Exposição no Museu Afro Brasil explora memória, beleza e resistência afro-brasileira

A beleza e a aparência também podem ter dimensão política
Raissa Albano, curadora da mostra, sobre como os adornos das mulheres negras baianas expressavam poder e hierarquia.
Mark

Por que a escolha de organizar a exposição em núcleos temáticos em vez de uma linha cronológica?

Mimi

A curadoria quis criar uma conversa entre diferentes aspectos da vida afro-brasileira — sagrado, festas, beleza, resistência — como se fossem cômodos de uma casa. Isso permite que o visitante veja como a memória se perpetua através de múltiplas dimensões, não apenas como uma sequência de eventos históricos.

Luke

Mas como se define o que entra em cada núcleo? Se um balangandã é ao mesmo tempo beleza e resistência, onde ele fica?

Mimi

Boa pergunta. A curadoria faz escolhas sobre qual aspecto destacar, e isso é sempre uma interpretação. No caso dos balangandãs, a ênfase foi na beleza como ato político — a visibilidade, a riqueza demonstrada, a identidade marcada.

Mark

E a Rede de Acervos Afro-brasileiros — como ela funciona na prática?

Mimi

É uma rede que articula terreiros, quilombos e centros de memória para preservar acervos e fazer eventos juntos. Nesta exposição, 38 dos 52 projetos da rede contribuíram com materiais.

Luke

Mas qual é o critério para um projeto entrar na rede? E por que apenas 38 dos 52 estão representados aqui?

Mimi

A fonte não detalha isso. Pode ser questão de disponibilidade de peças, de logística, ou de decisão curatorial sobre o que funcionaria melhor na mostra.

Mark

Mãe Simplícia de Ogum denunciou violência policial — isso está documentado em algum lugar?

Mimi

A fonte menciona que ela denunciou a violência, mas não especifica como ou onde. É um detalhe que merecia aprofundamento.

Luke

Exatamente. A fonte diz que ela "denunciou", mas não oferece fontes para essa denúncia. É uma afirmação que precisa de verificação.

  • A exposição chega num momento em que a preservação da memória afro-brasileira ainda enfrenta apagamentos institucionais e culturais sistemáticos.
  • 150 objetos — joias, roupas, discos, esculturas e fotografias — criam uma tensão produtiva entre o sagrado e o cotidiano, entre o colonial e o contemporâneo.
  • A coleção de balangandãs baianos expõe uma contradição histórica poderosa: mulheres escravizadas que usavam ouro e prata como declaração pública de identidade e acúmulo de autonomia.
  • A Rede de Acervos Afro-brasileiros, com 38 instituições participantes, tenta costurar geografias e temporalidades dispersas numa narrativa coletiva e contínua.
  • A mostra permanece em cartaz até 28 de janeiro de 2027, oferecendo tempo e espaço para que o público se aproxime de histórias que a história oficial frequentemente omitiu.

No coração do Ibirapuera, uma exposição chamada 'Nzo' — palavra quicongo para 'casa' — convida São Paulo a habitar a memória afro-brasileira como se ela fosse um lar vivo, não um arquivo distante. Reunindo 150 objetos que vão de adornos coloniais a vestimentas de terreiro, a mostra do Museu Afro Brasil Emanoel Araujo propõe que beleza, festa, espiritualidade e resistência não são temas separados, mas cômodos de uma mesma existência. Até janeiro de 2027, a curadoria de Raissa Albano articula terreiros, quilombos e centros de memória de todo o Brasil, lembrando que preservar é também um ato político.

No parque Ibirapuera, o Museu Afro Brasil Emanoel Araujo abriu 'Nzo', exposição cujo título vem do quicongo e significa casa — uma escolha que já revela a intenção: criar um espaço onde memórias afro-brasileiras coexistam como numa morada compartilhada. A mostra ficará em cartaz até 28 de janeiro de 2027 e reúne 150 itens entre roupas, joias, fotografias, discos e esculturas.

A curadoria, coordenada por Raissa Albano, 33 anos, organizou o acervo em núcleos temáticos que funcionam como cômodos dessa casa conceitual: o sagrado dos terreiros, as festas populares como samba e maracatu, a identidade corporal e a resistência política. Peças de São Paulo, Minas Gerais e Bahia são colocadas lado a lado, criando diálogos visuais que atravessam geografias e épocas.

Entre os destaques estão os balangandãs baianos — adornos de metal em forma de figas, frutas e animais usados por mulheres negras do período colonial até 1920. Ao contrário de amuletos escondidos, eram feitos para serem vistos: quanto mais peças e metais preciosos, maior a demonstração de patrimônio. As mulheres que os portavam, conhecidas como ganhadeiras e quituteiras, vendiam alimentos e serviços nas cidades e, por vezes, juntavam recursos para comprar a própria alforria. 'Aqui, a beleza e a aparência também podem ter dimensão política, de poder e hierarquia', explica Albano.

