Cerca de 1.600 crianças nasceram com microcefalia entre 2015-2016; novo estudo documenta déficits auditivos e linguísticos significativos nesse grupo. Pesquisadores usaram testes de Potenciais Evocados Auditivos para demonstrar padrão atípico no desenvolvimento do sistema auditivo e linguístico dessas crianças.
Estudo revela prejuízo auditivo em crianças com microcefalia causada pelo zika
A criança tem grandes riscos de não conseguir uma percepção auditiva adequada
O que exatamente o estudo da Unesp descobriu que não era conhecido antes?
Que as crianças com microcefalia causada pelo zika têm um padrão atípico no desenvolvimento do sistema auditivo — não é apenas que elas não ouvem bem, mas que o cérebro delas processa os sons de forma imatura e prejudicada. Isso afeta diretamente a capacidade de aprender linguagem.
Mas o estudo era pequeno, certo? Vinte crianças no total, dez em cada grupo. Como sabemos que isso representa o que acontece com as 1.600 crianças nascidas com microcefalia?
É verdade que é um estudo piloto, observacional. Mas usou testes validados — Potenciais Evocados Auditivos — que mostram a resposta elétrica do cérebro aos sons. Os achados foram consistentes no grupo estudado.
E o que isso significa para as famílias agora? Existe tratamento?
Não há protocolos de atendimento específicos ainda. A pesquisadora sugere que estimulação auditiva e linguística precoce poderia ajudar, mas isso ainda precisa ser investigado. Por enquanto, as famílias estão sem apoio estruturado.
A lei de 2025 oferece R$ 50 mil e uma pensão. Isso é suficiente?
Financeiramente, talvez ajude algumas famílias. Mas dinheiro não substitui terapia, protocolos de atendimento e políticas de saúde que não existem.
O vírus ainda circula no Brasil?
Sim. E há um estudo em andamento acompanhando 500 crianças cujas mães tiveram zika mas que não desenvolveram a síndrome congênita. No segundo ano, já encontraram atraso de linguagem e discriminação auditiva nesse grupo também.
Então o problema pode ser ainda maior do que os números de microcefalia sugerem?
Exatamente. Não sabemos quantas crianças expostas ao vírus têm déficits que não foram diagnosticados porque não há triagem sistemática.
The Pulse
- Cerca de 1.600 crianças nasceram com síndrome congênita do zika entre 2015 e 2016
- Estudo com 20 crianças (10 com microcefalia por zika, 10 controle) usou testes de Potenciais Evocados Auditivos
- Lei 15.156 (julho de 2025) oferece R$ 50 mil em indenização e pensão vitalícia para pessoas com deficiência permanente por zika
- Pesquisa em andamento acompanhará 500 crianças expostas ao vírus por cinco anos, financiada pelo NIH
Cerca de 1.600 crianças nasceram com microcefalia entre 2015-2016; novo estudo documenta déficits auditivos e linguísticos significativos nesse grupo. Pesquisadores usaram testes de Potenciais Evocados Auditivos para demonstrar padrão atípico no desenvolvimento do sistema auditivo e linguístico dessas crianças.
Pesquisa da Unesp identifica prejuízos graves na audição e linguagem de crianças nascidas com síndrome congênita do zika, dez anos após o pico da epidemia de 2015-2016.
Dez anos depois que o Brasil enfrentou um surto inesperado de microcefalia em recém-nascidos, pesquisadores da Unesp documentaram uma consequência grave que permanecia pouco compreendida: danos significativos na audição e no desenvolvimento da linguagem das crianças afetadas. Entre 2015 e 2016, aproximadamente 1.600 crianças nasceram com a síndrome congênita do zika, uma condição que abrange múltiplas alterações no feto provocadas pela infecção materna durante a gestação. A microcefalia — caracterizada por uma medida de cabeça menor que a esperada para a idade e o sexo — foi apenas uma das manifestações visíveis. Agora, um novo estudo publicado em junho deste ano na revista Brazilian Journal of Otorhinolaryngology revela que os danos neurológicos vão muito além do que se observa na superfície.
Em abril de 2015, exames laboratoriais confirmaram que o vírus zika, até então pouco conhecido no país, havia começado a circular. Inicialmente confundido com a dengue — compartilhava o mesmo mosquito transmissor e sintomas semelhantes — logo foi associado ao aumento anormal de casos de microcefalia. Pesquisas realizadas por cientistas brasileiros em 2015 e 2016 caracterizaram a síndrome congênita do zika e mapearam alterações motoras, visuais e auditivas. Mas compreender os impactos reais do vírus no desenvolvimento infantil permanecia uma lacuna crítica.
