Geoquímico da Universidade de Calgary argumenta que fontes hidrotermais antigas não eram tão alcalinas nem ricas em enxofre quanto se imaginava. Lagos e poças evaporativas na superfície terrestre primitiva oferecem condições mais consistentes para reações químicas que geraram RNA, proteínas e lipídios.
Estudo contesta teoria das fontes oceânicas como berço da vida
Hipóteses sobre fontes hidrotermais estão tão enraizadas que deixamos de questioná-las
Por que essa pesquisa importa agora? A teoria das fontes hidrotermais não vinha funcionando bem há décadas?
Funcionava bem demais, na verdade. Tornou-se tão aceita que ninguém questionava mais. Mas Tutolo percebeu que os modelos se baseavam em premissas sobre a química das fontes antigas que não resistem ao escrutínio atual.
Espera — ele está dizendo que os dados sobre as fontes modernas foram coletados de forma errada? Ou que as fontes antigas eram diferentes?
Ambas as coisas. Os fluidos das fontes modernas são menos alcalinos quando medidos nas profundezas do que quando chegam à superfície. E há evidências de que as fontes antigas provavelmente eram ainda menos alcalinas e praticamente sem enxofre.
E isso muda tudo porque o gradiente químico é o motor da hipótese?
Exatamente. Sem aquele contraste de acidez funcionando como bateria, o mecanismo que supostamente desencadeou a vida não funciona.
Mas os lagos evaporativos — há evidências de que reações químicas importantes ocorriam ali? Ou é uma alternativa que ainda precisa ser testada?
Há estudos mostrando que RNA, proteínas e lipídios poderiam ser produzidos nesses ambientes. Mas é justo dizer que a hipótese das fontes hidrotermais teve 50 anos de investigação intensa. Os lagos estão começando agora.
E quanto à vida em outros mundos? Isso muda completamente a estratégia de busca?
Potencialmente sim. Se não procurarmos em Marte pelas profundezas, mas pelas superfícies com ciclos de evaporação, estamos olhando para lugares completamente diferentes.
Tutolo disse que isso o torna mais pessimista sobre vida extraterrestre. Mas não é porque a vida é menos provável — é porque os lugares onde procuramos podem estar errados?
Isso mesmo. A vida pode ser tão provável quanto antes. Só que talvez estejamos procurando no lugar errado.
O Pulso
- Estudo liderado por Benjamin Tutolo, geoquímico da Universidade de Calgary, publicado na PNAS
- Fontes hidrotermais antigas eram provavelmente menos alcalinas e praticamente desprovidas de enxofre
- Lagos evaporativos na superfície primitiva ofereceriam condições mais consistentes para reações que geraram RNA, proteínas e lipídios
- Descoberta de fontes hidrotermais no fundo do oceano ocorreu na década de 1970; campo Lost City foi encontrado em 2000
Geoquímico da Universidade de Calgary argumenta que fontes hidrotermais antigas não eram tão alcalinas nem ricas em enxofre quanto se imaginava. Lagos e poças evaporativas na superfície terrestre primitiva oferecem condições mais consistentes para reações químicas que geraram RNA, proteínas e lipídios.
Pesquisa publicada na PNAS contesta a teoria de que a vida surgiu em fontes hidrotermais oceânicas, sugerindo lagos evaporativos como alternativa mais plausível.
A origem da vida na Terra pode ter começado não nas chaminés quentes do fundo do oceano, como gerações de cientistas vêm supondo, mas em lagos rasos e poças que secavam sob o sol da Terra primitiva. Um novo estudo publicado na revista PNAS, liderado pelo geoquímico Benjamin Tutolo da Universidade de Calgary, desafia uma das ideias mais consolidadas da ciência moderna — a de que as fontes hidrotermais oceânicas foram o berço da vida.
A hipótese das fontes hidrotermais ganhou força há décadas, especialmente após a descoberta desses ambientes extremos no fundo do oceano na década de 1970. Quando cientistas encontraram ecossistemas inteiros florescendo em condições que pareciam impossíveis, a lógica era sedutora: se a vida prospera ali agora, talvez tenha começado ali também. O achado do campo Lost City em 2000, com suas chaminés de carbonato que ofereciam calor, alcalinidade e hidrogênio, pareceu confirmar a teoria. O argumento central era elegante — a diferença de acidez entre o oceano primitivo e os fluidos alcalinos das fontes funcionaria como uma bateria química, fornecendo energia para as reações que desencadearam os primeiros componentes da vida.
Mas Tutolo identificou um problema fundamental: o conhecimento atual sobre esses ambientes não sustenta as premissas que sustentam a hipótese. As fontes hidrotermais antigas provavelmente não eram tão alcalinas nem tão ricas em enxofre quanto os modelos assumem. Mais importante ainda, os níveis elevados de alcalinidade observados em fluidos coletados das fontes modernas foram medidos depois que chegaram à superfície. Nas temperaturas e pressões extremas do fundo do oceano, esses mesmos fluidos seriam significativamente menos alcalinos. Isso significa que o gradiente químico de prótons — essencial para algumas versões da hipótese — pode nunca ter existido da forma que os cientistas imaginavam.
Tutolo descreveu o problema com clareza ao ScienceAlert: "Hipóteses sobre fontes hidrotermais estão tão enraizadas em nossa cultura que muitos de nós já não as questionamos." Ele argumenta que enquanto os detalhes químicos desses sistemas demoraram anos para serem compreendidos, as hipóteses sobre fontes alcalinas continuaram evoluindo, afastando-se gradualmente do que as evidências realmente mostravam. Para o pesquisador, os problemas são tão fundamentais que essas hipóteses precisam voltar à prancheta.
Em seu lugar, Tutolo propõe uma alternativa que merece investigação séria: lagos e poças evaporativas na superfície da Terra primitiva. Estudos mostram que reações capazes de produzir RNA, proteínas e lipídios — os blocos de construção da vida — poderiam ocorrer nesses ambientes. Diferentemente das fontes oceânicas, esses lagos ofereceriam condições mais consistentes com as evidências atuais sobre a química da Terra primitiva.
A implicação estende-se além do nosso planeta. Se as fontes hidrotermais não forem tão favoráveis quanto se imaginava, a estratégia de procurar ambientes semelhantes em Marte ou nas luas geladas do Sistema Solar pode estar equivocada. Tutolo, que se descreve como uma pessoa otimista, admitiu ao ScienceAlert que esse trabalho o leva a ser "muito mais pessimista sobre as perspectivas de vida em outras partes do Universo". Há, porém, uma saída: lagos evaporativos podem existir nas superfícies de outros planetas e luas. A busca por vida extraterrestre, portanto, pode precisar desviar o olhar das profundezas e focar em ambientes aquáticos que passaram por ciclos de evaporação — um reajuste fundamental na forma como a ciência procura por nossos vizinhos cósmicos.
Citações Notáveis
Hipóteses sobre fontes hidrotermais estão tão enraizadas em nossa cultura que muitos de nós já não as questionamos— Benjamin Tutolo, geoquímico da Universidade de Calgary
Esse trabalho indica que deveríamos ser muito mais pessimistas sobre as perspectivas de vida em outras partes do Universo— Benjamin Tutolo, ao ScienceAlert