Ex-secretário de Zema é sócio de gigante de energia solar espanhola

Secretário de governo com poder para influenciar os negócios da empresa da qual era sócio
Advogado especialista identifica potencial crime de corrupção na estrutura societária envolvendo Marcelo Aro.
Mark

Por que exatamente essas pequenas usinas de geração distribuída são tão mais lucrativas que o mercado livre?

Mimi

Porque conseguem vender energia a preços muito mais altos. Em agosto, enquanto o mercado livre pagava R$ 140 por megawatt, essas usinas pequenas alcançavam R$ 550. É uma diferença enorme, e essas usinas são muito disputadas por isso.

Mark

E qual é a conexão entre Marcelo Aro, a Solatio e essa usina em Sete Lagoas?

Mimi

Aro controlava a M&G Imóveis, que tinha 50% das cotas da usina. A Solatio tinha os outros 50%. Ele entrou como sócio no mesmo mês em que virou secretário da Casa Civil — um cargo com poder sobre decisões de energia no estado.

Mark

Isso é automaticamente ilegal?

Mimi

Não automaticamente, mas um advogado especialista em Direito Público vê potencial crime de corrupção ativa e improbidade administrativa. O problema é que ele estava em exercício de funções públicas com poder para influenciar os negócios da empresa da qual era sócio.

Mark

E Iran Barbosa? Qual era seu papel?

Mimi

Ele era sócio inicial da usina, mas saiu em dezembro de 2023. Semanas depois, em janeiro de 2024, assumiu a Diretoria Comercial da Cemig SIM — a companhia estatal de energia. Ele nega qualquer irregularidade e diz que saiu da usina justamente porque a Cemig não permitia investimento em empresas do setor.

Mark

Parece uma coincidência suspeita.

Mimi

É o que a reportagem está investigando. Os números também chamam atenção: a Solatio prometeu R$ 21 bilhões em investimentos e conseguiu instalar apenas 3,5 GWp de 6 GWp prometidos. E essas usinas pequenas, que geram mais lucro, são exatamente o tipo de negócio que a Solatio estava desenvolvendo.

  • Um secretário de governo em pleno exercício tornou-se sócio de uma usina solar no mesmo mês em que assumiu o cargo, criando uma zona de conflito entre poder público e interesse privado.
  • A empresa parceira, a espanhola Solatio, prometeu R$ 21 bilhões em investimentos a Minas Gerais e opera em um segmento onde a energia é vendida a quase quatro vezes o preço do mercado livre — tornando a parceria especialmente valiosa.
  • Um terceiro sócio inicial da usina, Iran Barbosa, saiu da sociedade semanas antes de assumir a Diretoria Comercial da Cemig, a estatal mineira de energia, alimentando suspeitas sobre a circulação de pessoas entre negócios privados e cargos estratégicos.
  • Especialista em Direito Público aponta que a constituição da empresa nessas circunstâncias pode configurar corrupção ativa para o sócio estrangeiro e improbidade administrativa para o ex-secretário.
  • Marcelo Aro não respondeu aos contatos da reportagem; Iran Barbosa negou irregularidades e afirmou ter saído da sociedade justamente por exigência das regras da Cemig SIM.

Enquanto exercia o cargo de secretário da Casa Civil do governo de Minas Gerais, Marcelo Aro figurava como sócio de uma usina solar ligada à gigante espanhola Solatio — empresa com bilhões prometidos ao estado e energia vendida a preços muito acima do mercado. A sobreposição entre poder público e interesse privado, agravada pela trajetória de outros atores que transitaram entre a sociedade empresarial e cargos na estatal Cemig, coloca em evidência uma questão antiga e persistente: onde termina a gestão e onde começa o benefício próprio.

Em abril de 2023, no mesmo mês em que Marcelo Aro assumiu a secretaria da Casa Civil do governo mineiro, registros da Receita Federal indicam que ele passou a figurar como sócio de uma usina solar. A empresa, Sete Lagoas GD Geração de Energia Solar Ltda., era uma joint venture entre sua imobiliária, a M&G Imóveis, e a Solatio GD Energia Ltda., braço operacional da gigante espanhola Solatio Multinational.

A sociedade nasceu com um terceiro participante: a Terraforma Consultoria e Gestão Ltda., representada por Iran Almeida Barbosa. Em dezembro de 2023, a Terraforma saiu da sociedade, transferindo suas cotas para a Solatio. Semanas depois, Iran Barbosa assumiu a Diretoria Comercial da Cemig SIM — a estatal mineira de energia —, cargo que ocupou até novembro de 2024.

A Solatio chegou a Minas Gerais em 2019 com promessas de R$ 21 bilhões em investimentos e capacidade instalada de 6 GWp. O segmento de geração distribuída, no qual a usina de Sete Lagoas opera, é especialmente lucrativo: enquanto a energia no mercado livre era comprada a R$ 140 por megawatt, a geração distribuída alcançava R$ 550 — quase quatro vezes mais.

