No cruzamento entre soberania e dependência, Colômbia e Estados Unidos renovam um pacto histórico que vai além do combate às drogas: trata-se de um reposicionamento de forças no hemisfério, onde Washington reafirma sua influência e Bogotá aposta na aliança militar como resposta a uma crise de violência que consome o país. Com um bilhão de dólares prometidos e operações conjuntas formalizadas, o acordo sinaliza que a era de distância diplomática entre os dois países chegou ao fim — mas as perguntas sobre o custo humano dessa aproximação permanecem abertas.
EUA e Colômbia formalizam operações militares conjuntas contra narcotráfico
Um novo xerife na cidade, com bilhões de dólares e sem freios diplomáticos
Por que esse acordo agora? O que mudou entre a administração anterior e esta?
O ex-presidente Petro era crítico da estratégia americana. Recusava deportações, questionava os bombardeios. O novo presidente prometeu combater sem trégua e descartou negociações. Washington viu a abertura e a aproveitou.
Um bilhão de dólares é muito dinheiro. O que esperam conseguir que não conseguiram antes?
Operações militares diretas e coordenadas. Antes havia cooperação, mas com limites políticos. Agora é uma aliança formal, sem as restrições que Petro impunha.
Falam em narcoterrorismo. É uma classificação nova?
É uma escolha de linguagem. Permite tratar grupos criminosos como inimigos militares, não como criminosos comuns. Muda o tipo de resposta que é considerada legítima.
Os bombardeios mataram duzentas e quinze pessoas. Como isso é justificado?
Hegseth diz que causaram queda recorde no trânsito de drogas. Para ele, é efetivo. Para juristas internacionais, são execuções extrajudiciais. Não há consenso.
Por que incentivar países a sair do Tribunal Penal Internacional?
Porque o TPI pode julgar essas mortes. Se os países saem, não há jurisdição internacional. É proteção legal para as operações.
E o Canal do Panamá? Isso está conectado?
Está tudo conectado. Trump quer reafirmar influência americana na região. O narcotráfico é a justificativa, mas a estratégia é mais ampla.
The Pulse
- A formalização do acordo militar entre EUA e Colômbia marca uma virada abrupta: o novo governo colombiano rompe com a postura do antecessor e entrega ao Pentágono autorização para operações conjuntas diretas em solo e mar.
- Duzentas e quinze mortes em cinquenta e três ataques a embarcações suspeitas de narcotráfico revelam a brutalidade da campanha americana — e acendem um alarme internacional sobre execuções extrajudiciais.
- O secretário Pete Hegseth usa linguagem de confronto, convoca aliados a abandonarem o Tribunal Penal Internacional e anuncia que 'um novo xerife chegou à cidade', sinalizando que a estratégia vai além do combate às drogas.
- Com vinte e cinco mil combatentes ilegais e décadas de fracasso em conter o fluxo de cocaína, a Colômbia aposta que a nova aliança pode onde o Plano Colômbia não conseguiu — mas os críticos apontam que a história sugere o contrário.
No cruzamento entre soberania e dependência, Colômbia e Estados Unidos renovam um pacto histórico que vai além do combate às drogas: trata-se de um reposicionamento de forças no hemisfério, onde Washington reafirma sua influência e Bogotá aposta na aliança militar como resposta a uma crise de violência que consome o país. Com um bilhão de dólares prometidos e operações conjuntas formalizadas, o acordo sinaliza que a era de distância diplomática entre os dois países chegou ao fim — mas as perguntas sobre o custo humano dessa aproximação permanecem abertas.
Na quarta-feira, o secretário de Defesa americano Pete Hegseth anunciou no Panamá que a Colômbia autorizou operações militares conjuntas diretas contra o narcoterrorismo, formalizando a adesão do país ao Escudo das Américas — coalizão antidrogas liderada por Donald Trump que reúne cerca de vinte nações da América Latina e do Caribe. O acordo foi assinado como memorando de entendimento entre Hegseth e o ministro colombiano Jorge Mora.
A mudança representa uma ruptura com o governo anterior. O ex-presidente Gustavo Petro havia mantido relações tensas com Washington, recusando deportações e questionando a estratégia americana. O novo presidente colombiano prometeu combate sem trégua ao narcoterrorismo e descartou negociações com grupos armados, restaurando uma aliança histórica que durante décadas fez dos dois países os maiores parceiros militares da região. Os EUA pretendem investir um bilhão de dólares em segurança no maior produtor de cocaína do mundo.
A Colômbia enfrenta uma crise de violência alimentada por cerca de vinte e cinco mil combatentes ligados a grupos ilegais. Nas décadas anteriores, o Plano Colômbia e o Plano Patriota enfraqueceram guerrilhas, mas não interromperam o fluxo de cocaína. A nova cooperação inclui operações em alto-mar, onde os dois países já atuavam juntos.
