No Brasil, onde a epidemia de HIV ainda atinge desproporcionalmente jovens e populações marginalizadas, um estudo da Fiocruz publicado na The Lancet HIV oferece uma resposta científica a um problema antigo: a dificuldade humana de manter rituais diários de proteção. O cabotegravir injetável, aplicado a cada dois meses, alcançou cobertura preventiva de 90,8% entre 1.201 participantes no SUS, contra 35,5% da pílula diária — uma diferença que não fala apenas de farmacologia, mas de como os sistemas de saúde podem se adaptar à vida real das pessoas. A decisão sobre sua incorporação ao sistema públ
Estudo da Fiocruz comprova eficácia da PrEP injetável com 90,8% de adesão
90,8% de cobertura preventiva contra apenas 35,5% com comprimidos
Por que essa diferença tão grande entre 90,8% e 35,5%? O que explica que a injeção funcione tão melhor?
A PrEP oral exige que você tome um comprimido todos os dias, sempre na mesma hora, para manter níveis de proteção no sangue. Na vida real, especialmente para jovens, isso é difícil — viagens, festas, esquecimento. A injeção bimestral elimina esse problema. Você vai ao serviço a cada dois meses, recebe a aplicação, e está protegido.
Mas espera — esses 90,8% e 35,5% medem coisas diferentes, certo? Um é dias cobertos pela prevenção, o outro é... o quê exatamente? Preciso entender se estamos comparando a mesma coisa.
Ótima observação. São métricas de cobertura preventiva — basicamente, em quantos dias do acompanhamento a pessoa estava protegida. Com a injeção, você fica protegido por dois meses após cada aplicação. Com o oral, só se tomar regularmente.
E as três infecções no grupo do cabotegravir — isso significa que a injeção não é 100% eficaz?
Nenhuma prevenção é 100%. Mas a taxa de 0,20 por 100 pessoas ao ano é muito mais baixa que 1,48 na PrEP oral. A diferença é que com a injeção, quando você está protegido, está realmente protegido. Com o oral, a proteção depende de você estar tomando regularmente.
Mas o estudo comparou grupos que escolheram um ou outro método. Não é um ensaio clínico randomizado. Pode haver diferenças entre quem escolhe injeção e quem escolhe comprimido — comportamento, risco, outras coisas. Isso afeta como interpretamos os números?
Sim, é um ponto válido. Por isso o estudo foi desenhado como implementação híbrida, não como ensaio clínico puro. Ele mostra como funciona na prática real do SUS, com pessoas que escolhem o método que preferem.
Quando a Conitec vai decidir?
A expectativa é outubro, segundo o Ministério da Saúde. Mas a comissão precisa analisar custo, impacto orçamentário, evidências científicas — não é só sobre eficácia.
E quanto custa o cabotegravir? O governo negociou preço, mas qual é? Isso importa muito para a decisão de incorporação.
O ministro disse que chegaram a um preço "considerado adequado", mas o número específico não foi divulgado publicamente. Faz parte da negociação comercial.
A PrEP oral vai desaparecer?
Não. Continua disponível gratuitamente. A injeção é uma opção a mais, não uma substituição. Algumas pessoas podem preferir o comprimido, outras a injeção.
The Pulse
- Com apenas 3 infecções registradas entre usuários do cabotegravir contra 18 no grupo da PrEP oral, os dados revelam uma lacuna de proteção que o modelo atual do SUS não consegue fechar.
- A adesão de 92% às injeções bimestrais expõe a fragilidade do comprimido diário: a disciplina cotidiana é, ela mesma, uma barreira de acesso que o sistema precisava reconhecer.
- O estudo foi desenhado para o mundo real — seis capitais, serviços públicos, populações de maior risco — tornando suas evidências diretamente aplicáveis à política pública, não apenas ao laboratório.
- O governo já negociou preço com o fabricante e enviou proposta à Conitec, mas a incorporação ainda depende de análise formal de custo-efetividade e impacto orçamentário.
- A expectativa é que a Conitec coloque o tema em pauta em outubro, com o estudo da Fiocruz servindo como principal subsídio científico para a decisão.
No Brasil, onde a epidemia de HIV ainda atinge desproporcionalmente jovens e populações marginalizadas, um estudo da Fiocruz publicado na The Lancet HIV oferece uma resposta científica a um problema antigo: a dificuldade humana de manter rituais diários de proteção. O cabotegravir injetável, aplicado a cada dois meses, alcançou cobertura preventiva de 90,8% entre 1.201 participantes no SUS, contra 35,5% da pílula diária — uma diferença que não fala apenas de farmacologia, mas de como os sistemas de saúde podem se adaptar à vida real das pessoas. A decisão sobre sua incorporação ao sistema público aguarda avaliação formal da Conitec, prevista para outubro.
Pesquisadores do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas da Fiocruz publicaram esta semana na The Lancet HIV um estudo que reposiciona o debate sobre prevenção do HIV no Brasil. Em vez do comprimido diário já disponível no SUS, o trabalho testou o cabotegravir — um antirretroviral injetável aplicado a cada dois meses — em condições reais de atendimento público, com 1.201 participantes recrutados em seis capitais entre outubro de 2023 e setembro de 2024.
