Ex-ministro de Bolsonaro recebeu R$ 11 milhões do banco Master, aponta investigação

Servidores públicos e beneficiários do Auxílio Brasil foram endividados através de descontos indevidos em folha de pagamento, conforme relatório da CGU.
ministro-tampão escolhido para fazer trabalho sujo
Crítica do deputado Rogério Correia sobre a atuação de Bento no governo Bolsonaro durante as eleições de 2022.

Bento recebeu R$ 773,3 mil como pessoa física e R$ 6,2 milhões foram para Meta Consultoria, empresa da qual é sócio. Mettacard, onde Bento era administrador, recebeu R$ 2,98 milhões e oferecia cartão consignado a servidores públicos com suspeitas de fraude.

  • Ronaldo Vieira Bento recebeu R$ 11 milhões do banco Master após deixar o governo
  • R$ 773,3 mil foram pagos diretamente a Bento; R$ 6,2 milhões para Meta Consultoria, empresa sua
  • Banco Central liquidou Banco Pleno em fevereiro de 2026 por irregularidades
  • CGU identificou R$ 8,4 milhões em descontos indevidos do consignado do Auxílio Brasil
  • Requerimentos para investigar Bento no Congresso não avançaram

Ex-ministro Ronaldo Vieira Bento e empresas ligadas a ele receberam R$ 11 milhões do banco Master após atuação no consignado do Auxílio Brasil. Banco Central liquidou o Banco Pleno em fevereiro por irregularidades.

Ronaldo Vieira Bento saiu do governo Bolsonaro e entrou direto na iniciativa privada — especificamente, nos negócios do conglomerado bancário Master. Lá, ele assumiu posições de poder: diretor-presidente do Banco Pleno e administrador da Mettacard Administradora de Cartões, uma empresa que vendia cartões de benefícios consignados para servidores públicos, aposentados e pensionistas. Segundo investigação do Intercept, entre essas duas empresas e outras em que tinha participação, Bento e suas companhias receberam R$ 11 milhões do banco Master. O Banco Central, porém, determinou a liquidação extrajudicial do Banco Pleno em fevereiro de 2026, citando comprometimento financeiro, deterioração de liquidez, violação de normas e desobediência a decisões regulatórias. A medida incluiu o bloqueio de bens de Bento e de outros controladores e ex-administradores.

Dos R$ 11 milhões, R$ 773,3 mil foram pagos diretamente a Bento como pessoa física. O restante foi distribuído entre empresas onde ele tinha participação ou função administrativa. A maior fatia — R$ 6,2 milhões — foi para a Meta Consultoria em 2025, uma empresa que Bento fundou em junho de 2023 e da qual é sócio. A assessoria de Bento respondeu que todos os valores representam remuneração legítima pelo trabalho prestado ao banco, devidamente declarada ao fisco e compatível com os preços de mercado. "Não há qualquer irregularidade nas operações citadas", afirmou em nota.

A Mettacard, onde Bento atuou como administrador a partir de agosto de 2024, recebeu R$ 2,98 milhões do banco Master durante seu período no cargo. A empresa divulgava convênios com prefeituras e órgãos públicos para oferecer descontos em folha de pagamento ligados ao seu cartão consignado. Seu site listava acordos com sete municípios, além de instituições como o Instituto de Previdência do Município de São Gonçalo, a Macapá Previdência, o Tribunal de Contas do Estado do Paraná e o governo do Paraná. Bento renunciou ao cargo em 10 de dezembro de 2025, menos de um mês após a primeira fase da Operação Compliance Zero, quando Daniel Vorcaro foi preso no Aeroporto Internacional de São Paulo.

O governo do Paraná bloqueou novos descontos em folha dos cartões da Mettacard e da Credcesta em 24 de novembro de 2025, alegando necessidade de proteger servidores diante de suspeitas de fraude e descontos indevidos. O Sindiseab, sindicato de servidores do Paraná, relatou casos de endividamento associado ao produto. "Os cartões de benefícios foram oferecidos aos servidores há um tempo atrás, e muitos aderiram, principalmente os servidores que recebem os menores salários", escreveu o sindicato em nota publicada em dezembro.

Tudo isso remonta ao consignado do Auxílio Brasil, programa que Bento ajudou a criar e defender quando era ministro. A modalidade foi autorizada por medida provisória em março de 2022 e regulamentada após virar lei em agosto daquele ano. Em setembro de 2022, no programa "A Voz do Brasil", Bento defendeu a iniciativa como "mecanismo de superação da pobreza para população em situação de extrema pobreza ou de pobreza no nosso país". O deputado Rogério Correia (PT-MG) vê a história de forma diferente. Ele criticou Bento como um "ministro-tampão" escolhido para fazer um "trabalho sujo na véspera das eleições", colocando milhões à disposição de beneficiários do Bolsa Família para empréstimos consignados que endividavam as famílias e buscavam angariar votos para Bolsonaro.

Um relatório da Controladoria-Geral da União de agosto de 2023 identificou R$ 8,4 milhões em descontos indevidos ligados ao consignado do Auxílio Brasil. O documento analisou contratos firmados com a Caixa Econômica Federal entre novembro de 2022 e março de 2023 e registrou que 93% dos contratos foram fechados em outubro de 2022. Requerimentos para investigar Bento em comissões do Congresso — na CPMI do Instituto Nacional do Seguro Social e na CPI do Crime Organizado — não avançaram, e o ex-ministro nunca foi ouvido formalmente sobre o assunto.

A remuneração, devidamente declarada ao fisco, é compatível com os valores do mercado. Não há qualquer irregularidade nas operações citadas.
— Assessoria de Ronaldo Vieira Bento
Ronaldo Bento foi um ministro-tampão. Foi escolhido a dedo para fazer um trabalho sujo na véspera das eleições, que foi colocar milhões à disposição de quem era beneficiário do Bolsa Família para fazer empréstimo consignado, endividando essas famílias.
— Deputado Rogério Correia (PT-MG)
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que um ex-ministro sai do governo e vai direto para um banco que depois é liquidado por irregularidades?

Model

Porque a porta giratória entre governo e setor privado funciona assim. Bento criou o consignado do Auxílio Brasil como ministro, depois saiu e foi trabalhar para empresas que lucravam com esse mesmo programa.

Inventor

Mas R$ 11 milhões é muito dinheiro para um trabalho de consultoria.

Model

É. E a CGU já tinha encontrado R$ 8,4 milhões em descontos indevidos no programa que ele ajudou a criar. Os números não batem.

Inventor

Ele nega irregularidade. Como se prova que houve?

Model

Não é só a negação dele que importa. O Banco Central liquidou o Pleno por comprometimento financeiro e violação de normas. Servidores públicos foram endividados. Há investigações que não avançaram no Congresso.

Inventor

Por que não avançaram?

Model

Essa é a pergunta que fica. Os requerimentos existem, mas ninguém ouviu Bento formalmente. É como se o sistema tivesse perdido interesse.

Inventor

E agora? Ele continua livre?

Model

Por enquanto. Seus bens foram bloqueados pela liquidação do Banco Pleno, mas não há indicação de processo criminal. A investigação do Intercept expôs a história, mas o Congresso não a perseguiu.

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