Milho americano surpreende com 17,5 milhões de toneladas acima do previsto, causando queda de 12% nas cotações de Chicago desde setembro. Soja mantém-se próxima às projeções do Pro Farmer, confirmando safra de alta produtividade, mas com possíveis problemas de qualidade de grão.
EUA confirmam soja recorde e surpreendem com 17,5 mi de toneladas extras de milho
Se a China comprar milho americano, vai ter que ser mais barato
Como é possível o USDA ter errado tanto na projeção de milho? Dezessete e meio milhões de toneladas é uma diferença enorme.
Não é bem um erro. Em agosto, quando o Pro Farmer fez o tour, as lavouras mostravam sinais reais de complicação — água demais aqui, seca ali, doenças em alguns pontos. O que ninguém esperava era que essas plantas tivessem tanta capacidade de se recuperar e compensar esses problemas até a colheita.
Mas ainda há atrasos na colheita e relatos de milho germinando em Nebraska. Isso não contradiz a ideia de que a safra compensou?
Não, porque a compensação já aconteceu. O que está acontecendo agora é um problema diferente — clima adverso durante a colheita, não durante o desenvolvimento. São duas coisas distintas.
E por que isso pressiona tanto os preços em Chicago?
Porque oferta grande sem demanda correspondente derruba preço. O milho caiu 12% desde setembro. Mas aqui está o ponto: a China não pode comprar muito mais milho americano porque as cotas não mudaram, mesmo depois da reunião Trump-Xi.
Espera — o USDA revisou para cima as projeções de exportação de milho americano. Como isso faz sentido se o programa de exportação está 10 milhões de toneladas atrás?
Ótima pergunta. Não faz muito sentido. É por isso que os analistas estão questionando essa revisão. A América do Sul está mais barata, e o milho brasileiro se saiu melhor nos últimos negócios, especialmente pelos portos do Pacífico.
E a soja? Por que ela não teve a mesma surpresa?
Porque em agosto o Pro Farmer já tinha projetado 124,4 milhões de toneladas, e o USDA confirmou 124,1. A diferença é de apenas 300 mil toneladas. O mercado já precificava isso há mais tempo.
Mas a soja também pode ter problemas de qualidade por causa da seca no começo e do excesso de umidade agora. Isso não é um risco?
É, mas é um risco que pode beneficiar o Brasil. Se o grão americano tiver qualidade inferior, há espaço para prêmio para a soja brasileira.
Então, no fim, quem ganha com tudo isso?
Ninguém ganha com oferta grande e preços em queda. Mas o Brasil pode ganhar espaço de mercado enquanto os EUA lutam para vender milho barato.
Le Pouls
- 124,1 milhões de toneladas de soja confirmadas pelo USDA
- 407,3 milhões de toneladas de milho, 17,5 milhões acima da projeção de agosto
- Milho caiu 12% desde setembro; soja caiu 4%
- Colheita atrasada em estados-chave do Corn Belt
Milho americano surpreende com 17,5 milhões de toneladas acima do previsto, causando queda de 12% nas cotações de Chicago desde setembro. Soja mantém-se próxima às projeções do Pro Farmer, confirmando safra de alta produtividade, mas com possíveis problemas de qualidade de grão.
USDA confirma produção recorde de 124,1 milhões de toneladas de soja e 407,3 milhões de milho para 2026/27, superando projeções anteriores e pressionando cotações em Chicago.
Os números chegaram em outubro e mudaram o tabuleiro. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos confirmou o que os mercados temiam: uma colheita recorde de soja e um volume de milho tão grande que surpreendeu até quem acompanha esses números de perto. São 124,1 milhões de toneladas de soja e 407,3 milhões de toneladas de milho para a safra 2026/27. O milho, em particular, veio acima do que o mercado esperava, e a reação foi imediata nas bolsas de Chicago. Desde o anúncio, o preço do cereal caiu quase 70 centavos em relação ao pico de setembro — uma queda de 12% que contrasta com a perda de 4% da soja no mesmo período.
