No Brasil, onde mais de 70% das crianças disponíveis para adoção são negras, uma pesquisa da PUC-Campinas revela que o desejo por crianças brancas opera como um filtro silencioso e sistemático nas filas de adoção — um racismo que não se nomeia, mas que decide destinos. A cartilha produzida por estudantes de Direito documenta como preferências raciais, somadas a fatores como idade e histórico institucional, prolongam a espera de crianças negras por uma família. Diante dessa realidade, o Judiciário e pesquisadores propõem caminhos estruturais: educação antirracista, campanhas inclusivas e formaç
Estudo expõe racismo velado nas filas de adoção; crianças negras aguardam mais por família
Crianças negras seguem sendo as que mais aguardam por uma família
O que exatamente significa "racismo velado" nesse contexto de adoção? Como ele funciona diferente do racismo explícito?
É aquele que não se anuncia. Ninguém diz "não quero criança negra". Mas quando você analisa os formulários, vê pessoas marcando todas as opções de raça menos a negra. É uma exclusão que se disfarça de preferência pessoal, de querer uma criança que "combine com a família". A estrutura do sistema permite isso sem que ninguém precise verbalizar o preconceito.
E por que crianças negras esperam mais? É só pela cor da pele ou tem outros fatores?
A cor é o filtro principal, mas se acumula com outras coisas. Essas crianças tendem a ser mais velhas, muitas têm irmãos, passaram mais tempo em acolhimento. Cada característica reduz as chances. É como se o sistema tivesse construído barreiras múltiplas que atingem desproporcionalmente crianças negras.
Os números mostram que 70% das crianças disponíveis são negras, mas a maioria dos pretendentes quer brancas. Como isso é possível?
Porque há muito menos crianças brancas no sistema. Elas são adotadas rapidamente. As negras ficam. E quanto mais tempo uma criança fica esperando, mais velha fica, o que reduz ainda mais as chances. É um ciclo que se perpetua.
A pesquisa menciona que juízes e psicólogos falam sobre "preparo psicológico". O que isso significa na prática?
Significa conversar com os pretendentes sobre por que eles têm essas preferências, desmistificar ideias sobre adoção, e discutir abertamente o racismo. Alguns pretendentes dizem que têm medo de que a criança negra sofra racismo. É um medo real, mas que acaba virando desculpa para não adotar.
Qual é a esperança aqui? O que a cartilha propõe que poderia mudar isso?
Políticas públicas estruturadas. Cursos preparatórios com educação antirracista, campanhas que valorizem diversidade, formação continuada dos profissionais. Não é sobre convencer pessoas individualmente. É sobre mudar o sistema para que ele não reproduza essas desigualdades automaticamente.
El Pulso
- Mais de 70% das crianças aptas à adoção no Brasil são negras, mas a maioria dos pretendentes busca crianças brancas — uma contradição que deixa vidas em espera indefinida.
- O racismo não aparece declarado nos formulários, mas se revela em escolhas como marcar todas as raças disponíveis, exceto a negra, ou exigir crianças que 'se pareçam com a família'.
- Crianças negras acumulam desvantagens: além da cor da pele, tendem a ser mais velhas, têm irmãos e carregam históricos longos de acolhimento institucional, reduzindo ainda mais suas chances.
- Entre 2019 e 2023, adoções de crianças pretas subiram de 6% para 13% — um avanço real, mas insuficiente diante de uma disparidade que permanece estrutural.
- O Judiciário reconhece o problema e aponta saídas: cursos preparatórios com foco antirracista, campanhas públicas pela diversidade racial e formação continuada de profissionais do sistema de Justiça.
No Brasil, onde mais de 70% das crianças disponíveis para adoção são negras, uma pesquisa da PUC-Campinas revela que o desejo por crianças brancas opera como um filtro silencioso e sistemático nas filas de adoção — um racismo que não se nomeia, mas que decide destinos. A cartilha produzida por estudantes de Direito documenta como preferências raciais, somadas a fatores como idade e histórico institucional, prolongam a espera de crianças negras por uma família. Diante dessa realidade, o Judiciário e pesquisadores propõem caminhos estruturais: educação antirracista, campanhas inclusivas e formação de profissionais — porque o que está em jogo não é apenas uma preferência, mas a reprodução silenciosa da desigualdade.
Uma pesquisa lançada pela PUC-Campinas expõe um problema que opera nas sombras do sistema de adoção brasileiro: a preferência racial que decide quem conquista uma família e quem permanece esperando. A cartilha 'Perfis Desejados: O Racismo Velado nas Filas de Adoção', produzida por estudantes da Faculdade de Direito, documenta como crianças negras enfrentam barreiras invisíveis mas sistemáticas, enquanto pretendentes continuam buscando majoritariamente crianças brancas.
Os números revelam uma desproporção difícil de ignorar: mais de 70% das crianças disponíveis para adoção são negras, mas o interesse dos pretendentes se concentra em perfis brancos. O fenômeno não é verbalizado abertamente — funciona como um filtro silencioso. Em formulários analisados, futuros pais marcaram todas as opções de raça, exceto a negra. Outros justificam a preferência dizendo querer crianças que 'se pareçam com a família', frase que, na prática, opera como barreira racial.
