Quando um artista parte, o que fica são os rastros de sua curiosidade — os cadernos rabiscados, os discos amados, as piadas que ensinaram uma geração a rir de si mesma. No Centro Cultural Fiesp, na Avenida Paulista, uma exposição gratuita dedicada a Luis Fernando Verissimo convida o público a percorrer a vida de um dos maiores humoristas brasileiros, morto em 2025 aos 88 anos. Com mais de 300 itens reunidos até fevereiro de 2027, a mostra transforma objetos íntimos em pontes entre o homem e a obra, entre o passado e quem ainda o lê.
Exposição gratuita retrata vida e obra de Luis Fernando Verissimo na Fiesp
O jazz foi um grande amor que não virou profissão
Por que uma exposição sobre Verissimo agora, um ano depois de sua morte? Parece um momento de consolidação.
Exatamente. Há tempo para o luto passar e para a gente ver com clareza o que ele deixou. A viúva doou o acervo à universidade, e isso abriu a possibilidade de contar a história completa — não só o humorista famoso, mas o menino que queria tocar saxofone, o filho de Érico Verissimo.
Mas a gente sabe realmente quanto tempo Verissimo dedicou à música versus à escrita e ao desenho? Os discos estão ali, mas não sabemos se ele tocava profissionalmente ou se era um hobby.
A curadora Isa Pessoa trabalhou com ele por anos na editora. Ela diz que foi a música que o cativou na juventude, mas a carreira dele foi na escrita e no desenho. Parece que o jazz foi um grande amor que não virou profissão.
E o Patentino, aquele jornal que ele fez com a irmã — isso mostra algo importante sobre como ele pensava desde cedo?
Mostra irreverência, sim. Dois miúdos criticando os adultos em um jornal caseiro com um nome provocador. É o DNA do humorista já ali.
Mas a gente não sabe quanto tempo durou, quantas edições teve, se era realmente lido ou se era só brincadeira entre irmãos. A exposição mostra um exemplar, mas não há contexto sobre o alcance.
As técnicas que ele usava para as charges — papéis transparentes, camadas separadas para cor — isso era comum entre cartunistas da época?
Parece que não. Isa Pessoa destaca isso como sofisticado para a época. Era um processo que mostrava como Verissimo pensava em camadas, em composição, em como a imagem se constrói.
Verdade, mas a gente não tem depoimento de outros cartunistas da época dizendo se era inovador ou se era prática padrão. É uma interpretação da curadora.
Os vídeos com Chico Buarque, Fernanda Torres — eles falam sobre influência direta?
A fonte diz que há depoimentos sobre a influência dele, mas não especifica o que cada um diz. É um espaço para ouvir como ele tocou gerações diferentes.
Então a gente não sabe se é elogio, análise crítica, ou memória pessoal. Mas está lá para quem quiser ver.
O Pulso
- A morte de Verissimo em 2025 deixou um vazio no humor brasileiro que a exposição tenta, com delicadeza, tornar visitável.
- Mais de 300 itens — cadernos de infância, cartas, originais de charges e discos de jazz — foram doados pela viúva e organizados pela curadora Isa Pessoa, que editou o escritor por anos.
- A mostra revela camadas pouco conhecidas do artista: o adolescente obcecado por Louis Armstrong, o criador do jornaleco irreverente Patentino e o cartunista que usava papéis transparentes sobrepostos para colorir suas charges.
- Personagens icônicos como As Cobras e o Analista de Bagé ganham forma física, enquanto vídeos com Chico Buarque, Fernanda Torres e Milton Hatoum ampliam o eco de sua influência.
- A entrada é gratuita e a exposição segue aberta até 28 de fevereiro de 2027, de terça a domingo, tornando o acesso à memória de Verissimo um gesto público e democrático.
Quando um artista parte, o que fica são os rastros de sua curiosidade — os cadernos rabiscados, os discos amados, as piadas que ensinaram uma geração a rir de si mesma. No Centro Cultural Fiesp, na Avenida Paulista, uma exposição gratuita dedicada a Luis Fernando Verissimo convida o público a percorrer a vida de um dos maiores humoristas brasileiros, morto em 2025 aos 88 anos. Com mais de 300 itens reunidos até fevereiro de 2027, a mostra transforma objetos íntimos em pontes entre o homem e a obra, entre o passado e quem ainda o lê.
No Centro Cultural Fiesp, na Avenida Paulista, uma exposição gratuita traça a vida de Luis Fernando Verissimo — escritor, cartunista e um dos grandes humoristas do Brasil, morto em 2025 aos 88 anos. Com mais de 300 itens em exibição até fevereiro de 2027, a mostra foi organizada por Isa Pessoa, que passou anos editando suas publicações na Objetiva e assumiu a curadoria com a intimidade de quem conhecia o homem por trás das palavras.
O acervo chegou por meio de uma doação da viúva, Lúcia Helena Massa, à Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Entre os objetos estão cadernos da infância, cartas, originais de charges e a réplica da máquina de escrever herdada do pai, Érico Verissimo. Há também um exemplar do Patentino, o jornaleco que Luis Fernando criou na juventude com a irmã Clarissa — cujo nome, tirado de um termo gaúcho para privada, já anunciava o humorista que ele seria.