Os resultados foram expressivos. Usuários do cabotegravir tiveram 90,8% dos dias de acompanhamento cobertos pela prevenção, contra 35,5% entre quem usava a PrEP oral. Na prática, isso se traduziu em apenas 3 novas infecções pelo HIV no grupo injetável — incidência de 0,20 caso por 100 pessoas ao ano — frente a 18 infecções no grupo oral, com incidência mais de sete vezes maior. A adesão às aplicações bimestrais chegou a 92%, mostrando que o modelo funcionou bem na rotina dos serviços públicos.
O estudo foi desenhado especificamente para avaliar a tecnologia em contexto real, não laboratorial, e focou em homens gays, pessoas não binárias e homens e mulheres trans entre 18 e 30 anos — os grupos com maior exposição ao HIV no país. Esse desenho híbrido, que combina efetividade clínica com análise de implementação, produz evidências mais diretamente aplicáveis a decisões de política pública.
O cabotegravir já tem aprovação da Anvisa desde 2023. Em julho, durante a Conferência Internacional de Aids no Rio, o ministro Alexandre Padilha anunciou acordo de preço com o fabricante. Em agosto, o Ministério da Saúde enviou proposta à Conitec, que encerrou consulta pública no mesmo mês. A expectativa é que o tema entre na pauta da comissão em outubro. A PrEP oral continuará disponível gratuitamente — a injeção surge como alternativa, não substituta, especialmente para quem enfrenta dificuldades com a adesão diária.
Pesquisadores brasileiros publicaram nesta semana na revista The Lancet HIV um estudo que muda o cenário da prevenção do HIV no país. O trabalho, conduzido pelo Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas da Fiocruz, testou uma forma completamente diferente de oferecer proteção contra o vírus: em vez de comprimidos diários, uma injeção aplicada a cada dois meses.
O medicamento é o cabotegravir, um antirretroviral de ação prolongada que funciona como profilaxia pré-exposição — ou PrEP, na sigla em inglês. Entre 1.201 participantes recrutados em seis capitais brasileiras entre outubro de 2023 e setembro de 2024, os números foram expressivos. Quem recebeu as injeções de cabotegravir teve 90,8% dos dias de acompanhamento cobertos pela prevenção. Para comparação, entre os que usaram a PrEP oral disponível atualmente no SUS — aquela que exige tomar um comprimido todos os dias — esse índice caiu para 35,5%. A diferença reflete uma realidade conhecida: é muito mais fácil manter a adesão a uma injeção bimestral do que a um medicamento que depende de disciplina diária.
Os resultados práticos foram ainda mais contundentes. Durante o período de acompanhamento, que se estendeu até outubro de 2025, apenas três novas infecções pelo HIV foram registradas entre os usuários do cabotegravir. Isso corresponde a uma incidência de 0,20 caso por 100 pessoas ao ano. No grupo que usava a PrEP oral, foram 18 novas infecções, com incidência de 1,48 caso por 100 pessoas ao ano — mais de sete vezes maior. Além disso, 92% das injeções foram aplicadas dentro do prazo previsto, demonstrando que o sistema funcionou bem na prática cotidiana do SUS.
O estudo foi desenhado especificamente para avaliar como a tecnologia se comportaria em condições reais de atendimento público, não apenas em ambientes controlados de laboratório. Os participantes foram recrutados entre homens gays e outros homens que fazem sexo com homens, pessoas não binárias e homens e mulheres trans, com idades entre 18 e 30 anos — justamente os grupos com maior risco de exposição ao HIV no Brasil. A pesquisa combinou análise de efetividade com avaliação de como o medicamento se integrava à rotina dos serviços de saúde, um modelo híbrido que fornece evidências mais robustas para decisões de política pública.
O cabotegravir já foi aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária em 2023, mas sua incorporação ao SUS ainda depende de avaliação formal. Em julho deste ano, durante a Conferência Internacional de Aids no Rio de Janeiro, o ministro da Saúde Alexandre Padilha anunciou que o governo havia negociado um preço considerado adequado com o fabricante. Em agosto, o Ministério enviou à Conitec — a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS — uma proposta para avaliação. A comissão abriu consulta pública que terminou no fim de agosto, e conforme apurado junto ao Ministério da Saúde, a expectativa é que o tema entre em pauta nas reuniões mensais da Conitec em outubro.
A decisão sobre incorporação ainda passa por etapas formais. A Conitec precisa analisar as evidências científicas, os custos e o impacto orçamentário antes de apresentar uma recomendação ao Ministério da Saúde. O estudo da Fiocruz servirá como subsídio fundamental para essa avaliação. É importante notar que a PrEP oral continuará disponível gratuitamente no SUS — a injeção não substitui, mas oferece uma alternativa para quem tem dificuldade em manter a adesão diária. Também vale lembrar que nenhuma forma de PrEP protege contra outras infecções sexualmente transmissíveis, razão pela qual deve ser usada como parte de uma estratégia combinada que inclua preservativos, testagem regular e acompanhamento de saúde.
Notable Quotes
O estudo fornece evidências sobre a possibilidade de incorporar a tecnologia à rotina dos serviços de saúde brasileiros— Pesquisadores do INI/Fiocruz