A professora Ana Cláudia Figueiredo Frizzo, do Departamento de Fonoaudiologia da Unesp em Marília, investigou especificamente os efeitos do zika sobre a audição e a linguagem. Seu estudo envolveu 20 crianças da região Nordeste: dez com microcefalia causada pelo zika (cinco meninos e cinco meninas com idade média de 25 meses) e dez crianças do grupo controle (cinco meninos e cinco meninas com idade média de 29 meses). Os pesquisadores apresentaram às crianças sons naturais correspondentes às sílabas "ba" e "da", emitidos a 70 dB, e registraram a atividade cerebral provocada por esses estímulos através de testes de Potenciais Evocados Auditivos. Essa tecnologia mostra como o sistema nervoso responde aos sons. Os dados foram analisados com software especializado que fornece análises precisas da resposta elétrica aos sons, enquanto as funções receptivas, expressivas, auditivas e visuais relacionadas à linguagem foram avaliadas pela Escala de Marcos do Desenvolvimento da Linguagem Inicial.
Os resultados foram perturbadores. As crianças com síndrome congênita do zika apresentaram sérios prejuízos no desenvolvimento auditivo e linguístico. "Há uma imaturidade e um padrão atípico dos componentes relacionados à discriminação auditiva", explicou Frizzo. "A criança tem grandes riscos de não conseguir, ao longo do seu desenvolvimento, ter uma percepção auditiva adequada, porque a capacidade de perceber as pistas acústicas é muito prejudicada." Como a aquisição da linguagem depende não apenas da integridade do ouvido, mas também do funcionamento adequado das estruturas cerebrais responsáveis por interpretar e diferenciar os sons da fala, as crianças afetadas apresentam déficits significativos nas habilidades linguísticas que vão além do que seria esperado apenas por problemas auditivos periféricos.
Os achados abrem possibilidades para intervenção precoce. Frizzo observou que, considerando a fase crítica de desenvolvimento entre 0 e 24 meses, uma estimulação auditiva e linguística direcionada poderia potencialmente reduzir os efeitos negativos — mas isso ainda precisa ser investigado. Seu estudo teve caráter apenas observacional e de avaliação, não testando intervenções. Os resultados também apontam para uma necessidade urgente de políticas públicas de saúde. Atualmente, praticamente não existem protocolos específicos para o atendimento de crianças com microcefalia causada pelo zika. Frizzo alertou que as consequências da infecção materna são graves, as famílias carecem de apoio, e as crianças enfrentam uma sobrevida baixa. "Precisamos dessas políticas porque não sabemos se as infecções e os casos de microcefalia não podem aumentar novamente", afirmou.
Em julho de 2025, a lei 15.156 estabeleceu dois benefícios federais para pessoas com deficiência permanente decorrente da síndrome congênita associada ao zika: uma indenização por danos morais de R$ 50 mil em parcela única e uma pensão especial vitalícia mensal equivalente ao maior salário de benefício do Regime Geral de Previdência Social, com abono anual. Ainda assim, a pesquisadora enfatiza que benefícios financeiros não substituem protocolos de atendimento e políticas de saúde estruturadas.
Frizzo dedica-se a investigações sobre o impacto do zika na audição infantil desde o surgimento dos primeiros casos. Em 2017, organizou o Congresso Internacional de Microcefalia e Audição em Maceió. Atualmente, é colaboradora de um estudo financiado pelo National Institutes of Health que acompanhará aproximadamente 500 crianças cujas mães tiveram diagnóstico de infecção por zika mas que não desenvolveram a síndrome congênita. Iniciado em 2024 e com duração prevista de cinco anos, o estudo já está em seu segundo ano e revelou algo preocupante: mesmo entre crianças expostas ao vírus sem diagnóstico formal da síndrome, há atraso de desenvolvimento de linguagem e discriminação auditiva. "Se considerarmos que o vírus ainda circula no país, esse é um assunto muito sério, de muito impacto social, que exige nossa atenção", concluiu Frizzo.
Notable Quotes
As consequências são graves em termos de desenvolvimento auditivo e linguístico. Há uma imaturidade e um padrão atípico dos componentes relacionados à discriminação auditiva.— Ana Cláudia Figueiredo Frizzo, professora de Fonoaudiologia da Unesp
Precisamos dessas políticas porque não sabemos se as infecções e os casos de microcefalia não podem aumentar novamente.— Ana Cláudia Figueiredo Frizzo