Seis décadas de dados sobre a umidade terrestre revelam uma trajetória inquietante: até o final deste século, mais de 40% da superfície do planeta poderá ser classificada como árida ou semiárida. O Brasil, com sua vastidão continental e a riqueza singular de seus biomas, figura entre os territórios mais expostos a esse processo de secamento progressivo — uma transformação que não ameaça apenas paisagens, mas a própria disponibilidade de água para milhões de pessoas. Diante desse horizonte, cientistas de dois hemisférios unem esforços para decifrar como as florestas tropicais respiram, absorvem
Estudo de 60 anos alerta: Brasil pode enfrentar aridez significativa até 2100
O Brasil pode enfrentar transformações significativas nos próximos 75 anos
Por que o Brasil aparece tão destacado nesse estudo? Não é um país tropical, com muita água?
Justamente por isso. O Brasil tem uma dimensão continental e biomas muito diversos — Amazônia, Cerrado, Caatinga, Pantanal. Uma mudança no regime climático não afeta tudo igual. Algumas regiões podem secar muito mais do que outras.
Mas o estudo diz que a expansão global é menor do que previsões anteriores apontavam. Como isso se encaixa com o Brasil estar entre os mais vulneráveis?
Porque vulnerabilidade não é sobre o número global. É sobre como a mudança se distribui. O Brasil pode ter uma parcela pequena da expansão global, mas essa parcela pode ser concentrada em regiões que já são sensíveis.
O que significa exatamente essa projeção de 40%? Quer dizer que 40% do Brasil vai virar deserto?
Não. Significa que 40% da superfície terrestre será classificada como árida ou semiárida até 2100. Inclui áreas que já são assim. A mudança real é de 1,7 pontos percentuais globalmente.
E como eles sabem disso? Estamos falando de projeções até 2100. Qual é a margem de erro?
O estudo considerou diferentes cenários de emissão de gases. Quanto maior a emissão, maior a aridez. Mas sim, há incerteza. Por isso os pesquisadores estão estudando as florestas tropicais — para melhorar os modelos.
Qual é a importância da Amazônia nisso tudo?
A Amazônia é complexa demais para ignorar. É quente, úmida, biodiversa, e responde de formas que ainda não entendemos completamente às mudanças de temperatura e carbono. Se você quer prever o clima global, precisa entender a Amazônia.
Mas o INPA estuda a Amazônia há 30 anos. Se ainda há tanta incerteza, quanto tempo vai levar para melhorar as previsões?
Essa é a questão. A colaboração com o Laboratório Lawrence Berkeley começou há uma década justamente porque os modelos precisam ser refinados. Não é um problema que se resolve rápido.
Il Polso
- Um estudo publicado na Environmental Research Letters projeta expansão de 2,37 milhões de km² em zonas áridas globais no pior cenário de emissões, colocando o Brasil em estado de alerta científico.
- O país é apontado como um dos mais vulneráveis do mundo, ao lado da Austrália e do norte da África, devido à sua escala continental e à diversidade de biomas que reagem de formas distintas ao estresse hídrico.
- A mudança não será uniforme: o que ameaça a Amazônia difere profundamente do que pressiona o semiárido nordestino ou o cerrado, tornando o desafio de adaptação ainda mais complexo.
- Uma parceria de quase uma década entre o Laboratório Lawrence Berkeley e o INPA busca aprimorar os modelos climáticos globais a partir do estudo detalhado das florestas tropicais e sua interação com atmosfera e carbono.
- Pesquisadores alertam que prever o comportamento climático em escala planetária permanece uma tarefa de alta complexidade, pois atmosfera, solo, oceanos e vegetação estão em contínua e imprevisível interação.
Seis décadas de dados sobre a umidade terrestre revelam uma trajetória inquietante: até o final deste século, mais de 40% da superfície do planeta poderá ser classificada como árida ou semiárida. O Brasil, com sua vastidão continental e a riqueza singular de seus biomas, figura entre os territórios mais expostos a esse processo de secamento progressivo — uma transformação que não ameaça apenas paisagens, mas a própria disponibilidade de água para milhões de pessoas. Diante desse horizonte, cientistas de dois hemisférios unem esforços para decifrar como as florestas tropicais respiram, absorvem e respondem a um clima em mutação.
Um grupo de cientistas que examinou sessenta anos de registros sobre a umidade do planeta chegou a uma conclusão que coloca o Brasil em posição de atenção redobrada. Publicado em setembro na revista Environmental Research Letters, o estudo projeta que as regiões áridas e semiáridas podem ultrapassar 40% da superfície terrestre até 2100 — ante os cerca de 38,58% registrados entre 1994 e 2023. No cenário de emissões mais elevadas, a expansão chegaria a 2,37 milhões de quilômetros quadrados.
