Exclusivo: como o Estado Islâmico recrutava adolescentes brasileiros pela internet

Pelo menos quatro adolescentes foram cooptados e radicalizados, com dois em avançado estágio de radicalização e planejamento de ataques terroristas.
Talvez foi a única vez na vida que ele se sentiu importante
Advogado de Fábio Samuel reflete sobre como o Estado Islâmico explorou a vulnerabilidade emocional do jovem.

Fábio Samuel da Costa Oliveira, condenado a 7 anos, usava grupos no Telegram para radicalizar menores de idade em cidades do interior do Rio e São Paulo. Mensagens interceptadas mostram planejamento de atentados contra consulado israelense e representações dos EUA, além de instruções para fabricação de bombas caseiras.

  • Fábio Samuel da Costa Oliveira, 20 anos, condenado a 7 anos de prisão por terrorismo e corrupção de menores
  • Recrutou pelo menos 4 adolescentes entre 2022 e 2023 em cidades do interior do Rio e São Paulo
  • Mensagens no Telegram revelavam planos de atentados contra consulado israelense e representações dos EUA
  • Preso no Aeroporto de Guarulhos em 11 de junho do ano passado tentando viajar para a África
  • 67% dos militantes do ISIS na Síria e Iraque entre 2012-2015 tinham entre 14 e 25 anos

Investigação da Polícia Federal revela como jovem brasileiro recrutava adolescentes para o Estado Islâmico pela internet, com planos de ataques terroristas no país.

Em junho do ano passado, agentes da Polícia Federal prenderam um jovem de 19 anos no Aeroporto de Guarulhos quando tentava embarcar para a África. Fábio Samuel da Costa Oliveira, conhecido nas redes pelo codinome Mahmoud al-Brazili, estava em uma missão que o levaria a se juntar aos combatentes do Estado Islâmico. O que os investigadores descobriram nos meses seguintes revelaria uma operação de recrutamento sofisticada: entre 2022 e 2023, Fábio Samuel havia cooptado pelo menos quatro adolescentes de cidades do interior do Rio de Janeiro e São Paulo, dois deles em estágios avançados de radicalização.

A investigação começou de forma inesperada. Em 2022, o serviço de inteligência marroquino interceptou uma conversa de Fábio Samuel sobre um possível atentado a uma Igreja Católica em Barbacena, Minas Gerais, a cidade onde ele morava com a avó. A embaixada brasileira em Rabat repassou o alerta para a Divisão de Enfrentamento ao Terrorismo da PF no mesmo dia. Semanas depois, o FBI entrou em contato com os investigadores brasileiros com informações ainda mais preocupantes: um vídeo armazenado em um serviço criptografado mostrava Fábio Samuel de capuz e rosto coberto, respondendo a um questionário do grupo terrorista em inglês. Na gravação, ele declarava ter apoiadores para os quais explicava por que o califado era verdade, mencionava suas traduções de documentos da organização e se oferecia como recrutador para falantes de português de Brasil, Cabo Verde, Angola e Moçambique.

Os documentos da investigação federal, aos quais o Metrópoles teve acesso exclusivo, revelam a mecânica precisa da radicalização. Fábio Samuel selecionava adolescentes em grupos amplos de estudo do Alcorão no Telegram e depois os convidava para grupos mais reservados, batizados com nomes inocentes como "Clube do Xadrez" ou "Estudos de Geopolítica". Dentro desses espaços, a conversa evoluía para planejamento de ataques terroristas em solo brasileiro. Um dos adolescentes cooptados escreveu para Fábio Samuel em março de 2022: "Meu sonho era explodir o consulado israelense aqui. O foda é que não tem uma base sólida de salafis brasileiros. Então não ia servir de nada. Colocar uma mochila com uns 10kg de explosivo no portão". Dias depois, Fábio Samuel enviou um documento com instruções detalhadas para fabricação de bombas. As mensagens interceptadas também mostram discussões sobre ataques contra representações dos Estados Unidos no Brasil, vídeos com violência extrema e discursos fundamentalistas religiosos.

A situação escalou quando Fábio Samuel foi preso. No momento da detenção, ele pediu para fazer uma ligação e entrou em contato com um dos adolescentes que havia orientado para cometer um ataque terrorista contra uma representação americana caso ele fosse barrado na imigração. Os investigadores acreditam que a intenção era colocar o plano em prática. Fábio Samuel foi condenado a sete anos de prisão por terrorismo e corrupção de menores em maio deste ano. Sua defesa alega que ele possui deficiência mental e pretende entrar com um pedido de revisão criminal.