A música ocupa um lugar central na exposição. Na adolescência, durante a ascensão do jazz nos anos 1950, Verissimo sonhou em ser trompetista como Louis Armstrong e depois saxofonista como Charlie Parker. Os discos de sua coleção pessoal estão expostos, e os visitantes podem ouvir algumas faixas por um tablet — um detalhe que aproxima o espectador do jovem apaixonado que ele foi.
Nas charges, vê-se o coração da mostra. Os originais revelam um processo sofisticado: camadas de papel transparente sobrepostas para separar cores e detalhes. Seus personagens mais memoráveis ganham presença física — As Cobras em uma grande escultura, o Analista de Bagé com seu divã disponível para os visitantes, o detetive Ed Mort e a Família Brasil em desenhos. Um boneco inspirado nas caricaturas do próprio Verissimo percorre a exposição como uma presença silenciosa.
Vídeos com depoimentos de Fernanda Torres, Claudia Abreu, Chico Buarque e Milton Hatoum completam a mostra, transformando objetos em diálogo entre gerações. A entrada é gratuita, e o Centro Cultural Fiesp funciona de terça a domingo, das 10h às 20h.
No Centro Cultural Fiesp, na Avenida Paulista, está aberta até o final de fevereiro uma exposição gratuita dedicada a Luis Fernando Verissimo, o escritor e cartunista que morreu em 2025 aos 88 anos deixando um legado como um dos grandes humoristas brasileiros. A mostra reúne mais de 300 itens que traçam sua vida desde a infância até a consolidação de uma carreira que atravessou décadas e múltiplas linguagens — literatura, desenho, humor gráfico, música.
O acervo vem de uma doação generosa feita pela viúva do autor, Lúcia Helena Massa, à Universidade do Vale do Rio dos Sinos, em Porto Alegre. Isa Pessoa, que trabalhou anos editando as publicações de Verissimo na editora Objetiva, assumiu a curadoria com a missão de iluminar os grandes amores do escritor e sua capacidade de se expressar através de tantas formas diferentes. Ela conhecia de perto o homem por trás das palavras e dos desenhos, o que dá à exposição uma intimidade rara.
Verissimo cresceu entre dois mundos. Seu pai era Érico Verissimo, também escritor de renome, que lecionava na Universidade da Califórnia quando Luis era criança. Apesar dessa herança literária forte, foi a música que o capturou na adolescência, durante a ascensão do jazz nos anos 1950. Admirador de Louis Armstrong, sonhava em tocar trompete. Quando isso não foi possível, migrou para o saxofone, determinado a ser Charlie Parker. A exposição permite aos visitantes ver discos de sua coleção pessoal e ouvir algumas faixas através de um tablet — um detalhe que conecta o espectador ao jovem apaixonado por jazz que Verissimo foi.
As ilhas espalhadas pelo salão exibem cadernos da infância, cartas, originais de trabalho e objetos que marcaram sua vida criativa. Está ali a réplica da máquina de escrever que herdou do pai. Está também um exemplar do Patentino, um jornaleco irreverente que criou na juventude junto com sua irmã, Clarissa Verissimo. O nome vinha de um termo gaúcho para privada — típico da irreverência que o caracterizaria. Naquele jornal caseiro, os dois miúdos criticavam os adultos ao redor com uma liberdade que prenunciava o humorista que Verissimo se tornaria.
Mas é nas charges que se vê o coração da exposição. Os originais revelam seu processo criativo sofisticado: Verissimo usava técnicas modernas para a época, sobrepondo papéis transparentes à folha original e criando camadas separadas para coloração. Seus personagens mais memoráveis ganham presença física aqui. As Cobras, suas criações mais marcantes, ocupam uma grande escultura. O Analista de Bagé, aquele bronco que oferecia análise psicológica com sotaque gaúcho, convida os visitantes a deitar-se em seu divã. O detetive Ed Mort e a Família Brasil aparecem em desenhos e charges. O próprio Verissimo está ali como um boneco inspirado em suas caricaturas — uma presença que atravessa a mostra.
A exposição também traz vozes que o conheceram e foram marcadas por seu trabalho. Vídeos exibem depoimentos do próprio escritor e de artistas como Fernanda Torres, Claudia Abreu, Chico Buarque e Milton Hatoum, que falam sobre sua influência e seu lugar na cultura brasileira. Esses testemunhos adicionam camadas de significado aos objetos expostos, transformando a mostra em um diálogo entre gerações.
O Centro Cultural Fiesp funciona de terça a domingo, das 10h às 20h. A entrada é gratuita. Até 28 de fevereiro, qualquer pessoa que queira compreender como um gaúcho filho de escritor se tornou um dos grandes nomes do humor brasileiro — através de palavras, desenhos, personagens que viraram parte da memória coletiva — tem a oportunidade de caminhar por essa trajetória montada com cuidado e afeto.
Citações Notáveis
Traçar um caminho biográfico que jogue luz nos grandes amores de Verissimo e na capacidade dele se expressar em tantas linguagens— Isa Pessoa, curadora da exposição