O advogado Lucas Neves, professor de Direito Público, avalia que a constituição de uma empresa com um secretário em exercício — com poder de influenciar os negócios envolvidos — pode configurar corrupção ativa para o presidente da Solatio e improbidade administrativa para Aro. Iran Barbosa, por sua vez, negou qualquer irregularidade, afirmou não ter relação com a Solatio nem com empresas investigadas pela Polícia Federal, e disse ter saído da sociedade justamente porque a Cemig SIM vedava investimentos no setor de energia. Marcelo Aro não retornou aos contatos da reportagem.

Em abril de 2023, quando Marcelo Aro assumiu a secretaria da Casa Civil do governo mineiro, ele já era controlador de uma empresa imobiliária. Naquele mesmo mês, registros da Receita Federal mostram que Aro passou a figurar como sócio de uma usina solar. A empresa em questão, Sete Lagoas GD Geração de Energia Solar Ltda., era uma joint venture: sua companhia, a M&G Imóveis, detinha 50% das cotas, enquanto a outra metade pertencia à Solatio GD Energia Ltda., braço operacional da gigante espanhola Solatio Multinational, administrada pelo sócio-fundador Pedro Vaquer Brunet.

A estrutura societária revela um terceiro ator inicial. Quando a Sete Lagoas GD foi constituída, um terceiro sócio entrou na sociedade: a Terraforma Consultoria e Gestão Ltda., representada por Iran Almeida Barbosa. Essa configuração durou pouco. Em 22 de dezembro de 2023, a Terraforma saiu da sociedade, transferindo suas 25% de cotas para a Solatio, consolidando o controle da empresa espanhola sobre o empreendimento.

O timing é relevante porque Iran Barbosa, semanas depois de sair da sociedade com a usina solar, assumiu a Diretoria Comercial da Cemig SIM em 1º de janeiro de 2024. Permaneceu no cargo até novembro do mesmo ano, quando foi substituído por Rubens Soalheiro. Soalheiro, por sua vez, foi demitido em agosto de 2026. A Cemig é a companhia estatal de energia de Minas Gerais, responsável por decisões críticas sobre compra e venda de energia no estado.

A Solatio chegou a Minas Gerais em 2019 com promessas ambiciosas: investimentos de R$ 21 bilhões para instalar uma planta com capacidade de 6 GWp, o equivalente a cerca de dez mil campos de futebol cobertos por painéis solares. Até agora, conseguiu instalar 3,5 GWp. Parte desse potencial foi reservada para pequenas usinas de geração distribuída, de até 5 MWp. Essas usinas menores são particularmente valiosas porque conseguem comercializar energia a preços muito superiores aos do mercado livre. Em agosto, quando a energia era comprada no mercado livre a R$ 140 por megawatt, a geração distribuída alcançava valores médios de R$ 550 por megawatt — quase quatro vezes mais.

O advogado Lucas Neves, professor de Direito Público, vê potencial crime na configuração. Segundo sua análise, o fato de uma empresa ter sido constituída com um secretário de governo em pleno exercício de suas funções públicas — alguém com poder para influenciar os negócios objeto da sociedade — pode configurar crime de corrupção ativa para o presidente da Solatio, cidadão espanhol. Para Marcelo Aro, ocupante da secretaria, podem ser atribuídos atos de improbidade administrativa e corrupção ativa.

Quando procurado pela reportagem, Iran Barbosa negou qualquer irregularidade durante sua gestão na Cemig SIM. Afirmou que não mantém relação societária ou comercial com a Solatio nem com a Green Investimentos, empresa que é alvo de investigações da Polícia Federal. Segundo ele, a diretoria comercial não participava do processo de compra de energia e, portanto, não mantinha contato com as empresas fornecedoras investigadas. Sua função, explicou, era fazer a relação com possíveis compradores da energia. Barbosa também negou que sua indicação para a Cemig SIM tivesse qualquer relação com Marcelo Aro, afirmando que passou por um processo de seleção interno e cumpriu todos os critérios técnicos exigidos. Ele explicou que deixou a sociedade com a Sete Lagoas GD justamente porque a Cemig SIM não permitia investimento em empresas do setor de energia.

A Solatio informou que produziria uma resposta completa sobre os questionamentos. Marcelo Aro não retornou aos contatos da reportagem até a publicação da matéria. O espaço segue aberto para suas considerações.

O fato de uma empresa ter sido constituída com um secretário de governo em pleno exercício de suas funções públicas, com poder para influenciar os negócios objeto da sociedade, pode configurar crime de corrupção ativa
— Lucas Neves, advogado e professor de Direito Público
Negou qualquer irregularidade durante sua gestão na Cemig SIM e afirmou que não mantém relação societária ou comercial com a Solatio
— Iran Almeida Barbosa
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