A mostra apresenta 17 casos de serial killers com cenários detalhados, mas transforma crimes reais em estúdios fotográficos com instruções para poses. Visitantes podem simular crimes em réplicas de locais reais, como sentar em cadeira de tortura ou posar como estrangulado, com fotos profissionais à venda.
Exposição sobre serial killers em SP explora morbidez instagramável além do educativo
Crimes reais viram estúdios fotográficos com instruções para poses
Por que uma exposição assim causa tanto incômodo se as pessoas já consomem true crime em podcasts, séries e documentários?
Porque há uma diferença entre assistir e participar. Aqui você não está observando — você está dentro da cena, posando, fingindo. É imersão, não contemplação.
Mas a exposição diz que é educativa. Há algum conteúdo real ali, ou é só cenário?
Há detalhes documentados, sim. Os dossiês têm informação. Mas a estrutura da experiência prioriza a foto sobre o conhecimento. Você passa mais tempo posando do que lendo.
E quanto às vítimas? Há alguma menção a elas?
A exposição diz que é uma homenagem às vítimas, mas as vítimas não aparecem como pessoas. Aparecem como cenário para sua foto.
Quantas vítimas estamos falando?
Ted Bundy matou 30 mulheres. Dahmer matou 17 pessoas. O Zodíaco matou cinco. São dezenas de pessoas reais cujas mortes viram diversão fotográfica.
A exposição tem alguma advertência sobre isso?
Não há indicação de que tenha. E mesmo que tivesse, a estrutura comercial contradiz qualquer aviso — você está pagando para posar, comprando fotos, bebendo drinques temáticos.
O incômodo real é que não há hipocrisia aqui. A exposição é honesta sobre o que é: entretenimento mórbido. Só não quer admitir.
E se isso fosse sobre crimes brasileiros?
Aí a pergunta fica impossível de ignorar. Seria aceitável? Provavelmente não. Então por que é aceitável com crimes americanos?
Il Polso
- Exposição aberta no shopping Eldorado desde 3 de setembro, com ingressos de R$ 50 a R$ 140
- 17 casos de serial killers apresentados, incluindo Ted Bundy (30 vítimas), Jeffrey Dahmer (17 vítimas) e Richard Chase
- Visitantes podem posar em réplicas de locais de crime, como cadeira de tortura de David Parker Ray e Fusca de Ted Bundy
- Fotos profissionais, experiência 3D (R$ 30) e fotografias com IA (R$ 70) são vendidas como souvenirs
A mostra apresenta 17 casos de serial killers com cenários detalhados, mas transforma crimes reais em estúdios fotográficos com instruções para poses. Visitantes podem simular crimes em réplicas de locais reais, como sentar em cadeira de tortura ou posar como estrangulado, com fotos profissionais à venda.
Exposição "A mente de um Serial Killer" no shopping Eldorado de São Paulo promete reflexão sobre crimes violentos, mas funciona como voyeurismo mórbido instagramável com cenários para fotos posando como assassinos.
Uma exposição chegou a São Paulo no começo de setembro prometendo reflexão sobre crimes violentos e homenagem às vítimas. "A mente de um Serial Killer", em cartaz no shopping Eldorado desde o dia 3, cobra entre R$ 50 e R$ 140 pela entrada. O que se encontra lá, porém, é outra coisa: um espaço que começa com pretensões educativas e termina como voyeurismo mórbido embalado para Instagram.
A mostra apresenta 17 casos de assassinos em série — Ted Bundy, BTK, Edward Gein, Jeffrey Dahmer, Richard Chase, David Parker Ray, entre outros. Conforme o visitante avança pelas salas, o tom muda. Os primeiros espaços oferecem detalhes perturbadores mas contextualizados: bonecos amarrados na casa de BTK, uma cabeça na geladeira de Dahmer. Essa riqueza de detalhes, ainda que incômoda, funciona como documentação. O problema começa quando os cenários viram cenários de fotografia.
Na réplica do Fusca de Ted Bundy — o carro em que ele caçou e matou 30 mulheres — há instruções claras para poses: recline no banco, abaixe-se, posicione-se como o assassino faria. Na sala de Richard Chase, o vampiro de Sacramento, uma banheira coberta de sangue falso aguarda o próximo clique. A instrução é direta: "Finge de morto". No espaço dedicado a David Parker Ray, conhecido como o assassino da caixa de brinquedos, os visitantes podem sentar em uma cadeira de tortura e simular sofrimento — ou, se acompanhados, fazer poses fingindo serem estrangulados pelo cônjuge.
O incômodo não é a recriação de cenas de crime em si. É a transformação deliberada desses crimes em diversão fotográfica. A exposição vende fotos profissionais tiradas nesses cenários. Oferece uma experiência 3D por R$ 30 adicional. Tem uma loja onde se compra camisetas com alusão ao Zodíaco — o serial killer que matou cinco pessoas no norte da Califórnia — e fotografias geradas por inteligência artificial que transformam visitantes em policiais ou assassinos. Há até um bar com drinques inspirados nos crimes.
O questionamento que fica é simples e perturbador: seria aceitável o Brasil exportar uma exposição em que visitantes simulassem ser Manfred e Marísia von Richthofen? Acharia-se divertido um espaço instagramável das matas do antigo Parque do Estado, onde o Maníaco do Parque desovou suas vítimas? A exposição não responde essas perguntas. Apenas as levanta, sem intenção aparente de fazê-lo.
Além da questão ética, a mostra coleciona problemas práticos. Com 17 casos, torna-se repetitiva e cansativa. Os totens interativos e dossiês, embora interessantes, são limitados, o que gera filas. Os 90 minutos prometidos facilmente viram três horas ou mais. Fãs de true crime devem se preparar para uma visitação longa, cara e que termina com a opção de levar para casa um souvenir: uma foto sua posando como um assassino em série.
Citazioni salienti
A exposição se apresenta como reflexão sobre crimes violentos e homenagem às vítimas, mas funciona como voyeurismo mórbido imersivo— Análise da mostra
Seria aceitável o Brasil exportar uma exposição em que visitantes simulassem ser Manfred e Marísia von Richthofen?— Questionamento levantado pela crítica