A mostra incorpora ainda materiais de 38 projetos da Rede de Acervos Afro-brasileiros, iniciativa que articula terreiros, quilombos e centros de memória. Entre as peças mais significativas estão uma vestimenta da década de 1950 pertencente à Mãe Simplícia de Ogum, líder espiritual que denunciou a violência policial contra religiões de matrizes africanas, além de objetos ligados ao cantor Itamar Assumpção e ao geógrafo Milton Santos. A entrada custa a partir de R$ 15, de terça a domingo.

No parque Ibirapuera, em São Paulo, o Museu Afro Brasil Emanoel Araujo abriu as portas para "Nzo", uma exposição que permanecerá em cartaz até 28 de janeiro de 2027 e que se propõe a contar como a memória dos afro-brasileiros persiste através da beleza, das celebrações, das lutas territoriais e da reivindicação de direitos civis. O título da mostra vem do quicongo, idioma falado em províncias ao norte de Angola, e significa casa — uma escolha que já sinaliza a intenção de criar um espaço onde diferentes narrativas e objetos convivem como em um lar compartilhado.

A exposição reúne 150 itens que incluem roupas, joias, fotografias, discos e esculturas, organizados em núcleos temáticos que funcionam como cômodos dessa casa conceitual. O Nzo Sagrado explora como os terreiros transmitem conhecimento entre gerações. Outro eixo dedica-se às festas populares — samba, jongo e maracatu — como celebrações que preservam a memória negra. O Nzo Beleza aborda o corpo e a identidade, enquanto o Nzo Resistência documenta a luta por territórios e as ações para manter viva a memória afro-brasileira. Além das peças do acervo do próprio museu, a mostra incorpora materiais de 38 dos 52 projetos que integram a Rede de Acervos Afro-brasileiros, uma iniciativa criada pela instituição para articular terreiros, quilombos e outros centros de memória em torno da preservação de acervos e da realização de eventos conjuntos.

A curadoria, coordenada por Raissa Albano, 33 anos, optou por colocar lado a lado itens de épocas, regiões e procedências distintas. Uma peça de São Paulo dialoga com uma instalação mineira, que por sua vez está próxima a uma vestimenta vinda da Bahia. Essa estratégia cria uma conversa visual que atravessa geografias e temporalidades, sugerindo conexões e continuidades na experiência afro-brasileira.

Entre os destaques está a coleção de balangandãs, adornos de metal com formatos de figas, frutas e animais que as mulheres negras da Bahia usavam do período colonial até 1920. Diferentemente de amuletos escondidos sob a roupa, os balangandãs eram feitos para serem vistos — quanto mais peças e metais preciosos, maior a demonstração de patrimônio. As mulheres que os portavam eram chamadas de "escravas de ganho", conhecidas como ganhadeiras e quituteiras porque vendiam alimentos, costuravam, bordavam, faziam panelas e lavavam roupas nas cidades. Com os serviços, se sustentavam e, por vezes, juntavam recursos para comprar a própria alforria. "Isso mostra a altivez que muitas pessoas negras tiveram para marcar identidade e presença social", explica Albano. "Aqui, a beleza e a aparência também podem ter dimensão política, de poder e hierarquia."

Diante desse eixo, a instalação de tecidos "Sinais de si" (2022) retrata outra face do mesmo período, usando lenços de mulheres de Juiz de Fora, em Minas Gerais, como referência ao trabalho delas na indústria têxtil local. A mostra também apresenta peças da Casa Oxumarê, importante terreiro de Salvador dedicado à preservação do candomblé no Brasil, incluindo uma vestimenta da década de 1950 que pertenceu à Mãe Simplícia de Ogum (1922-1967), líder espiritual que denunciou a violência policial contra religiões de matrizes africanas.

Os eixos sobre resistência e beleza reúnem ainda objetos ligados à música e à literatura: uma jaqueta e um par de óculos do cantor e compositor Itamar Assumpção (1949-2003), e fotografias e desenhos do intelectual Milton Santos (1926-2001). A mostra também inclui um disco do Memorial Mãe Menininha do Gantois, no qual os visitantes ouvem ritos do candomblé durante o percurso pela exposição. Aberta de terça a domingo, das 10h às 18h, a entrada custa a partir de R$ 15.

Isso mostra a altivez que muitas pessoas negras tiveram para marcar identidade e presença social. Aqui, a beleza e a aparência também podem ter dimensão política, de poder e hierarquia.
— Raissa Albano, coordenadora de curadoria
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