Ex-gestor do BC admite reuniões na casa de Vorcaro sem registro em agenda oficial

Reuniões em casa, sem registro em agenda, entre regulador e regulado
Encontros entre Belline Santana e Daniel Vorcaro não constavam da documentação oficial do Banco Central.
Mark

Por que essas reuniões em casa são um problema? Não é comum executivos se encontrarem em locais informais?

Mimi

O ponto é que Belline Santana era o chefe de Supervisão Bancária do Banco Central — ele regulava o Banco Master. Encontros entre regulador e regulado em residências particulares, sem registro em agenda pública, quebram protocolos de transparência que existem justamente para evitar favorecimento.

Luke

Mas ele disse que reportou as reuniões à diretoria do BC. Alguém da diretoria confirmou isso?

Mimi

Não. Membros da instituição disseram desconhecer os encontros. E o BC recusou-se a comentar.

Mark

E quanto aos pagamentos de R$ 3,8 milhões? Isso foi confirmado?

Mimi

Sim. Uma investigação interna do BC concluiu que Santana simulou contratos para ocultar propina disfarçada de projeto social. O dinheiro veio de Leonardo Palhares, identificado pela PF como operador de Vorcaro.

Luke

Santana nega isso. Ele diz que o projeto era legítimo, de longo prazo, e que não recebeu tudo porque não havia regularidade mensal. Qual é a evidência de que foi propina?

Mimi

O relatório do BC concluiu que os contratos foram simulados. Mas você está certo — Santana contesta isso e diz que houve "desqualificação geral" do projeto no relatório.

Mark

Então ainda está em investigação?

Luke

Sim. A PF está apurando. Nada foi provado em tribunal ainda.

Mark

E a casa em Brasília que Vorcaro comprou por R$ 36,1 milhões? Qual é a relevância?

Mimi

Ela funcionava como escritório do Banco Master e como base para articulações políticas durante as negociações para vender o banco. Sugere que Vorcaro tinha recursos significativos e estava investindo em influência.

Luke

Mas comprar uma casa cara não é crime. O que importa é se houve quid pro quo — se Santana deu algo em troca dos pagamentos.

Mimi

Exatamente. E é isso que a investigação está tentando determinar.

  • Santana admitiu à Polícia Federal pelo menos cinco reuniões em residências de Vorcaro — encontros que jamais apareceram em sua agenda pública, apesar de ele insistir em seu caráter institucional.
  • Consultores familiarizados com as normas do serviço público afirmam que visitar a casa de um representante de instituição regulada para tratar de assuntos oficiais é, no mínimo, incomum e contrário aos protocolos esperados.
  • Uma investigação interna do BC concluiu que Santana simulou contratos para receber R$ 3,8 milhões em propina, disfarçada de aporte em projeto social voltado a jovens de comunidades periféricas.
  • Os pagamentos foram rastreados até Leonardo Palhares, identificado como operador de Vorcaro e sócio em uma holding que adquiriu uma das mansões mais caras de Brasília por R$ 36,1 milhões.
  • Santana nega favorecimento e alega desconhecer o vínculo entre Palhares e Vorcaro, mas o padrão de encontros informais, pagamentos milionários e ausência de registros mantém as autoridades em investigação ativa.

No cruzamento entre regulação financeira e conduta pública, emerge a figura de Belline Santana, ex-chefe de Supervisão Bancária do Banco Central, que admitiu encontros não registrados com o dono do Banco Master em residências particulares — encontros que, somados a R$ 3,8 milhões em pagamentos disfarçados de projeto social, colocam em xeque a independência de uma das instituições mais sensíveis da República. O caso não é apenas sobre um servidor investigado, mas sobre a fragilidade dos protocolos que separam o regulador do regulado, e sobre o que acontece quando essa fronteira se dissolve em salas de estar.

Belline Santana, que comandou a Supervisão Bancária do Banco Central, confirmou à Polícia Federal ter se reunido com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, pelo menos cinco vezes em endereços residenciais — três em São Paulo e duas em Brasília. Apesar de classificar os encontros como institucionais, nenhum deles consta de sua agenda pública. Em algumas visitas, Santana compareceu sozinho; em outras, levou Paulo Sérgio Neves de Souza, então diretor do BC. Santana afirmou ter reportado as reuniões à diretoria, mas membros da instituição disseram desconhecê-las.

Consultores familiarizados com as normas do serviço público afirmam, sob anonimato, que é incomum supervisores bancários visitarem residências de representantes de instituições reguladas para tratar de assuntos oficiais — e que tais compromissos deveriam constar explicitamente na agenda pública. Na documentação oficial de Santana, os registros com o Master se limitam a reuniões nas dependências do BC, na sede do banco ou por videoconferência.

Vorcaro confirmou os encontros em depoimento à PF, explicando que sua casa em Brasília funcionava também como escritório comercial, equipado com recepção e sala de reuniões. Paulo Sérgio corroborou a versão, mencionando inclusive que em uma das visitas havia banners do banco em razão de um evento do Ministério Público Federal realizado no dia anterior.

Por trás das reuniões, porém, há uma trama mais grave. Uma investigação interna do BC concluiu que Santana simulou contratos para ocultar o recebimento de R$ 3,8 milhões em propina, disfarçada de projeto social voltado a conectar jovens de periferias ao mercado financeiro. Os pagamentos foram rastreados até Leonardo Palhares, identificado como operador de Vorcaro e integrante de uma holding que adquiriu uma das mansões mais valorizadas de Brasília por R$ 36,1 milhões — imóvel usado por Vorcaro como base de articulações durante as negociações para vender o Master ao BRB.

