o CNJ que ele preside aprovou uma nova gratificação não autorizada pela Corte dois dias antes.
  • A resolução do CNJ não apenas preservou penduricalhos que o STF havia determinado extinguir, como criou um benefício inédito de proteção à primeira infância, aprovado por unanimidade.
  • A decisão do STF de 25 de março já havia aberto caminho para remunerações de até R$ 78,7 mil, acima do teto constitucional, gerando controvérsia sobre o alcance real do corte prometido.
  • Sem nova legislação do Congresso — improvável em ano eleitoral — um grupo de trabalho do CNJ e do CNMP tenta harmonizar diretrizes que já nascem em contradição.
  • A credibilidade do compromisso com a transparência fiscal depende agora de como esse grupo de trabalho navegará entre decisões que o próprio sistema produziu em conflito.

No cruzamento entre o discurso e a prática institucional, o presidente do STF, Edson Fachin, prometeu eliminar benefícios irregulares pagos a magistrados — enquanto o conselho que ele mesmo preside aprovava, dias antes, uma resolução que mantinha penduricalhos e criava uma nova gratificação não autorizada pela própria Corte. O episódio, ocorrido em abril de 2026, ilumina uma tensão antiga no coração do Judiciário brasileiro: a distância entre a norma proclamada e a norma praticada. Enquanto o Congresso permanece silencioso e o ano eleitoral avança, a questão dos supersalários segue suspensa entre promessas e contradições.

Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal, afirmou na última sexta-feira que a Corte eliminaria quaisquer pagamentos a juízes e procuradores que contrariassem suas decisões sobre supersalários. A declaração foi feita durante evento do Observatório de Direitos Humanos no Rio de Janeiro, quando Fachin foi diretamente questionado sobre uma resolução aprovada pelo CNJ dois dias antes. "Se houver alguma questão que esteja desbordando do que o Supremo decidiu, evidentemente nós vamos cortar", afirmou, invocando responsabilidade fiscal e respeito à magistratura.

O problema é que a resolução em questão foi aprovada sob sua própria presidência no CNJ. Além de manter penduricalhos existentes, o texto criou uma nova gratificação de proteção à primeira infância — equivalente a 3% do subsídio por dependente de até seis anos — benefício que não constava das parcelas autorizadas pelo STF. Pior: a Corte havia determinado explicitamente a extinção de verbas similares, como auxílio-creche e auxílio-natalidade. No voto que proferiu no Conselho, Fachin afirmou que o texto seguia o "estrito cumprimento" das balizas fixadas pelo Supremo. A resolução foi aprovada por unanimidade.

O cenário de fundo é igualmente ambíguo. A decisão do STF de 25 de março extinguiu 15 penduricalhos, mas permitiu que o somatório salarial ultrapassasse o teto de 70% do salário de um ministro — abrindo espaço para remunerações de até R$ 78,7 mil. Com o Congresso sem previsão de votar nova legislação sobre o tema, especialmente em ano eleitoral, um grupo de trabalho formado por representantes do CNJ e do CNMP ficará encarregado de implementar as diretrizes do STF. A questão que permanece em aberto é se esse grupo conseguirá harmonizar decisões que, desde o início, carregam em si mesmas a marca da contradição.

Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal, prometeu na sexta-feira que a Corte cortaria pagamentos irregulares concedidos a juízes e procuradores que violassem as decisões do STF sobre supersalários. A afirmação veio durante um evento do Observatório de Direitos Humanos no Rio de Janeiro, quando Fachin foi questionado sobre uma resolução que seu próprio conselho havia aprovado dois dias antes.

"Se houver alguma questão que esteja desbordando do que o Supremo Tribunal Federal decidiu, ou que não faça parte de sua decisão, evidentemente nós vamos cortar", disse Fachin. Ele acrescentou que o objetivo era "colocar ordem nesta matéria" com "racionalidade, com responsabilidade fiscal e, ao mesmo tempo, com respeito à magistratura".

O contexto, porém, revela uma tensão incômoda. No dia 25 de março, o STF havia estabelecido uma tese que extinguia 15 penduricalhos do funcionalismo público, mas permitia que o somatório dos salários ultrapassasse o teto de 70% — equivalente ao salário de um ministro do Supremo, então em R$ 46,3 mil. Na prática, a decisão abria caminho para remunerações de até R$ 78,7 mil. Dentro desse "extrateto", 35% deveria ir para adicional por tempo de carreira e outros 35% para verbas indenizatórias.

Dois dias depois dessa decisão, o Conselho Nacional de Justiça — também presidido por Fachin — aprovou uma resolução conjunta que não apenas mantinha o pagamento dos penduricalhos existentes, mas criava um novo: uma gratificação de proteção à primeira infância equivalente a 3% do subsídio para cada dependente de até seis anos. Esse benefício não constava da lista de parcelas autorizadas pelo STF. Pior: o Supremo havia determinado especificamente a extinção de verbas similares, como "assistência pré-escolar", "auxílio-creche" e "auxílio-natalidade".

No voto que Fachin proferiu no Conselho, ele afirmou que o texto seguia o "estrito cumprimento das balizas fixadas pelo Supremo Tribunal Federal, sem inovar em relação ao quanto decidido". A resolução foi aprovada por unanimidade entre os 11 conselheiros presentes à sessão.

Enquanto o Congresso não editar nova legislação sobre o tema — e não há previsão de votação, especialmente em ano eleitoral — os servidores públicos em geral continuam vinculados ao Regime Estatutário dentro dos limites já previstos em lei. Um grupo de trabalho composto por representantes do CNJ e do Conselho Nacional do Ministério Público ficará responsável por implementar as diretrizes do STF de forma coordenada, com o objetivo de garantir uniformidade na aplicação das regras e fortalecer os mecanismos de controle e transparência.

A contradição entre o discurso de Fachin sobre cortes e a aprovação simultânea de novos benefícios pelo conselho que ele preside levanta questões sobre como essas diretrizes serão efetivamente implementadas — e se o grupo de trabalho conseguirá harmonizar decisões que já nascem em conflito.

Se houver alguma questão que esteja desbordando do que o Supremo Tribunal Federal decidiu, ou que não faça parte de sua decisão, evidentemente nós vamos cortar
— Edson Fachin, presidente do STF
Nós queremos colocar ordem nesta matéria. Vamos colocar ordem com racionalidade, com responsabilidade fiscal e, ao mesmo tempo, com respeito à magistratura
— Edson Fachin
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