Vítimas brasileiras relatam serem oferecidas como 'prêmios' para criminosos, sofrendo estupros, espancamentos e coerção sexual dentro de complexos de golpes em Poipet. Mulheres representam 54,8% dos casos de tráfico entre brasileiros em 2025; exploração sexual lidera inquéritos da PF, mas permanece invisibilizada nos registros oficiais.
Estupros sistemáticos marcam tráfico de mulheres em complexos de golpes no Camboja
Ela está morta, cuide da sua vida
Como uma mulher acaba oferecida como prêmio dentro de um complexo de golpes?
Quando você está presa em um lugar onde não há saída real, você deixa de ser uma pessoa. Vira um ativo. Se você cumpre sua cota de golpes, você é recompensado. Se você não cumpre, é punida. E quando os homens que trabalham para o complexo cumprem bem suas metas, eles também recebem recompensas. Cecília era uma recompensa.
E ninguém intervém? Não há polícia, não há proteção?
A polícia cambojana não reconhece essas mulheres como vítimas de tráfico. Elas são vistas como criminosas, como pessoas que estão ali por escolha própria. Quando o pai de Cecília procurou a polícia brasileira, ela foi espancada. O sistema não a protege; a pune por tentar ser encontrada.
Você mencionou que mulheres representam mais de metade dos casos de tráfico agora. Isso é novo?
É uma mudança recente. Antes, homens eram maioria. Mas o que realmente mudou é que a Polícia Federal começou a investigar exploração sexual como crime principal, enquanto os registros oficiais ainda apontam trabalho escravo. A violência sexual sempre esteve lá. Agora estamos começando a vê-la.
Como alguém como Neang, que foi levada à China, consegue escapar?
Ela fugiu e procurou a polícia local. Confessou estar no país ilegalmente. Foi presa e deportada. Ao voltar para o Camboja, conseguiu falar com seus filhos por um ano. Depois, a família do homem que a estuprou proibiu qualquer contato. Ela escapou da escravidão sexual, mas perdeu os filhos.
O Camboja está fazendo algo para mudar isso?
O governo diz que reconhece vítimas de tráfico e que publicou novas diretrizes. Mas na prática, nenhuma das 73 mulheres entrevistadas pela Anistia foi reconhecida formalmente como vítima. As palavras não correspondem às ações.
O Pulso
- Cecília, brasileira, foi oferecida como prêmio por bom desempenho em complexo de golpes em Poipet, Camboja, e estuprada
- Mulheres representam 54,8% dos 84 casos de tráfico entre brasileiros em 2025, inversão em relação a 2024
- Autoridades cambojanas não reconheceram nenhum dos 73 entrevistados pela Anistia como vítimas de tráfico humano
- 180 mulheres cambojanas foram resgatadas da China no primeiro semestre de 2025 após serem enganadas para casamentos forçados
Vítimas brasileiras relatam serem oferecidas como 'prêmios' para criminosos, sofrendo estupros, espancamentos e coerção sexual dentro de complexos de golpes em Poipet. Mulheres representam 54,8% dos casos de tráfico entre brasileiros em 2025; exploração sexual lidera inquéritos da PF, mas permanece invisibilizada nos registros oficiais.
Mulheres brasileiras e estrangeiras traficadas para complexos de golpes no Camboja sofrem estupros sistemáticos como punição e recompensa. Autoridades cambojanas falham em reconhecê-las como vítimas de tráfico humano.
Quando um gerente de complexo de golpes em Poipet, cidade cambojana na fronteira com a Tailândia, decidiu recompensar homens que haviam cumprido bem suas metas criminosas, escolheu uma forma de pagamento que revela a brutalidade sistemática do tráfico humano na região: ofereceu uma mulher brasileira como prêmio. Cecília, nome fictício para proteger a identidade da vítima, foi estuprada. Seu relato, colhido pela Anistia Internacional e publicado em junho deste ano, expõe não apenas um crime isolado, mas um padrão de violência sexual que permeia os complexos onde mulheres são mantidas prisioneiras para executar golpes financeiros.
Poipet concentra dezenas desses complexos, estruturas que funcionam como prisões disfarçadas. A Folha visitou um deles e encontrou mais de dez prédios camuflados atrás de uma pousada modesta, acessíveis por uma estreita estrada de terra. Dentro dessas estruturas, mulheres trabalham em jornadas exaustivas aplicando fraudes online enquanto sofrem confinamento, vigilância constante e abuso sexual. Cecília não apenas foi estuprada como recompensa; foi também espancada com um taco de beisebol após gerentes descobrirem que seu pai havia procurado a polícia brasileira buscando informações sobre seu paradeiro. Seu corpo e sua dignidade foram tratados como propriedade do complexo, disponível para punição ou prêmio conforme a conveniência dos criminosos.