Embora esse crescimento seja menor do que algumas projeções anteriores sugeriam, os pesquisadores são enfáticos: a mudança não se distribuirá de forma homogênea. Certas regiões sofrerão um processo de secamento muito mais intenso, e o Brasil está entre elas — ao lado da Austrália e do norte da África. A preocupação com o país é amplificada por sua dimensão continental e pela pluralidade de seus biomas. O que ocorre na Amazônia pode ser radicalmente diferente do que se passa no semiárido nordestino ou no cerrado, tornando os impactos sobre a água e a vegetação difíceis de generalizar.
Para enfrentar essa incerteza, uma colaboração de quase uma década entre o Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, na Califórnia, e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, em Manaus, busca aprofundar o entendimento sobre como as florestas tropicais interagem com a atmosfera e o carbono. O INPA monitora a biomassa amazônica há mais de trinta anos, oferecendo uma base de dados rara sobre as transformações desse bioma. A parceria nasceu da necessidade de alimentar modelos climáticos globais com dados mais precisos sobre os processos que ocorrem nas regiões mais complexas e biologicamente ricas do planeta.
Os pesquisadores reconhecem que antecipar o comportamento do clima em escala global continua sendo um desafio formidável. Atmosfera, solo, oceanos e vegetação estão interligados e respondem de maneiras por vezes surpreendentes. A projeção de 40% de áreas áridas não significa que regiões hoje úmidas se tornarão desertos — mas aponta para transformações significativas nos próximos 75 anos, com consequências reais para a disponibilidade de água e as condições de vida em boa parte do território brasileiro.
Cientistas que analisaram seis décadas de dados sobre a umidade do planeta chegaram a uma conclusão que coloca o Brasil em posição de alerta. Um estudo publicado em setembro na revista Environmental Research Letters projeta que as regiões áridas e semiáridas do mundo podem ocupar mais de 40% da superfície terrestre até o final deste século — um aumento significativo em relação aos aproximadamente 38,58% que essas áreas representavam entre 1994 e 2023.
A pesquisa considerou diferentes cenários de emissão de gases de efeito estufa para fazer suas projeções até 2071-2100. No cenário de maiores emissões, a estimativa chega a 40,28% da superfície terrestre, o que representaria uma expansão de cerca de 2,37 milhões de quilômetros quadrados comparado ao período de referência. Embora esse crescimento seja menor do que algumas previsões anteriores indicavam, os pesquisadores identificaram que a mudança não será distribuída uniformemente pelo planeta. Certas regiões enfrentarão um processo de secamento muito mais intenso do que outras.
O Brasil aparece entre os territórios mais vulneráveis a essas transformações, acompanhado pela Austrália e pelo norte da África. A preocupação com o país é particularmente aguda pela sua dimensão continental e pela diversidade de seus biomas. Uma alteração persistente no regime climático pode produzir efeitos muito diferentes de acordo com cada região, modificando não apenas as paisagens naturais, mas também a disponibilidade de água e as condições para a vegetação. O que acontece em uma região amazônica pode ser completamente distinto do que ocorre no semiárido nordestino ou no cerrado central.
Para compreender essas transformações futuras, cientistas estão aprofundando o estudo de como a atmosfera, a vegetação e o carbono interagem entre si. Uma colaboração de cerca de uma década entre o Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, na Califórnia, e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), em Manaus, busca ampliar o conhecimento sobre o funcionamento das florestas tropicais e sua influência nos modelos climáticos globais. O INPA acompanha a biomassa da floresta amazônica há mais de 30 anos, fornecendo dados extensos sobre as mudanças observadas naquele bioma. A parceria surgiu justamente da necessidade de aprimorar a compreensão dos processos que alimentam as previsões climáticas em escala planetária.
As florestas tropicais ocupam uma posição estratégica nesse desafio porque reúnem algumas das condições ambientais mais complexas do planeta. São regiões quentes e úmidas, com enorme diversidade biológica e uma dinâmica particularmente sensível às alterações de temperatura, disponibilidade de água e concentração de dióxido de carbono. Compreender como essas florestas respondem a mudanças ambientais é fundamental para melhorar as previsões climáticas globais.
Apesar do avanço das ferramentas de observação e dos modelos computacionais disponíveis, antecipar com precisão o comportamento do clima em escala planetária continua sendo uma tarefa complexa. Os dados utilizados pelos pesquisadores precisam representar sistemas que interagem continuamente: atmosfera, solo, oceanos, vegetação e circulação de água estão todos conectados e podem responder de maneiras diferentes às mudanças ambientais. É importante notar que a projeção de 40% de áreas áridas e semiáridas não significa que 40% das áreas atualmente úmidas deixarão de ser assim. O percentual representa a parcela total da superfície terrestre que será classificada como árida ou semiárida, incluindo regiões que já apresentam essas características. Ainda assim, a magnitude da mudança esperada — especialmente em regiões como o Brasil — aponta para transformações significativas nos próximos 75 anos.
Citazioni salienti
Uma alteração persistente no regime climático pode produzir efeitos diferentes de acordo com a região, modificando paisagens, disponibilidade hídrica e condições para a vegetação— Pesquisadores do estudo