Setenta por cento dos pais ainda veem os filhos com contas ativas
Keir Starmer justifica a proibição argumentando que as redes sociais prejudicam a saúde mental das crianças, facilitam bullying e são desenhadas para serem viciantes. A Austrália implementou medida semelhante em dezembro de 2025, mas 70% dos pais relatam que os filhos ainda têm contas ativas, mostrando dificuldades na aplicação.
- Keir Starmer anunciou proibição de redes sociais para menores de 16 anos, com implementação prevista para primavera de 2027
- Austrália implementou medida semelhante em dezembro de 2025, mas 70% dos pais relatam que filhos ainda têm contas ativas
- Inquérito britânico reuniu 116 mil respostas; nove em cada dez pais apoiam o bloqueio
- Proposta entra no Parlamento britânico antes do Natal de 2026
O Reino Unido anunciou planos para proibir redes sociais como TikTok, Instagram e Facebook para menores de 16 anos a partir da primavera de 2027, inspirando-se na Austrália onde a medida teve eficácia limitada.
Keir Starmer entrou numa sala e disse algo que muitos pais britânicos queriam ouvir há anos: as redes sociais vão ser proibidas para menores de 16 anos. O primeiro-ministro britânico anunciou a medida numa segunda-feira, enquadrando-a como uma tentativa de "devolver a infância às crianças". Na sua fala, Starmer foi direto: as plataformas estão a tornar os jovens infelizes, facilitam o assédio e o abuso, foram desenhadas para viciar, e impedem as crianças de fazer trabalhos de casa, ler ou brincar com amigos. "Para ser honesto, tenho pena desta geração", disse o primeiro-ministro, que é pai de dois filhos.
O bloqueio vai abranger plataformas como TikTok, Instagram, Facebook, YouTube, Snapchat e X — basicamente, qualquer serviço que permita interação social e publicação de conteúdo com algoritmos. Mensagens privadas como WhatsApp e Signal ficarão de fora. Mas a proibição vai mais longe: o governo britânico quer impedir livestreaming para menores de 16 anos e bloquear contactos de estranhos com crianças. Há também planos para estabelecer uma idade mínima de 18 anos para usar chatbots românticos — aqueles aplicativos desenhados para simular relações amorosas ou sexuais. Para os 17 anos, haverá restrições em plataformas de livestreaming e gaming. Menores de 18 anos podem enfrentar pausas obrigatórias no scrolling infinito e recolheres digitais, embora os detalhes só apareçam em julho.
O governo britânico não está sozinho nisto. A Austrália tornou-se o primeiro país a implementar uma proibição semelhante em dezembro de 2025, e o Reino Unido está a seguir o seu exemplo — embora com cautela. Na Austrália, 4,7 milhões de contas desapareceram até meados de janeiro de 2026. Mas aqui está o problema: 70% dos pais australianos inquiridos afirmaram que os seus filhos ainda tinham contas ativas nas redes sociais. A avaliação oficial revelou que as plataformas contactaram menores para lhes permitir atualizar erradamente a idade, que o reconhecimento facial produziu resultados incorretos, e que crianças conseguem criar contas simplesmente mentindo na data de nascimento. As ferramentas para denunciar contas irregulares mostraram-se insuficientes. Nenhuma multa foi aplicada ainda, mas TikTok, Snapchat, Facebook, Instagram e YouTube estão sob investigação.
O Reino Unido está a tentar aprender com estes tropeços. A Ofcom, a autoridade reguladora britânica, foi instruída para estudar os métodos mais eficazes de verificação de idade. Atualmente, o país usa reconhecimento facial, verificação de documentos de identificação com fotografia, e cartões de crédito para confirmar maioridade em sites de pornografia e conteúdo sobre suicídio ou automutilação. Estes mesmos métodos serão aplicados às redes sociais. Mas há críticas: associações de direitos civis alertam que partilhar dados biométricos ou de identificação pode comprometer a privacidade e segurança. As VPN também podem contornar os bloqueios.
O cronograma é claro. Em julho, o governo britânico publicará resultados de um inquérito que reuniu 116 mil respostas entre março e maio de 2026 — de pais, peritos e crianças. Nove em cada dez pais apoiam o bloqueio, segundo a nota oficial. Antes do Natal, a proposta entra no Parlamento. A implementação está marcada para a primavera de 2027. As empresas de redes sociais já reagiram. O YouTube argumenta que uma proibição total afasta as crianças de "experiências organizadas, supervisionadas e benéficas" em direção a serviços anónimos e menos seguros. A Meta, dona do Facebook e Instagram, invoca o exemplo australiano, alertando que as proibições podem isolar adolescentes e empurrá-los para plataformas desreguladas sem proteções. O Snapchat diz que a maioria do tempo dos jovens na app é gasta em mensagens privadas com amigos e família, e que uma proibição geral pode simplesmente empurrá-los para lugares mais perigosos.
Portugal também está nesta conversa. Em fevereiro, o Parlamento aprovou na generalidade a limitação do acesso às redes sociais para menores de 16 anos. A proposta do PSD — apoiada também pelo PS, PAN e JPP — prevê que jovens entre 13 e 16 anos precisem de autorização parental, com verificação de idade através da Chave Móvel Digital. O projeto desceu à Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, onde 27 pareceres foram já solicitados. O que acontece a seguir dependerá de como o Reino Unido conseguir implementar a sua versão — e se a Austrália conseguir resolver os seus problemas de aplicação.
Notable Quotes
As redes sociais estão a fazer as crianças infelizes. Para ser honesto, tenho pena desta geração.— Keir Starmer, primeiro-ministro britânico
Uma proibição total afasta as crianças de experiências organizadas, supervisionadas e benéficas em direção a serviços anónimos e menos seguros.— Porta-voz do YouTube
The Hearth Conversation Another angle on the story
Porque é que o Reino Unido olha para a Austrália se a experiência australiana está a falhar?
Porque falhar de forma visível é ainda melhor do que não tentar. O Reino Unido vê o que correu mal — as VPN, as mentiras sobre datas de nascimento, os contactos de estranhos — e está a desenhar proteções diferentes. Mas é um risco calculado.
Os pais britânicos apoiam isto, mas e as crianças? Ninguém as perguntou?
O inquérito incluiu respostas de crianças, mas a verdade é que a voz delas é mais fraca. Os pais veem risco; as crianças veem comunidade. Essa tensão não desaparece com legislação.
As empresas dizem que isto vai empurrar as crianças para plataformas piores. Têm razão?
Provavelmente têm razão em parte. Mas também têm interesse em manter as crianças nas suas plataformas. O que é verdade é que ninguém sabe ainda como vai funcionar na prática.
Então por que é que o Reino Unido está a fazer isto se a Austrália mostrou que é difícil?
Porque a pressão política é real. Os pais estão assustados. Os médicos dizem que isto é tão prejudicial como tabaco. E há uma sensação de que algo tem de ser feito, mesmo que o algo seja imperfeito.
E se as crianças simplesmente usarem VPN?
Aí entra a questão que ninguém quer responder: quanto controlo é aceitável? Porque para bloquear VPN, precisas de vigilância muito mais profunda. E isso toca em direitos que as pessoas valorizam.
Portugal está a fazer o mesmo. Isto vai ser global?
Parece que sim. Uma vez que um país grande faz isto, outros seguem. É como um efeito dominó. Mas cada país vai descobrir os seus próprios problemas quando implementar.