Santana nega qualquer favorecimento e alega ter tomado conhecimento do vínculo entre Palhares e Vorcaro apenas por meio da sindicância patrimonial do BC. Afirma ainda ter consultado informalmente membros da Comissão de Ética da instituição, sem mencionar o valor recebido nem o nome de Vorcaro. O caso permanece sob investigação, expondo possíveis falhas nos protocolos de conduta do serviço público federal e questionando a independência da supervisão regulatória do Banco Central.

Belline Santana, que chefiou a Supervisão Bancária do Banco Central, admitiu à Polícia Federal ter se encontrado com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, pelo menos cinco vezes em residências particulares — três em São Paulo e duas em Brasília. Os encontros não constam da agenda pública de Santana, apesar de ele ter declarado que possuíam caráter institucional e eram dedicados a discutir estratégias regulatórias diante dos desafios econômicos que o banco enfrentava.

No depoimento de 25 de agosto, Santana não especificou as datas dos encontros, mencionando apenas que uma das visitas em Brasília ocorreu em 2024. Em algumas ocasiões compareceu sozinho; em outras, levou Paulo Sérgio Neves de Souza, que era diretor do BC e depois assumiu a posição de chefe-adjunto do departamento de Supervisão Bancária em 2023. Santana afirmou ter reportado as reuniões à diretoria do BC, mas membros da instituição disseram desconhecer tais compromissos. O próprio Banco Central recusou-se a comentar o assunto.

A ausência de registros oficiais levanta questões sobre protocolos de conduta. Consultores familiarizados com as regras que regem servidores públicos disseram, sob anonimato, que é incomum membros do BC visitarem residências de representantes de instituições reguladas para tratar de assuntos institucionais. Segundo eles, tais compromissos deveriam constar explicitamente na agenda pública dos funcionários. Na documentação oficial de Santana, aparecem reuniões nas dependências do BC, na sede do Banco Master em São Paulo ou por videoconferência. Apenas uma vez, em 15 de agosto de 2023, há registro de um encontro em São Paulo sem local específico.

Vorcaro, em seu depoimento à PF em 28 de agosto, confirmou ter se encontrado "poucas vezes" com Santana e Paulo Sérgio em seus endereços residenciais. Ele explicou que sua casa em Brasília funcionava também como escritório comercial do Master, equipado com recepção, secretária e sala de reuniões. Paulo Sérgio corroborou essa versão, afirmando que houve três ou quatro reuniões no local e que em uma delas havia banners do banco porque um evento do Ministério Público Federal havia ocorrido no dia anterior, com o Master cedendo o espaço. Vorcaro também mencionou ter recebido profissionais em sua casa em São Paulo durante 2024, quando o banco estava mudando de escritório.

Por trás dessas reuniões residenciais está uma trama mais ampla de pagamentos e possível favorecimento regulatório. Uma investigação interna do Banco Central concluiu que Santana simulou contratos para ocultar o recebimento de R$ 3,8 milhões em propina disfarçada de projeto social. O dinheiro foi transferido por meio da empresa Varajo Consultoria, supostamente para um projeto voltado a conectar jovens de comunidades periféricas ao mercado financeiro. A Polícia Federal identificou Leonardo Palhares como um dos operadores de Vorcaro e responsável pelos pagamentos. Palhares também era integrante da Super Empreendimentos, holding que adquiriu uma das mansões mais valorizadas de Brasília — comprada por R$ 36,1 milhões em 3 de junho de 2024 — que Vorcaro usava como base para articulações políticas e empresariais durante as negociações para vender o Banco Master ao BRB.

Santana negou qualquer favorecimento ao Master e argumentou que os pagamentos não representavam contraprestação por entrega de produto específico, mas sim um projeto de longo prazo. Ele afirmou não ter recebido a integralidade dos recursos do segundo contrato porque o processo não envolvia regularidade mensal. Em seu depoimento, Santana disse ter tomado conhecimento da relação entre Palhares e Vorcaro apenas através da sindicância patrimonial do BC. Ele alegou que Palhares se apresentava como ligado à Câmara-e.net, onde foi presidente, e que negou vínculo com entidade financeira ao fazer o aporte no projeto social. Santana afirmou ter consultado informalmente membros da Comissão de Ética do BC, mas não mencionou o valor que receberia nem o nome de Vorcaro.

O caso expõe possíveis falhas nos protocolos de conduta de servidores públicos federais e levanta questões sobre a independência da supervisão regulatória do Banco Central. A falta de registros oficiais de encontros entre um supervisor bancário e o dono de uma instituição sob sua supervisão, combinada com pagamentos posteriores de milhões de reais, sugere um padrão que as autoridades continuam investigando.

Pautas relativas sempre ao Banco Master, aos pontos que a supervisão estava apontando que precisavam ser modificados
— Daniel Vorcaro, em depoimento à PF
Houve no relatório do BC certa desqualificação geral tanto do projeto quanto de sua pessoa
— Belline Santana, contestando conclusões da investigação interna
Envie de l'histoire complète ? Lire l'original sur Folha de S.Paulo ↗
Nous contacter FAQ