Andujar e Love colaboraram nas décadas de 1960 e 1970, casados e parceiros artísticos que exploraram solarizações, exposições duplas e filmes infravermelhos. O trabalho conjunto incluiu reportagens para a revista Realidade sobre a Amazônia, onde Andujar conheceu os yanomami, redefinindo sua trajetória artística.
Exposição 'To Love' celebra parceria artística e afetiva de Claudia Andujar e George Love
A fotografia não se limita a descrever, mas se abre à cosmologia yanomami
Por que essa exposição importa agora, especificamente? Andujar e Love trabalharam juntos há mais de cinquenta anos.
Porque Love foi esquecido, e porque a gente precisa ver que a experimentação formal e o compromisso documental não são coisas opostas. Eles mostraram que era possível fazer os dois ao mesmo tempo.
Mas a gente sabe realmente o que Love fez e o que Andujar fez? Os créditos da mostra dizem que os retratos são de Love, mas você mesmo especula que talvez Andujar tenha tirado o dele.
Sim, essa contaminação entre autores é parte do ponto. Eles não tinham fronteiras claras. Mas você está certo — há coisas que a gente não sabe com precisão.
E quanto ao trabalho com os yanomami? Como é que fica a questão ética quando você está expondo imagens de rituais mortuários?
Andujar mesma reconhece o problema. Mas ela conecta isso à sua própria história — a perseguição antissemita que sua família sofreu. Não resolve o dilema, mas o torna mais complexo.
Complexo, sim, mas ainda assim há uma imagem de um rito mortuário na parede. A gente está vendo algo que talvez não devesse estar sendo visto. Andujar pensou sobre isso?
Ela pensou. E decidiu que a fotografia podia se abrir à cosmologia yanomami, em vez de apenas descrevê-la de fora. Não é uma resposta perfeita, mas é uma posição.
E Love? O que ele contribuiu para isso?
A influência dele na formulação dessa linguagem experimental não parece pequena. Ele ensinava que a fotografia era "realidade em si", aberta à transformação. Isso deu a Andujar ferramentas para fazer o que fez.
Mas a gente tem documentação disso? Cartas, anotações, algo que mostre essa influência direta?
Não sei. A mostra não deixa isso explícito. É uma leitura da curadoria.
Der Puls
- Claudia Andujar e George Love casaram em 1967 em Nova York e colaboraram artisticamente nas décadas de 1960 e 1970
- Conheceram-se em torno da Association of Heliographers em Nova York e se estabeleceram em São Paulo em 1966
- Publicaram fotografias sobre a Amazônia na revista Realidade em 1971, quando Andujar conheceu os yanomami pela primeira vez
- Colaboraram no fotolivro 'Amazônia' (Praxis, 1978) com projeto gráfico de Wesley Duke Lee
- Love coordenou o happening 'Som, Imagem e Luz' no Masp em fevereiro de 1971, reunindo cerca de mil pessoas
Andujar e Love colaboraram nas décadas de 1960 e 1970, casados e parceiros artísticos que exploraram solarizações, exposições duplas e filmes infravermelhos. O trabalho conjunto incluiu reportagens para a revista Realidade sobre a Amazônia, onde Andujar conheceu os yanomami, redefinindo sua trajetória artística.
A exposição "To Love" na galeria Vermelho apresenta a colaboração artística e amorosa entre os fotógrafos Claudia Andujar e George Love, explorando técnicas experimentais que ampliaram as possibilidades da fotografia como linguagem.
A exposição "To Love" na galeria Vermelho reúne pela primeira vez, de forma sistemática, a colaboração entre dois fotógrafos que se amaram e criaram juntos: Claudia Andujar e George Love. A mostra, com curadoria de Eder Chiodetto, apresenta ampliações contemporâneas em grande formato produzidas a partir dos arquivos de ambos, marcando também o início da representação do Arquivo George Love pela galeria. O que torna essa parceria notável não é apenas o afeto que a sustentava, mas a radicalidade das escolhas formais que os dois exploraram em conjunto — solarizações, exposições duplas e prolongadas, filmes infravermelhos, alterações no processamento químico — recursos que ampliaram significativamente as possibilidades da fotografia como linguagem artística.
Andujar e Love se conheceram em Nova York, onde circulavam pela Association of Heliographers, uma cooperativa de fotógrafos ativa em meados dos anos 1960. Após viajarem juntos pela América do Sul, estabeleceram-se em São Paulo em 1966 e casaram-se no ano seguinte, em Nova York. O casamento duraria até 1974, mas a colaboração artística deixaria marcas profundas em ambos. Andujar, nascida na Suíça e criada no Leste Europeu, já havia se radicado em São Paulo na década anterior. Love era um fotógrafo americano que traria consigo uma visão experimental da imagem fotográfica. Juntos, colaboraram intensamente com a revista Realidade, da editora Abril, conhecida por suas reportagens ambiciosas sobre grandes temas brasileiros e pela ousadia no tratamento da fotografia.
