No intervalo em que o Banco de Brasília buscava aprovação do Banco Central para absorver o Banco Master, seu então presidente Paulo Henrique Costa recebia, segundo a Polícia Federal, encomendas enviadas pelo motorista do banqueiro Daniel Vorcaro. O que circulava nessas sacolas e envelopes — criptomoedas gravadas em pen drives, dinheiro em espécie, promessas de imóveis — é agora o núcleo de uma investigação sobre corrupção e lavagem de dinheiro que coloca em xeque a fronteira entre negociação legítima e captura institucional. A linguagem do vinho e das reuniões com Sidney revela como o poder fi
Ex-presidente do BRB recebeu ao menos cinco encomendas do motorista de Vorcaro
Muito obrigado pelo vinho! A safra é bem especial?
Por que essas entregas importam? Parecem apenas encomendas normais.
Porque aconteceram enquanto o BRB buscava aprovação do Banco Central para comprar outro banco. Se Vorcaro estava pagando propina a Costa, isso poderia ter influenciado decisões que beneficiavam Vorcaro.
Mas as mensagens não dizem o que estava nas encomendas. Vorcaro alega que eram criptomoedas e dinheiro, mas as mensagens só falam em "sacola", "vinho" e "encomenda".
Verdade. Mas ele também alega que usava "vinho" como código para propina. E a Polícia Federal extraiu essas mensagens — não é especulação.
E quanto às criptomoedas? Como alguém entrega R$ 50 milhões em pen drives sem deixar rastro?
Vorcaro diz que entregou pessoalmente duas vezes e enviou outros em envelopes por avião. Mas novamente, isso é o que ele alega na delação. As mensagens não mencionam criptomoedas.
O que importa agora é se a Polícia Federal consegue rastrear essas transferências. Os imóveis avaliados em R$ 146,5 milhões já foram suficientes para prender Costa.
Então Costa está preso?
Sim, com base nas mensagens sobre os imóveis. As entregas agora são parte de um quadro maior de investigação.
Mas ainda não sabemos se Costa sabia que estava recebendo propina ou se acreditava que eram presentes legítimos.
As mensagens em código não sugerem inocência.
Não, mas também não provam culpa. Código pode ser paranoia, pode ser hábito. A delação de Vorcaro é uma acusação, não prova.
El Pulso
- A Polícia Federal extraiu do celular de Costa mensagens que sincronizam, com precisão perturbadora, as entregas de encomendas com os momentos mais críticos da negociação entre BRB e Banco Master.
- Vorcaro afirma em delação que a palavra 'vinho' era código para propina, e que cerca de R$ 50 milhões em criptomoedas foram transportados em pen drives de aproximadamente R$ 5 milhões cada.
- Além das criptomoedas, a versão mais recente da delação inclui dinheiro em espécie e seis imóveis avaliados em R$ 146,5 milhões como parte do esquema — imóveis que serviram de base para a prisão de Costa.
- A investigação agora precisa determinar se as entregas configuram corrupção vinculada à aprovação regulatória da operação bancária e se os imóveis foram usados para lavar os valores pagos.
No intervalo em que o Banco de Brasília buscava aprovação do Banco Central para absorver o Banco Master, seu então presidente Paulo Henrique Costa recebia, segundo a Polícia Federal, encomendas enviadas pelo motorista do banqueiro Daniel Vorcaro. O que circulava nessas sacolas e envelopes — criptomoedas gravadas em pen drives, dinheiro em espécie, promessas de imóveis — é agora o núcleo de uma investigação sobre corrupção e lavagem de dinheiro que coloca em xeque a fronteira entre negociação legítima e captura institucional. A linguagem do vinho e das reuniões com Sidney revela como o poder financeiro, quando se sente ameaçado pela transparência, recorre ao eufemismo para sobreviver.
Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília, recebeu ao menos cinco encomendas entregues pelo motorista de Daniel Vorcaro entre fevereiro e julho de 2025 — período em que o BRB negociava a compra do Banco Master e aguardava aval do Banco Central. As mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular do banqueiro mostram uma coreografia discreta: sacolas retiradas em casas, envelopes transportados de avião, encontros descritos como "reunião com o Sidney".
A primeira entrega ocorreu em 7 de fevereiro, quando Vorcaro avisou o motorista que "Paulo está indo pegar sacola". Horas depois, Costa confirmou: "Estive com o Sidnei". Em março, um envelope chegou de um contato que havia desembarcado em Brasília, acompanhado da instrução de Vorcaro: "Vc vai pegar o vinho e levar mais tarde para a casa do paulo". Na manhã seguinte, Costa agradeceu: "Muito obrigado pelo vinho! A safra é bem especial? rs".
Em sua proposta de delação premiada, Vorcaro é direto: "vinho" era código para propina. Ele afirma ter pago a Costa cerca de R$ 50 milhões em criptomoedas gravadas em pen drives, entregues pessoalmente ou enviadas em envelopes via avião para o motorista Sidney em Brasília. A versão mais recente da delação acrescenta dinheiro em espécie, transportado pelo piloto José Alfredo Berg Filho.
