Mais instituições acessam a garantia, concorrência sobe, taxa cai
No Brasil, onde o crédito para empresas menores sempre carregou o peso da desconfiança e da opacidade, o Banco Central aposta que a digitalização das duplicatas mercantis pode reescrever essa relação. Gilneu Vivan, diretor de Regulação da instituição, acredita que o mercado adotará voluntariamente esse novo instrumento antes mesmo da obrigatoriedade prevista para junho de 2028. A promessa é antiga — reduzir fraudes, ampliar a concorrência e baixar o custo do crédito —, mas desta vez o caminho passa por transformar um papel em código.
- Duplicatas em papel são vulneráveis a fraudes e circulam em sistemas fragmentados, criando assimetrias que encarecem o crédito especialmente para pequenas e médias empresas.
- O Banco Central propõe um ecossistema digital unificado que tornaria esses títulos rastreáveis e acessíveis a bancos e fintechs simultaneamente, aumentando a disputa pelo cliente.
- A obrigatoriedade só chega em junho de 2028, mas o diretor Gilneu Vivan aposta que a adoção voluntária consolidará o sistema antes do prazo legal.
- O maior risco está na transição: instituições menores e empresas com baixa maturidade tecnológica podem enfrentar custos iniciais significativos de infraestrutura e integração.
- Se os desafios práticos forem superados nos próximos dois anos, o modelo promete reduzir as margens de risco embutidas nas taxas e democratizar o acesso ao crédito comercial.
Gilneu Vivan, diretor de Regulação do Banco Central, acredita que as duplicatas escriturais já estarão amplamente em uso no mercado de crédito comercial brasileiro antes de se tornarem obrigatórias em junho de 2028. A expectativa é que a adoção voluntária antecipe o prazo legal.
As duplicatas mercantis são documentos que comprovam transações comerciais a crédito e servem de garantia quando empresas buscam empréstimos. Hoje existem principalmente em papel ou em sistemas dispersos. A proposta do BC é criar um ecossistema digital unificado para esses títulos, apoiado em três apostas: redução de fraudes, maior concorrência entre bancos e fintechs e, consequentemente, queda no custo do crédito.
O benefício mais direto deve chegar às pequenas e médias empresas. Com duplicatas digitais e rastreáveis, a assimetria de informação diminui, mais instituições conseguem avaliar o risco com precisão e as taxas tendem a cair. O cronograma até 2028 reconhece que mudanças estruturais no crédito exigem tempo para construção, testes e adaptação.
O que permanece incerto é como instituições financeiras menores e empresas com menor maturidade tecnológica responderão à transição. A digitalização de um instrumento tão fundamental exige investimentos em infraestrutura e integração de sistemas — uma oportunidade para alguns, um custo inicial relevante para outros. O êxito da iniciativa dependerá de como esses desafios práticos forem enfrentados nos próximos dois anos.
Gilneu Vivan, diretor de Regulação do Banco Central, acredita que as duplicatas escriturais — versões digitais dos títulos que comprovam vendas a prazo — já estarão funcionando amplamente no mercado de crédito comercial brasileiro antes mesmo de se tornarem obrigatórias. A data legal para essa obrigatoriedade está marcada para junho de 2028, mas Vivan espera que a adoção voluntária antecipe esse prazo.
O que está em jogo é a transformação de um instrumento financeiro tradicional. As duplicatas mercantis são documentos que atestam transações comerciais a crédito e servem como garantia quando empresas precisam tomar empréstimos. Hoje, elas existem principalmente em papel ou em sistemas fragmentados. A proposta do Banco Central é criar um ecossistema digital unificado para esses títulos.
A aposta da autoridade monetária repousa em três pilares. Primeiro, a digitalização deve reduzir fraudes — documentos em papel são mais fáceis de falsificar ou duplicar indevidamente. Segundo, um sistema centralizado e transparente permitirá que mais instituições financeiras acessem essas duplicatas como garantia, aumentando a concorrência entre bancos e fintechs. Terceiro, essa concorrência deve pressionar os custos do crédito para baixo.
O benefício mais direto recairá sobre pequenas e médias empresas. Hoje, essas companhias frequentemente enfrentam taxas de juros mais altas porque os bancos as veem como clientes de maior risco e porque o acesso a informações sobre suas operações é limitado. Com duplicatas digitais e rastreáveis, a assimetria de informação diminui. Mais instituições podem avaliar o risco com maior precisão, o que tende a reduzir as margens de segurança embutidas nas taxas.
O cronograma previsto pelo BC reconhece que mudanças estruturais no mercado de crédito não acontecem da noite para o dia. A obrigatoriedade em 2028 dá tempo para que o sistema seja construído, testado e adotado voluntariamente por empresas e instituições financeiras dispostas a se antecipar. Vivan, ao falar sobre suas expectativas, sinaliza confiança de que esse processo de adoção voluntária será suficiente para consolidar o ecossistema antes do prazo legal.
O que permanece em aberto é como as instituições financeiras menores e as empresas menos sofisticadas tecnologicamente responderão à transição. A digitalização de um instrumento de crédito tão fundamental exige investimentos em infraestrutura, treinamento e integração de sistemas. Para alguns atores do mercado, isso pode representar uma oportunidade; para outros, um custo inicial significativo. O sucesso da iniciativa dependerá de como esses desafios práticos forem resolvidos nos próximos dois anos.
Notable Quotes
A digitalização das duplicatas mercantis reduzirá fraudes, ampliará a concorrência entre instituições financeiras e diminuirá o custo do crédito— Gilneu Vivan, diretor de Regulação do Banco Central
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que o Banco Central acredita que a adoção voluntária vai acontecer antes de 2028, se a obrigatoriedade só chega nessa data?
Porque há incentivos reais. Um banco que adota cedo ganha acesso a um fluxo maior de duplicatas como garantia, o que significa mais crédito para empresar. Uma empresa que digitaliza suas duplicatas consegue taxas melhores. Esses ganhos imediatos puxam o mercado para frente.
E as pequenas empresas — como elas saem ganhando nisso tudo?
Hoje, um pequeno empresário que precisa de crédito bate na porta de um banco grande, que cobra caro porque não conhece bem o negócio. Com duplicatas digitais, qualquer instituição consegue ver o histórico de vendas, o padrão de pagamento. Reduz o risco percebido, reduz a taxa.
Mas não há risco de que a transição seja caótica? Nem toda empresa tem infraestrutura digital robusta.
Há, sim. Por isso a obrigatoriedade só chega em 2028. Dá tempo para que os sistemas sejam construídos, para que as instituições menores se preparem. Mas é verdade que alguns atores vão sofrer mais na transição do que outros.
O que muda na prática para um empresário que vende a prazo?
Ele não precisa mais guardar papéis, não precisa se preocupar com falsificação. Quando vende, a duplicata é registrada digitalmente. Quando precisa de crédito, ele mostra esse registro. É mais rápido, mais seguro, mais barato.
E se a duplicata digital não decolar? Se as empresas continuarem preferindo o papel?
Aí a obrigatoriedade em 2028 força a transição. Mas Vivan está apostando que não vai chegar a isso — que o mercado vai se convencer sozinho dos benefícios antes do prazo.