Ex-chanceler Celso Amorim confiante na eleição de Lula na segunda volta

Só se houvesse algo extraordinário poderia Bolsonaro vencer
Amorim descreveu a vantagem matemática de Lula na primeira volta como praticamente insuperável.
Mark

Amorim estava realmente tão seguro assim, ou era apenas retórica para manter os apoiadores animados?

Mimi

Ele tinha números para sustentar a confiança. Lula precisava de um milhão de votos, Bolsonaro de sete a oito milhões. Mas Amorim foi cuidadoso — disse que "ninguém pode ter certeza absoluta" em eleições.

Luke

Certo, mas ele estava falando numa conferência da Fundação Rosa Luxemburgo, não numa pesquisa neutra. Qual era o público? Qual era o incentivo dele para parecer otimista?

Mimi

Verdade. Ele estava falando para um público europeu interessado em relações Brasil-UE. Mas os números da primeira volta eram públicos e verificáveis.

Mark

E quanto ao Senado? Os números ali pareciam menos favoráveis para Lula.

Mimi

Muito menos. Bolsonaro elegeu oito senadores, o campo bolsonarista como um todo conseguiu 18. Lula tinha apenas sete simpatizantes eleitos. Isso sugeria que a segunda volta seria num Congresso hostil.

Luke

Exatamente. Amorim falava da vitória presidencial como certa, mas não mencionou que Lula enfrentaria um Senado muito mais conservador. Essa é uma lacuna importante na análise dele.

Mark

Ele mencionou a possibilidade de Bolsonaro "criar um tumulto"?

Mimi

Mencionou, mas descartou. Disse que os militares não apoiariam. Mas isso era uma previsão, não um fato.

Luke

E uma previsão feita por alguém com interesse claro no resultado. Não sabemos o que os militares fariam realmente até que a situação se desenvolvesse.

Mark

Então, no fim, o que Amorim estava realmente dizendo?

Mimi

Que matematicamente Lula tinha uma vantagem esmagadora e que, barring algo extraordinário, venceria. E que um governo Lula priorizaria América Latina e clima.

Luke

Tudo isso verdadeiro. Mas também estava fazendo campanha, de forma educada, para um resultado que ele claramente desejava.

  • Lula terminou a primeira volta com 48,4% dos votos, deixando Bolsonaro a cinco pontos percentuais de distância e matematicamente em desvantagem severa para o segundo turno.
  • Amorim alertou que Bolsonaro poderia tentar 'criar um tumulto', mas argumentou que sem apoio militar qualquer tentativa de ruptura institucional estaria condenada ao fracasso.
  • O bolsonarismo mostrou músculo no Congresso, elegendo 18 dos 27 senadores em disputa — um resultado que complicaria a governabilidade de Lula mesmo em caso de vitória presidencial.
  • Ciro Gomes, eliminado com apenas 3% dos votos, anunciou apoio a Lula no segundo turno, consolidando o campo progressista para a reta final da campanha.
  • Amorim esboçou as prioridades de um futuro governo Lula: América Latina, Mercosul, clima e o reforço da parceria estratégica com a União Europeia — um sinal de que a política externa já estava a ser desenhada antes do resultado final.

Após uma primeira volta que deixou Lula da Silva a pouco mais de um milhão de votos da presidência, o experiente diplomata Celso Amorim emergiu como voz de serenidade e convicção: a matemática eleitoral, dizia ele, já havia escrito o desfecho. Num mundo onde as democracias são frequentemente testadas por forças que recusam o veredicto das urnas, Amorim reconhecia os riscos sem os amplificar — confiante de que as instituições brasileiras, incluindo os militares, não cederiam a qualquer tentativa de ruptura. O Brasil, naquele início de outubro de 2022, vivia a tensão entre um resultado quase certo e a incerteza que toda eleição carrega até ao último voto contado.

Celso Amorim, veterano da diplomacia brasileira com passagens pelos governos de Itamar Franco, Lula e Dilma Rousseff, saiu da primeira volta das presidenciais convicto de que o desfecho já estava traçado. Numa videoconferência organizada pela Fundação Rosa Luxemburgo, com sede na Alemanha, descreveu o desempenho de Lula como 'confortável' e afirmou que apenas algo 'extraordinário' poderia reverter o quadro antes do segundo turno, marcado para 30 de outubro.

Os números sustentavam a sua confiança. Lula havia obtido 48,43% dos votos contra 43,2% de Bolsonaro. Traduzida em votos concretos, a diferença era assimétrica: Lula precisava de pouco mais de um milhão de votos adicionais, enquanto Bolsonaro teria de conquistar entre sete e oito milhões — um abismo que Amorim considerava praticamente intransponível.