A surpresa maior vem da diferença entre o que se projetava há dois meses e o que o USDA confirmou agora. Em agosto, após o Pro Farmer Crop Tour, os analistas estimavam 389,8 milhões de toneladas de milho. O número de outubro é 17,5 milhões de toneladas maior. Para a soja, a história é diferente: a projeção de 124,4 milhões de toneladas feita em agosto praticamente se confirmou, com apenas 300 mil toneladas de diferença. Isso significa que o mercado já precificava a safra de soja há mais tempo, mas foi pego de surpresa pelo milho.
O que explica essa diferença? Em agosto, as lavouras visitadas pelo Pro Farmer mostravam sinais de uma temporada complicada. Havia excesso de água em Ohio e Indiana, falta de umidade em Dakota do Sul, soja ainda imatura em algumas regiões, doenças e variações importantes entre estados. O milho, em particular, não apresentava uma safra ruim, mas carregava uma variabilidade maior do que a aparência das lavouras permitia enxergar. Dois meses depois, conforme a colheita avança, fica claro que essas lavouras tiveram uma capacidade de compensação maior do que aquela fotografia de agosto sugeria. Mesmo assim, há ainda atrasos significativos nos trabalhos de colheita em estados-chave, e relatos de produtores registram impactos do clima adverso no Corn Belt — há cerca de dez dias, havia milho germinando em campos do Nebraska e possibilidade de alguns campos serem abandonados.
Mas números grandes de produção não garantem preços altos. A questão agora é quem vai comprar esse volume. Eduardo Vanin, estrategista sênior de agricultura da Marex, explica que o milho americano já não recebeu grandes novidades depois do encontro entre Donald Trump e Xi Jinping, ocorrido três semanas antes em Washington. Houve redução de tarifa sobre o milho americano, mas as cotas não mudaram. E aqui está o problema: os preços do grão americano praticamente se equipararam aos de Brasil, Argentina e Ucrânia. "Se a China for comprar milho americano, vai ter que ser competitivo — mais barato do que na América do Sul — e o volume não vai ser tão grande assim porque as cotas não mudaram", detalha Vanin. O USDA revisou para cima a projeção para exportações norte-americanas do grão, mas isso não combina com a realidade: a América do Sul está muito mais barata, e o programa de exportação americano está 10 milhões de toneladas atrás em relação ao mesmo período do ano passado.
Para a soja, a situação é ligeiramente diferente. Vitor Lima, analista de mercado da Pátria Agronegócios, afirma que "a soja 2026/27 ainda é uma safra que traz um pouco de surpresas". Mesmo com problemas pontuais que ainda se apresentam, os EUA estão falando de uma safra de produtividade muito alta. Mas a seca no começo da temporada e o excesso de umidade agora durante a colheita podem trazer um problema de qualidade de grão — e isso pode até gerar um prêmio mais forte para o Brasil.
Os dados semanais divulgados pelo USDA mostram comportamentos distintos entre os dois grãos. Na semana encerrada em 8 de outubro, as vendas líquidas norte-americanas de milho somaram 1,122 milhão de toneladas, alta de 46% frente à semana anterior. Mas os negócios divulgados depois já mostram uma presença chinesa mais forte: exportadores privados reportaram a venda de 558 mil toneladas de soja para a China e outras 236 mil toneladas para destinos ainda não revelados, todas para entrega em 2026/27.
O timing é crítico. A safra norte-americana chega ao mercado justamente quando o Brasil inicia o plantio de mais uma grande temporada. À medida que a discussão sobre o tamanho da produção americana perde espaço, a disputa pela demanda tende a ganhar ainda mais peso para Chicago e para a formação dos preços também no Brasil. Os traders logo voltarão sua atenção para o avanço do plantio e o desenvolvimento da nova safra brasileira. Enquanto a colheita americana termina uma temporada marcada por extremos, o próximo ciclo climático já começou, e o risco climático não sai da mesa.
Citations marquantes
O milho em Chicago já tem uma queda de quase 70 centavos em relação ao pico de setembro, e em percentual chega a 12%— Eduardo Vanin, estrategista sênior de agricultura da Marex
Quando olhamos para os EUA de uma forma geral ainda estamos falando de uma safra de produtividade muito alta, mas podemos ter um problema de qualidade de grão que traz um prêmio mais forte para o Brasil— Vitor Lima, analista de mercado da Pátria Agronegócios