O recrutamento de menores não é uma estratégia exclusiva do Estado Islâmico no Brasil. Um estudo do sociólogo franco-iraniano Farhad Khosrokhavar calculou que 67% dos militantes que se juntaram ao ISIS na Síria e no Iraque entre 2012 e 2015 tinham entre 14 e 25 anos. Carlos Frederico Felício Fagundes, doutor em Educação e especialista em inteligência que investiga a "pedagogia da cooptação" por organizações criminosas, explica que o Estado Islâmico busca a perpetuação do califado através do recrutamento de crianças e adolescentes porque enxerga neles facilidades de atração e futuros combatentes, especialmente em idades sem maturidade emocional e identidade ainda não formada.

Os pais dos adolescentes cooptados não sabiam o que estava acontecendo. Todos possuíam facilidade notável em aprender novas línguas, mas pelo menos dois apresentaram queda no desempenho escolar. Um deles foi expulso da escola por levar uma faca para a sala de aula, exatamente na época em que passava pelo processo de radicalização no Telegram. A história de Fábio Samuel oferece pistas sobre como jovens vulneráveis se tornam alvos. Na cidade de Barbacena, era visto como alguém "estranho". Havia sido coroinha na Igreja Católica até se converter ao islamismo quando começou a trabalhar em um curtume de abate halal. Seu advogado, Greg Andrade, o descreve como alguém com hiperfoco e inteligência excepcional, mas sem apoio necessário do Estado. "O sonho dele é fazer medicina. Os integrantes do Estado Islâmico entraram na mente dele e falaram que lá ele teria condições de estudar e ter várias esposas. Ele ficou muito envolvido, se sentindo muito importante. Talvez foi a única vez na vida que ele se sentiu importante", avalia o advogado.

A avó de Fábio Samuel, Naide da Costa, de 61 anos, considera a condenação injusta e vê o neto como vítima de cooptação. "Tem que sempre verificar o que os filhos fazem e aconselhar, porque por mais que a pessoa seja boa, sempre tem predadores nas redes sociais", diz. A investigação da PF sobre o ISIS no Brasil integra um conceito mais amplo: o Extremismo Violento Ideologicamente Motivado, que também abrange casos de atentados com motivação neonazista e subculturas de ódio na internet. O caso de Fábio Samuel e seus recrutados permanece como um alerta sobre como plataformas digitais se tornaram campos de batalha para organizações terroristas que buscam radicalizar a juventude brasileira.

Meu sonho era explodir o consulado israelense aqui. O foda é que não tem uma base sólida de salafis brasileiros.
— Um dos adolescentes cooptados, em mensagem para Fábio Samuel em março de 2022
O Estado Islâmico se volta para o recrutamento de crianças e adolescentes porque enxerga neles facilidades de atraí-los e futuros novos combatentes, principalmente em idades sem maturidade emocional.
— Carlos Frederico Felício Fagundes, doutor em Educação e especialista em inteligência
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que o Estado Islâmico se concentra especificamente em adolescentes e jovens?

Model

Porque nessa idade a identidade ainda está se formando e há menos maturidade emocional para questionar narrativas. O grupo vê neles combatentes futuros e pessoas mais fáceis de atrair com promessas de importância, propósito, até coisas simples como reconhecimento.

Inventor

Como Fábio Samuel conseguiu ganhar a confiança desses adolescentes?

Model

Ele começava em grupos públicos de estudo do Alcorão, depois convidava para grupos privados com nomes inofensivos. Era um processo gradual de normalização. E ele falava a língua deles — era jovem, inteligente, aprendeu árabe e inglês sozinho.

Inventor

Os pais realmente não perceberam nada?

Model

Alguns sinais havia. Queda nas notas, comportamentos estranhos. Um adolescente foi expulso por levar uma faca para a escola. Mas tudo acontecia dentro de aplicativos criptografados, em grupos que pareciam inofensivos. Os pais não sabiam o que procurar.

Inventor

O que torna Fábio Samuel diferente de um adolescente radicalizado?

Model

Ele era o recrutador, o que o torna mais perigoso. Mas também era vulnerável — inteligente demais para seu contexto, sem apoio adequado, buscando pertencimento. O Estado Islâmico ofereceu exatamente isso.

Inventor

Qual era o objetivo final desses ataques planejados?

Model

Criar terror, demonstrar força, atrair mais recrutados. Os adolescentes falavam em explodir o consulado israelense, representações dos EUA. Fábio Samuel até orientou dois deles para atacar caso ele fosse preso tentando sair do país.

Inventor

Como a inteligência internacional descobriu tudo isso?

Model

Começou com Marrocos interceptando uma conversa sobre um atentado em Barbacena. Depois o FBI entrou com informações sobre um vídeo. A PF conectou os pontos e descobriu toda a rede de recrutamento no Telegram.

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