Ainda assim, Amorim não ignorava os riscos. Reconheceu que Bolsonaro poderia tentar semear instabilidade, mas argumentou que os militares brasileiros não dariam cobertura a qualquer tentativa de ruptura institucional. Mantinha a cautela sem abandonar a convicção: 'ninguém pode ter a certeza absoluta', admitiu, antes de reiterar estar 'bastante confiante'.

O quadro parlamentar revelava, porém, a força persistente do bolsonarismo. O campo aliado ao presidente elegeu 18 dos 27 senadores em disputa, contra apenas sete simpáticos a Lula — um Congresso que prometia dificultar a governação mesmo após uma eventual vitória presidencial.

Naquele mesmo dia, Ciro Gomes, eliminado com 3,04% dos votos, anunciou que o seu partido apoiaria Lula no segundo turno, reforçando a coligação progressista para a reta final. Amorim aproveitou a plataforma para antecipar as prioridades de um governo Lula: América Latina, Mercosul, política climática e o reforço da parceria estratégica com a União Europeia. A campanha, sublinhou, exigiria trabalho 'até ao último minuto'.

Celso Amorim, que serviu como ministro das Relações Exteriores e da Defesa sob três presidentes brasileiros — Itamar Franco, Lula da Silva e Dilma Rousseff — saiu da primeira volta das eleições presidenciais brasileiras convencido de que o resultado já havia selado o destino da disputa. Falando numa videoconferência organizada pela Fundação Rosa Luxemburgo, com sede na Alemanha, Amorim descreveu o desempenho de Lula como "confortável" e afirmou que apenas algo "extraordinário" poderia reverter o quadro na segunda volta, marcada para 30 de outubro.

Os números justificavam sua confiança. Lula havia conquistado 48,43% dos votos no domingo anterior, deixando Bolsonaro para trás com 43,2%. A diferença de cinco pontos percentuais se traduzia numa vantagem concreta: Lula precisava de pouco mais de um milhão de votos adicionais para garantir a vitória, enquanto Bolsonaro teria de conquistar entre sete e oito milhões — um abismo matemático que Amorim considerava intransponível sem circunstâncias extraordinárias.

Mas Amorim não descartava completamente a possibilidade de turbulência. Reconheceu que Bolsonaro poderia tentar "criar um tumulto", mas argumentou que tal estratégia não teria sustentação política. Os militares brasileiros, na sua avaliação, não forneceriam o apoio necessário para que um golpe ou ruptura institucional prosperasse. Ainda assim, mantinha a cautela: "ninguém pode ter a certeza absoluta" em eleições, disse, embora reiterasse estar "bastante confiante".

O cenário político mais amplo revelava a força do bolsonarismo nas urnas, apesar da derrota presidencial iminente. O partido de Bolsonaro elegeu oito dos 27 senadores em disputa, enquanto o campo político aliado ao bolsonarismo como um todo conquistou 18 cadeiras. Apenas sete dos novos senadores eram simpatizantes do campo de Lula — um resultado que sugeria que a segunda volta seria disputada num Congresso menos favorável ao ex-presidente do que a primeira volta poderia sugerir.

A escala da eleição brasileira era monumental. Mais de 156 milhões de eleitores foram às urnas, distribuídos por 5.570 cidades, com 577.125 urnas eletrônicas. Além dos 11 candidatos presidenciais, 224 concorreram a governador, 243 ao Senado, 10.630 a deputado federal, 16.737 a deputado estadual e 610 a deputado distrital. Dos mais de 29 mil candidatos no total, 1.323 buscavam a reeleição.

Aomir aproveitou a plataforma para esboçar as prioridades que esperava de um governo Lula. A América Latina e o Mercosul — bloco que reúne Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai — receberiam atenção prioritária. As questões climáticas também estariam no centro das atenções, com Amorim antecipando que Lula poderia adotar medidas para demonstrar que a política climática seria um pilar do seu governo. A parceria estratégica entre Brasil e União Europeia seria reforçada, embora o foco regional permanecesse claro.

Ciro Gomes, que havia ficado em quarto lugar com apenas 3,04% dos votos — atrás de Simone Tebet, que conquistou 4,16% — anunciou naquele mesmo dia que seu partido, o Democrático Trabalhista, apoiaria Lula na segunda volta. Era mais um sinal de que o caminho para 30 de outubro estava pavimentado, ainda que a campanha final exigisse, nas palavras de Amorim, trabalho "até ao último minuto".

Acho que Lula teve na primeira volta um resultado confortável, mas temos que trabalhar até ao último minuto
— Celso Amorim
Ninguém pode ter a certeza absoluta de vitória em eleições, mas estou bastante confiante
— Celso Amorim
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