Há quase um ano, os EUA iniciaram uma campanha de bombardeios contra embarcações suspeitas de narcotráfico. Segundo a AFP, os ataques causaram aproximadamente duzentas e quinze mortes em cinquenta e três operações. Hegseth celebrou uma queda no trânsito dessas embarcações, mas juristas e organizações de direitos humanos denunciam as ações como execuções extrajudiciais.
O contexto vai além das drogas. No Panamá, onde o acordo foi assinado, Trump pressiona pela retomada do Canal, alegando influência chinesa — e a Justiça panamenha já anulou contrato de empresa de Hong Kong com dois portos locais. O que se desenha é uma estratégia americana de reafirmar domínio hemisférico, usando a segurança como justificativa enquanto reposiciona alianças políticas e militares em toda a região.
A Colômbia formalizou nesta quarta-feira uma aliança militar com os Estados Unidos que marca uma virada abrupta na política de segurança do país e nas relações diplomáticas entre Bogotá e Washington. O secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, anunciou no Panamá que o novo governo colombiano autorizou operações militares conjuntas diretas contra o que ambos os países classificam como narcoterrorismo. O acordo foi assinado como memorando de entendimento entre Hegseth e o ministro da Defesa colombiano Jorge Mora, formalizando a adesão da Colômbia ao Escudo das Américas, uma coalizão antidrogas liderada pelo presidente Donald Trump que reúne cerca de vinte países da América Latina e do Caribe.
A mudança representa uma ruptura com a administração anterior. O ex-presidente Gustavo Petro, de esquerda, havia mantido relações tensas com Trump, recusando-se a receber voos de deportação e questionando a estratégia americana de combate ao narcotráfico. O novo presidente colombiano, que tomou posse recentemente, prometeu combater o narcoterrorismo sem trégua e descartou negociações de paz com grupos armados. Essa postura restaurou a aliança histórica entre os dois países, que durante décadas foram os maiores parceiros militares da região. Washington pretende investir um bilhão de dólares em segurança na Colômbia, o maior produtor de cocaína do mundo e principal fornecedor para o mercado americano.
A Colômbia enfrenta uma crise de violência sem precedentes na última década, alimentada por cerca de vinte e cinco mil combatentes ligados a grupos ilegais que se financiam através do narcotráfico, garimpo ilegal e extorsão. Nas duas décadas anteriores, os dois países implementaram o Plano Colômbia e o Plano Patriota, campanhas militares massivas financiadas com bilhões de dólares americanos que enfraqueceram as guerrilhas de esquerda mas não interromperam o fluxo de cocaína. A nova cooperação inclui operações em alto-mar, onde Washington e Bogotá já vinham trabalhando juntas.
Hegseth apresentou a iniciativa como parte de uma estratégia hemisférica mais ampla. Afirmou que um quintal mais seguro significa um lar mais seguro, argumentando que os Estados Unidos não buscam dominação mas sim proteger a região contra atores estrangeiros malignos. Usou linguagem provocativa, declarando que estão prestes a encontrar um novo xerife na cidade. O secretário também incentivou os membros da coalizão a abandonarem o Tribunal Penal Internacional, classificando-o como uma ameaça.
Essa postura reflete uma mudança radical na tática americana contra o narcotráfico. Há quase um ano, os Estados Unidos iniciaram uma campanha de bombardeios sem precedentes contra supostas lanchas usadas por traficantes, começando no Caribe e se estendendo ao Pacífico. Segundo contagem da agência AFP, esses ataques causaram aproximadamente duzentas e quinze mortes em cerca de cinquenta e três operações. Hegseth afirmou que os bombardeios provocaram uma queda recorde no trânsito dessas embarcações.
Porém, juristas internacionais e organizações de defesa dos direitos humanos denunciam essas operações como execuções extrajudiciais. A pressão do governo Trump também se estende além da questão do narcotráfico. No Panamá, onde o acordo foi formalizado, Trump ameaçou recuperar o Canal sob o argumento de que está sob controle chinês. Em resposta a essa pressão, a Justiça panamenha anulou o contrato de operação de dois portos com uma empresa de Hong Kong. O contexto revela uma estratégia americana mais ampla de reafirmar influência na região, usando a segurança como justificativa enquanto reposiciona alianças políticas e militares.
Notable Quotes
Por meio do presidente recém-empossado, a Colômbia já solicitou que o Departamento de Guerra se junte à Colômbia em sua luta contra o narcoterrorismo— Pete Hegseth, secretário de Defesa dos EUA
O governo Trump sabe que um quintal mais seguro significa um lar mais seguro— Pete Hegseth