A cor da pele não é o único obstáculo. Crianças negras tendem a ser mais velhas, muitas têm irmãos e passaram por longos períodos em acolhimento institucional — características que se acumulam e reduzem ainda mais suas chances. A pesquisadora Waleska Miguel Batista destacou que quase 80% das crianças em acolhimento são negras, enquanto apenas 2% são pardas. Houve avanço: em 2019, apenas 6% das adoções envolviam crianças pretas; em 2023, o número subiu para 13%. Mas a disparidade permanece enorme.
Psicólogos e assistentes sociais relatam que muitos pretendentes manifestam receio de que a criança negra 'sofra racismo' — temor que, segundo o estudo, acaba sendo usado como justificativa para evitar essas adoções, transformando uma preocupação legítima em barreira. A cartilha propõe respostas estruturais: fortalecer cursos preparatórios com educação antirracista, ampliar campanhas pela diversidade racial, estimular a adoção de crianças mais velhas e grupos de irmãos, e oferecer formação continuada a profissionais do sistema de Justiça. O estudo deixa claro que não se trata de preferências individuais isoladas, mas de um sistema que reproduz desigualdades raciais de forma tão naturalizada que raramente é nomeada.
Uma pesquisa lançada pela PUC-Campinas na quinta-feira passada traz à luz um problema que persiste nas sombras do sistema de adoção brasileiro: a preferência racial que molda quem consegue uma família e quem fica esperando. A cartilha "Perfis Desejados: O Racismo Velado nas Filas de Adoção", produzida por estudantes da Faculdade de Direito, documenta como crianças negras enfrentam barreiras invisíveis mas sistemáticas para serem adotadas, enquanto casais continuam buscando principalmente crianças brancas.
Os números revelam uma desproporção gritante. Mais de 70% das crianças disponíveis para adoção no país são negras, mas o interesse majoritário dos pretendentes se concentra em perfis brancos. O fenômeno não é explícito nem verbalizado abertamente. Funciona como um filtro silencioso, naturalizado, que os pesquisadores identificaram como "racismo velado". Em alguns formulários analisados, futuros pais marcaram todas as opções de raça disponíveis, exceto a negra. Outros justificam a preferência dizendo que querem crianças que "se pareçam com a família", uma frase que, na prática, opera como barreira racial.
Mas a cor da pele não é o único obstáculo. Crianças negras disponíveis para adoção tendem a ser mais velhas, muitas têm irmãos, e várias passaram por períodos longos em acolhimento institucional. Essas características se acumulam, reduzindo ainda mais suas chances. Waleska Miguel Batista, uma das pesquisadoras responsáveis, destacou a importância de mapear essa realidade. Os dados a surpreenderam: quase 80% das crianças e adolescentes em acolhimento institucional são negros, enquanto apenas 2% são pardos. A maioria dos pretendentes, porém, busca crianças brancas, o grupo com menor representatividade nesses espaços.
Houve avanço, mas insuficiente. Em 2019, apenas 6% das adoções envolviam crianças pretas. Em 2023, o número subiu para 13%. O crescimento existe, mas a disparidade permanece enorme. Crianças negras continuam sendo as que mais aguardam por uma família, enquanto o desequilíbrio entre oferta e demanda de perfis raciais persiste no Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento.
O Poder Judiciário reconhece o problema. A Lei 12.010/2009, que atualizou o Estatuto da Criança e do Adolescente, prevê campanhas de estímulo à adoção inter-racial justamente para enfrentar essa desigualdade. Juízes e equipes técnicas afirmam que o preparo psicológico é essencial para desmistificar a "idealização" da adoção e discutir o papel do racismo na formação das famílias. Psicólogos e assistentes sociais que acompanham pretendentes relatam que muitos manifestam receio de que a criança negra "sofra racismo". Esse temor, segundo o estudo, acaba sendo usado como justificativa para evitar essas adoções, transformando uma preocupação legítima em barreira.
A cartilha propõe ações estruturais para enfrentar o problema. Recomenda fortalecer os cursos preparatórios para adoção com foco em educação antirracista, ampliar campanhas públicas que valorizem a diversidade racial, estimular a adoção de crianças mais velhas e grupos de irmãos, e oferecer formação continuada a profissionais do sistema de Justiça sobre os impactos do racismo na infância. Waleska enfatiza que esses incentivos devem vir por meio de políticas públicas estruturadas. O que o estudo deixa claro é que essa não é uma questão de preferências individuais isoladas, mas de um sistema que reproduz desigualdades raciais de forma tão naturalizada que raramente é nomeada.
Citas Notables
A maioria dos pretendentes busca crianças brancas, o grupo com menor representatividade nesses espaços— Waleska Miguel Batista, pesquisadora responsável pelo estudo
O preparo psicológico é essencial para desmistificar a idealização da adoção e discutir o papel do racismo na formação das famílias— Juízes e equipes técnicas do Poder Judiciário