Fachin pede investigação 'sem exceção' sobre ministros no caso Banco Master

Apuração parcial é apuração viciada
Gilmar Mendes argumenta que investigação enviesada compromete a legitimidade do processo.
Mark

Por que Fachin precisa enviar um ofício pedindo investigação? A Polícia Federal não deveria estar investigando tudo isso já?

Mimi

Deveria, mas há uma questão de competência. Quando ministros do próprio tribunal estão envolvidos, fica confuso quem autoriza o quê. Fachin está dizendo publicamente: investiguem, sem exceções, e eu vou apoiar isso.

Luke

Mas ele está realmente autorizando, ou apenas pedindo? O ofício diz que ele vai dar "encaminhamento devido", mas a PF ainda quer saber se precisa de autorização formal para produzir relatórios sobre os ministros.

Mimi

Exatamente. É por isso que vai haver uma reunião. A PF quer clareza institucional. Eles não querem produzir um relatório e depois ter alguém dizendo que extrapolaram sua competência.

Mark

E quanto a Moraes? Ele está envolvido em contratos de R$ 131 milhões com a esposa dele. Como ele continua julgando o caso?

Luke

Segundo o texto, ele participou normalmente da votação no dia 15. Apenas Toffoli e Kassio se abstiveram. Isso é um problema que Gilmar Mendes já apontou: como você julga um caso em que você próprio pode estar implicado?

Mimi

Gilmar pediu que todos os ministros citados fossem identificados para que se pudesse determinar quem deveria estar impedido. Mas isso ainda não aconteceu.

Mark

Então a investigação pode mudar quem pode ou não julgar o caso?

Luke

Teoricamente sim. Mas note que Moraes já participou da votação. Se depois a investigação o implicar gravemente, o que acontece com aquele voto? Essas são questões que ainda estão em aberto.

Mimi

E há também a questão de como a investigação foi conduzida até agora. André Mendonça, que é relator do caso, pediu um relatório específico sobre Moraes. Tanto a PF quanto a PGR pediram nulidade desse relatório, dizendo que foi enviesado.

Mark

Então há desconfiança sobre a própria investigação?

Luke

Sim. Gilmar disse que "apuração parcial é apuração viciada". Se você só investiga alguns ministros e não outros, já está fazendo um juízo prévio sobre quem merece ser investigado. Por isso Fachin está pedindo investigação "sem exceção de fato ou de pessoa".

  • Fachin enviou ofício à PF pedindo investigação 'sem exceção' sobre ministros no caso Master em 2 de outubro
  • Alexandre de Moraes editou minuta de contrato de R$ 131 milhões entre Master e escritório da esposa
  • Dias Toffoli recebeu R$ 35 milhões do fundo Arleen, controlado por parente de Vorcaro
  • Filho de Kassio Nunes Marques recebeu R$ 500 mil do Master via empresa de consultoria
  • Moraes participou da votação no dia 15 apesar de ser o ministro mais gravemente implicado

Fachin enviou ofício ao diretor da PF pedindo apuração 'sem qualquer exceção' sobre ministros mencionados no caso Master, reafirmando compromisso com investigação séria e transparente. A PF busca orientação institucional para saber se deve produzir relatórios sobre ministros citados, com reunião prevista entre Fachin e diretor da Polícia Federal para delimitar próximos passos.

O presidente do STF solicita à Polícia Federal investigação abrangente sobre possível envolvimento de ministros da Corte no caso do Banco Master, comprometendo-se com transparência e sem exceções de pessoas.

Na sexta-feira, 2 de outubro, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, enviou um ofício ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, solicitando investigação sobre o possível envolvimento de ministros da Corte no caso do Banco Master. No documento, Fachin se compromete a dar "encaminhamento devido" às ações de apuração e prega a condução dos trabalhos "sem qualquer exceção de fato ou de pessoa". O gesto marca um momento delicado para a instituição: há meses, investigadores e procuradores trabalham para entender as conexões financeiras entre o banqueiro Daniel Vorcaro e membros do tribunal, e agora o próprio presidente da Corte intervém para estabelecer os parâmetros dessa investigação.

A Polícia Federal, porém, ainda busca esclarecimentos sobre como proceder. Segundo fontes que acompanham as investigações, a corporação quer uma orientação institucional clara da Presidência do STF para saber se deve produzir relatórios sobre as menções aos ministros ou se o tema deve ser deixado de lado. O diretor Andrei Rodrigues planeja uma reunião com Fachin para "delimitar os próximos passos", mas ainda não sabe se precisa formalizar algum pedido de autorização à Corte para produzir esses relatórios. A incerteza reflete uma tensão institucional: a investigação toca diretamente membros do tribunal que também são responsáveis por julgá-la.