Em julho de 2025, justamente quando o BRB corria para entregar documentos ao Banco Central exigidos para aprovar a compra do Master, Vorcaro pediu ao motorista que pegasse uma encomenda com Berg e a entregasse a Costa. Nos dias seguintes, Vorcaro perguntou três vezes se Costa havia ido "no Sidney". Costa respondia que não havia conseguido "se reunir" com o motorista — até que, numa manhã, o motorista confirmou: "Já entregue encomenda PH".
As mensagens não revelam o conteúdo exato das encomendas. Mas as trocas sobre seis imóveis avaliados em R$ 146,5 milhões — que Vorcaro diz serem parte da propina ainda não transferida — foram suficientes para embasar a prisão de Costa. A investigação agora examina se as entregas configuram corrupção vinculada à aprovação regulatória e se os imóveis serviram para lavar os valores pagos.
Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília, recebeu pelo menos cinco encomendas entregues pelo motorista de Daniel Vorcaro entre fevereiro e julho de 2025, segundo mensagens que a Polícia Federal extraiu do celular do banqueiro. As entregas ocorreram enquanto o BRB negociava a compra do Banco Master e buscava aprovação do Banco Central para a operação — um timing que agora está no centro de uma investigação sobre possível corrupção.
Nas conversas com Vorcaro, Costa se referia aos encontros com o motorista como "reunião com o Sidney", nome do funcionário que administrava a casa de Vorcaro no Lago Sul. A primeira entrega aconteceu em 7 de fevereiro de 2025, quando Vorcaro avisou o motorista que "Paulo está indo pegar sacola". Costa dirigiu-se à casa, e horas depois confirmou a Vorcaro: "Estive com o Sidnei". Duas semanas depois, em 14 de março, o motorista pediu o endereço de Costa para deixar uma encomenda. Uma semana depois disso, o funcionário buscou um envelope com um contato que havia desembarcado em Brasília, recebendo a instrução de Vorcaro: "Vc vai pegar o vinho e levar mais tarde para a casa do paulo". Na manhã seguinte, o motorista esperou Costa descer do prédio onde morava e confirmou a entrega. Costa agradeceu a Vorcaro: "Muito obrigado pelo vinho! A safra é bem especial? rs".
Em sua proposta de delação premiada apresentada à Polícia Federal, Vorcaro afirma que "vinho" era um código para propina. Ele alega ter pago a Costa aproximadamente R$ 50 milhões em criptomoedas, gravadas em pen drives com cerca de R$ 5 milhões cada. Segundo Vorcaro, entregou pessoalmente duas vezes e enviou outros pen drives em envelopes transportados por avião para Sidney, o motorista em Brasília. A versão mais recente da proposta de delação inclui um novo detalhe: Costa também teria recebido dinheiro em espécie, entregue pelo piloto José Alfredo Berg Filho ao motorista, que depois levava até o ex-presidente do BRB.
Em maio de 2025, enquanto o BRB e o Master negociavam com o Fundo Garantidor de Créditos, Vorcaro perguntou a Costa: "Você pode passar lá no Sidney amanhã?". Costa respondeu afirmativamente. Em julho, Vorcaro pediu ao motorista para "pegar encomenda com Berg e entregar pro Paulo Henrique". A encomenda chegou de São Paulo no avião de Vorcaro naquela noite, justamente quando o BRB corria para entregar ao Banco Central os documentos exigidos para aprovar a compra do Master. Nos dias seguintes, Vorcaro perguntou três vezes a Costa se ele tinha ido "no Sidney". Costa respondeu que ainda não tinha conseguido "se reunir" com o motorista, escrevendo: "Tentei marcar a reunião com o Sidney, mas não consegui. Cheguei a enviar uma mensagem para o endereço eletrônico hoje à tarde, mas ele não respondeu". Vorcaro disse estar preocupado com "esse tema". "Sidney", respondeu quando Costa perguntou qual deles. "Rsrs. Blz. Já cuido", escreveu o ex-presidente do BRB. Naquela mesma manhã, o motorista avisou: "Já entregue encomenda PH".
As mensagens não revelam o conteúdo específico da sacola, do envelope ou das encomendas. Vorcaro afirma ainda que o restante da propina seria pago em imóveis, que não chegaram a ser totalmente transferidos. As mensagens trocadas entre Costa e Vorcaro sobre seis imóveis avaliados em R$ 146,5 milhões serviram de base para a prisão do ex-presidente do BRB. A investigação agora examina se as entregas constituem corrupção relacionada à operação bancária e possível lavagem de dinheiro através desses imóveis.
Citas Notables
Paulo está indo pegar sacola— Daniel Vorcaro ao motorista Sidney, 7 de fevereiro de 2025
Vinho era um código para propina— Alegação de Daniel Vorcaro em proposta de delação premiada