Os relatos coletados pela Anistia Internacional revelam que a violência sexual não é exceção, mas mecanismo de controle. Indah, outro nome fictício, foi impedida de trancar sua porta enquanto estava no complexo; homens entravam em seu quarto durante a madrugada para estuprá-la. Duas outras mulheres descreveram ser forçadas a manter relações sexuais com gerentes em troca de proteção dentro do esquema, uma negociação que não era escolha mas necessidade de sobrevivência. Kenyangi, uma jovem de Uganda com apenas 20 anos, foi submetida a visitas forçadas de um gerente em seu quarto enquanto homens armados aguardavam na porta. Quando engravidou dele, foi levada a um médico onde recebeu pílulas abortivas. Pouco depois, viu o corpo ensanguentado de uma amiga, também vítima de estupro sistemático, deitado sobre uma cama. Os guardas não permitiram que tocasse no corpo. O homem que a havia estuprado disse simplesmente: ela está morta, cuide da sua vida.
Os dados oficiais brasileiros começam a revelar a dimensão dessa violência. Em 2025, mulheres representaram 54,8% dos 84 casos de tráfico de pessoas registrados entre brasileiros, uma inversão em relação a 2024, quando homens eram maioria com 58,7% dos 63 casos. Mais significativo ainda: enquanto os registros do Ministério da Justiça apontam trabalho escravo como principal causa do tráfico, os inquéritos da Polícia Federal identificam exploração sexual como o crime predominante. Marina Bernardes, coordenadora-geral de enfrentamento ao tráfico de pessoas do ministério, reconhece que muitas mulheres passam pelos serviços públicos sem serem identificadas como vítimas de tráfico, sendo atendidas apenas como vítimas de violência sexual ou exploração do trabalho, sem que o contexto completo de aliciamento, deslocamento, controle e exploração seja reconhecido.
O Camboja funciona tanto como destino quanto como origem do tráfico. Neang, cambojana de 29 anos, foi levada à China aos 17 anos sob promessa de boa remuneração. Ao chegar, trabalhou um dia em uma fábrica até ser informada de que seria obrigada a se casar com um homem chinês, pois sua idade impediria sua contratação legal. Três homens foram ao local onde estava para decidir quem a levaria. Um a escolheu. Durante uma década, foi mantida em confinamento doméstico, forçada sexualmente, submetida a gravidezes sucessivas. Quando finalmente engravidou de um filho homem, após ter tido uma filha, os abusos continuaram. Ela descreveu o período como impossível de articular em palavras. Em 2024, fugiu e procurou a polícia local, confessando estar no país ilegalmente. Foi presa e deportada. Ao retornar ao Camboja, manteve contato com os filhos por um ano até que a família do agressor proibiu qualquer comunicação.
Apesar de casos como o de Kenyangi atenderem completamente aos critérios do Protocolo de Palermo—que define tráfico de pessoas como recrutamento, transporte ou alojamento mediante ameaça, força, coerção, fraude ou engano com objetivo de exploração—as autoridades cambojanas não reconheceram nenhum dos 73 entrevistados no relatório da Anistia como vítimas de tráfico humano. O ministro da Informação do Camboja, Neth Pheaktra, afirmou à Folha que o país reconhece a possibilidade de vítimas de tráfico entre pessoas encontradas em operações de golpes e que cada caso é avaliado individualmente. Disse ainda que novas diretrizes foram publicadas para aprimorar a identificação de vítimas. Mas a realidade nos complexos continua: mulheres da Etiópia e das Filipinas relataram à ONU gravidezes decorrentes de estupros, enquanto homens sofrem humilhações sexuais como punição por infrações. No primeiro semestre de 2025, 180 mulheres cambojanas foram resgatadas da China após serem enganadas por aliciadores para se casarem com estrangeiros. A engrenagem do tráfico segue funcionando, alimentada pela invisibilização sistemática das vítimas e pela falha das autoridades em reconhecer o que está diante delas.
Citações Notáveis
Foi como um prêmio por um bom trabalho. Ele disse que eu era como 'um presente'. Me estupraram.— Cecília, vítima brasileira de tráfico humano
Muitas mulheres e meninas passam pelos serviços públicos sem serem reconhecidas como vítimas de tráfico. Podem ser atendidas como vítimas de violência sexual, violência doméstica, exploração do trabalho ou outras violações, sem que se identifique todo o contexto de aliciamento, deslocamento, controle e exploração.— Marina Bernardes, coordenadora-geral de enfrentamento ao tráfico de pessoas do Ministério da Justiça