Em 1971, publicaram fotografias no número especial dedicado à Amazônia. Foi durante uma das viagens para essa reportagem que Andujar encontrou pela primeira vez os yanomami — um encontro que redefiniria completamente sua trajetória artística. Naquele mesmo ano, Love coordenou no Masp um happening audiovisual chamado "Som, Imagem e Luz", que reuniu cerca de mil pessoas no vão-livre e nos jardins do museu, com projeções, jogos de luz e uma trilha sonora que incluía cantos do povo indígena xikrin e gravações de Jimi Hendrix. Os dois também tiveram papel fundamental na formação de uma cultura institucional da fotografia no Masp: Andujar organizou cursos, dirigiu o laboratório e supervisionou o novo Departamento de Fotografia, enquanto Love ministrou um curso que definia a imagem fotográfica como "realidade em si", aberta à reprodução, à transformação e a novos modos de apresentação.
A pesquisa amazônica conjunta foi reunida no fotolivro "Amazônia", publicado pela Praxis em 1978, com projeto gráfico do artista Wesley Duke Lee. Imagens desse livro ocupam a sala principal do primeiro andar da exposição na Vermelho, recriando e expandindo o diálogo que havia sido estabelecido nas páginas da publicação. A estratégia da ampliação em grande escala, da justaposição e dos jogos cromáticos ocupa o centro dessa montagem. Muitas dessas imagens fazem parte do monumental acervo fotográfico que Andujar construiu ao longo de décadas junto aos yanomami, documentando sua vida e sua resistência — um trabalho que talvez não tenha paralelo na história da fotografia dedicada a um único povo indígena.
O trabalho de Andujar com os yanomami apresenta uma tensão fundamental: entre a fotografia documental radical, em que o fotógrafo se aproxima vitalmente de seu objeto, e a imagem experimental, na qual a forma interroga o caráter realista da fotografia e a afirma como materialidade em si mesma. Uma imagem do rito mortuário yanomami levanta questões éticas incontornáveis sobre a apropriação da cultura do outro, especialmente quando estão em jogo temas espirituais. Essas questões devem ser lidas à luz da correlação que a própria Andujar estabeleceu entre a luta indígena e sua biografia — seu compromisso progressivo com os yanomami foi atravessado pela memória da perseguição antissemita sofrida por sua família paterna durante o Holocausto. Isso não atenua o problema ético da representação, mas permite situá-lo numa perspectiva mais complexa.
O aspecto mais significativo da exposição é entender como o trabalho de Andujar com os yanomami se aproxima de uma posição experimental, emancipando suas imagens dos limites e da pretensão de transparência da linguagem etnográfica. A série "O Reahu", dedicada aos rituais e representada por um imponente díptico vermelho, é a manifestação mais contundente dessa abertura epistêmica — a fotografia não se limita a descrever uma cultura a partir de fora, mas procura se abrir à cosmologia yanomami. A influência de Love na formulação dessa linguagem não parece pequena.
No segundo andar da mostra, a investigação experimental de Love é levada às fronteiras da abstração pela série "Ponta de Filme". Filmes riscados, furados, velados ou mal processados criam campos de cor que funcionam como elogios do acidente e manifestações da materialidade cromática da fotografia. Essa conversão de acidentes e resíduos do processo fotográfico em imagens abstratas antecipa o trabalho que Wolfgang Tillmans desenvolveria décadas mais tarde. Love permanecia relativamente esquecido até recentemente, com exceção de uma exposição no Museu de Arte Moderna de São Paulo em 2024, com curadoria do fotógrafo Zé de Boni, guardião de seu acervo. Conhecer melhor seu impulso criativo é algo a se comemorar.
O reencontro dos dois artistas e amantes na exposição da Vermelho permite ver a coragem de suas apostas — pouco óbvias e arriscadas. A colaboração artística em sintonia com a relação afetiva, as influências de mão dupla, a convergência entre práticas documentais e formalistas que hoje parecem tristemente divorciadas: tudo isso ressurge como um testemunho de uma forma de estar no mundo que merecia ser resgatada.
Bemerkenswerte Zitate
A fotografia é realidade em si, aberta à reprodução, à transformação e a novos modos de apresentação— George Love, em curso que ministrou no Masp
O compromisso progressivo com os yanomami foi atravessado pela memória da perseguição antissemita sofrida pela família paterna durante o Holocausto— Claudia Andujar, conforme estabelecido em textos e entrevistas