O caso Master já revelou conexões financeiras entre Vorcaro e ao menos quatro ministros. Alexandre de Moraes é o mais gravemente implicado. Segundo relatório da Polícia Federal, o ministro manteve diálogo por mensagens com Vorcaro, que chegou a lhe pedir dicas de defesa e perguntou, na antevéspera de sua prisão, se deveria sair do País. O magistrado também editou minuta de contrato de R$ 131 milhões entre o Master e o escritório de sua mulher, a advogada Viviane Barci de Moraes. Foram encontradas ainda outras duas minutas entre empresas de Vorcaro e da banca dela, uma no valor de R$ 129 milhões e outra de R$ 50 milhões, que previa pagamento por meio da cessão de cotas de um avião e um helicóptero particulares, ambos operados pela Prime You, empresa de Vorcaro.

Dias Toffoli admitiu ter participação no resort Tayaya, do qual seus familiares eram sócios. O empreendimento recebeu R$ 35 milhões do fundo Arleen, cujo cotista era Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro de Vorcaro. Os recursos foram recebidos por meio da Maridt Participações, controlada por parentes do ministro. Um relatório da Polícia Federal indica suspeita de que Toffoli seja o "beneficiário final" ou "proprietário de fato" do Arleen, com o repasse de R$ 35 milhões tendo ido parar nas Ilhas Virgens Britânicas por meio de uma transação com a holding Egide I.

Kassio Nunes Marques tem envolvimento através de seu filho, o advogado Kevin Marques, que recebeu recursos do Master por meio da Consult Inteligência Tributária, empresa que teve aportes do banco de Vorcaro. Diálogos do banqueiro com o diretor jurídico do Master, Luiz Rennó, citam pagamento de R$ 500 mil a Kevin. Em 4 de julho de 2025, Rennó enviou o contato de Kevin a Vorcaro e escreveu: "Esse aqui _ 500 mil mês - mantém?". Em 8 de agosto, Rennó escreveu novamente: "Dos pagamentos essenciais está faltando a consult", enviando o contato de Kevin com a indicação "Aqui" e complementando: "Esse aí. Único 'meu' que faltou".

Luiz Fux também aparece nas investigações. Seu filho, o advogado Rodrigo Fux, manteve conversas com Vorcaro por mensagens. Nos diálogos, o banqueiro chama o advogado para "me ajudar num caso" e ambos marcam reuniões em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. A troca de mensagens também indica que Vorcaro bancou ingressos para a família do advogado em um camarote VIP no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro, em fevereiro de 2025. Em 5 de novembro de 2025, Vorcaro escreveu: "Quero te chamar pra me ajudar num caso", e Rodrigo respondeu: "Claro. O que for melhor pra vc".

No último dia 28, o decano do STF, Gilmar Mendes, protocolou uma questão de ordem pedindo o levantamento de todos os magistrados, inclusive de outros tribunais, citados em diálogos de Vorcaro. Segundo Mendes, a medida tinha como objetivo delimitar os indícios de crime contra cada um e conferir legitimidade à investigação, que em sua visão foi conduzida de forma enviesada por André Mendonça, relator do caso. "Apuração parcial é apuração viciada, porque o recorte do objeto já constitui, ele próprio, um juízo prévio sobre o que merece e o que não merece ser esclarecido", argumentou. Mendes defendeu que seria possível também definir quais ministros estariam impedidos de julgarem o caso Master e "feitos correlatos". Na sessão do dia 15, apenas Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques se abstiveram de votar: um por impedimento e outro por suspeição. Moraes, o mais gravemente implicado, participou normalmente.

Agora, com o ofício de Fachin, a investigação entra em uma nova fase. O presidente do STF cita "a existência de informações, dados, documentos, elementos ou indícios relacionados a eventual envolvimento de integrantes deste Supremo Tribunal Federal em fatos objeto de apuração no contexto do denominado caso Banco Master". Demonstra confiança na isenção da Polícia Federal e do Ministério Público Federal e defende que as investigações devem fortalecer a credibilidade dos órgãos. "A preservação da confiança pública nas instituições exige que eventuais ilícitos sejam investigados com seriedade, transparência e respeito à ordem constitucional", escreveu. O próximo passo depende da conversa entre Fachin e Andrei Rodrigues, que definirá se e como a Polícia Federal produzirá relatórios sobre os ministros mencionados no celular de Vorcaro.

A preservação da confiança pública nas instituições exige que eventuais ilícitos sejam investigados com seriedade, transparência e respeito à ordem constitucional
— Edson Fachin, presidente do STF
Apuração parcial é apuração viciada, porque o recorte do objeto já constitui, ele próprio, um juízo prévio sobre o que merece e o que não merece ser esclarecido
— Gilmar Mendes, decano do STF
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