Fundador do MBL, Renan prometeu segurança pública radical com frases como 'vamos matar quem roubar' e confrontou abertamente Lula e Flávio Bolsonaro. O candidato do Missão recebeu apoio do mercado financeiro e até elogios da revista The Economist, enquanto enfrentava decisões judiciais controversas do TSE e STF.
Estreia do Missão: Renan Santos faz campanha radical com ataques a Lula e Flávio
Vou tirar Flávio do segundo turno e derrotar Lula
Como um partido completamente novo consegue colocar um candidato presidencial em campanha nacional em apenas um ano de existência?
O Missão aproveitou a estrutura e o capital político do MBL, que já tinha presença forte nas redes sociais e entre certos setores. Mas a verdade é que começaram do zero institucional — uma cadeira na Câmara, nenhuma máquina estatal.
Mas espera: quanto dinheiro de campanha ele realmente recebeu? A reportagem menciona apoio do mercado financeiro, mas não diz quanto foi doado ou como foi financiada a campanha.
Boa pergunta. A reportagem não detalha o financiamento. Sabemos que teve apoio de nomes como José Olympio Pereira e Tony Volpon, mas não há números de doações ou gastos de campanha.
E quanto àquelas frases radicais sobre "matar quem roubar"? Isso gerou reação legal ou política?
Não há registro na reportagem de processos ou ações legais contra essas declarações. O que houve foi a suspensão de sua candidatura pelo TSE por questão de redes sociais, não por discurso.
Exatamente. As polêmicas deram visibilidade, mas não sabemos se converteram em votos. Ele oscilava entre 3% e 4% — dentro da margem de erro. Pode ser que toda essa radicalidade tenha sido mais ruído que substância eleitoral.
É verdade. A reportagem mostra que ele foi notícia, mas não que tenha crescido nas pesquisas. O confronto aberto com Lula e Flávio pode ter alienado mais gente do que conquistado.
E o apoio da revista The Economist? Isso era significativo?
Era um sinal de que setores internacionais viam nele uma alternativa econômica. Mas The Economist é lida por elites, não por eleitores médios.
E não sabemos se esse editorial influenciou votos no Brasil. É mencionado como fato, mas sem contexto de impacto real.
Le Pouls
- Renan Santos, fundador do MBL, foi o primeiro candidato presidencial do Missão em 2026
- Oscilou entre 3% e 4% nas pesquisas Datafolha, dentro da margem de erro
- Recebeu apoio de nomes do mercado financeiro como José Olympio Pereira e Tony Volpon
- Teve candidatura suspensa pelo TSE em 30 de agosto, decisão revertida dois dias depois
- O Missão elegeu apenas uma cadeira na Câmara dos Deputados em sua estreia
Fundador do MBL, Renan prometeu segurança pública radical com frases como 'vamos matar quem roubar' e confrontou abertamente Lula e Flávio Bolsonaro. O candidato do Missão recebeu apoio do mercado financeiro e até elogios da revista The Economist, enquanto enfrentava decisões judiciais controversas do TSE e STF.
Renan Santos, candidato do Missão à presidência, marcou sua primeira campanha com discursos radicais, ataques aos principais adversários e postura antissistema, oscilando entre 3% e 4% nas pesquisas.
Renan Santos estreou como candidato presidencial em 2026 com uma campanha que não deixava dúvidas sobre sua disposição de confrontar o establishment político. Fundador do Movimento Brasil Livre, o militante concorria pela legenda do Missão, um partido criado apenas um ano antes, em setembro de 2025, e que disputava sua primeira eleição presidencial. Desde o lançamento de sua candidatura, Santos adotou um tom que misturava promessas de segurança pública radical com ataques diretos aos dois principais concorrentes: Lula, do PT, e Flávio Bolsonaro, do PL.
No campo da segurança, o candidato não usava rodeios. "Vamos matar quem roubar", afirmou no evento de lançamento, complementando com a promessa de "tingir o chão de vermelho com sangue". Essas declarações não eram exceção em sua campanha, mas o padrão. Santos mantinha um discurso repleto de xingamentos e críticas aos dois polos principais, apostando no confronto aberto como estratégia. Em um debate da Band em agosto, quando Lula e Flávio não compareceram, exibiu fraldas geriátricas com os nomes de ambos, chamando-os de medrosos. Em junho, havia declarado: "Vou tirar Flávio do segundo turno e derrotar Lula". Contra o senador, usava adjetivos como estúpido, fujão e vassalo de Donald Trump. Quando questionado sobre apoiar Flávio, respondeu que se fosse para "votar em bandido", votaria em Lula.
Apesar da visibilidade gerada por essas polêmicas, o desempenho eleitoral de Santos permanecia modesto. Nas pesquisas Datafolha, oscilava dentro da margem de erro de dois pontos percentuais, chegando a 4% em agosto e caindo para 3% na rodada divulgada no sábado anterior à eleição. A Folha acompanhou o candidato por dois dias no Pará em junho, observando sua estratégia de usar municípios afastados das capitais como laboratório de pré-campanha, com uma fórmula que combinava denúncia local, ataque a adversários e promessas de solução.
O apoio que Santos recebia vinha de setores específicos. Na Faria Lima, o mercado financeiro abraçava sua candidatura. José Olympio Pereira, ex-chefe em bancos como Credit Suisse e Safra, apoiou publicamente o candidato e o ajudou a abrir portas. Outros nomes conhecidos no setor, como Tony Volpon, ex-diretor do Banco Central, e João Landau, da Vista Capital, também engrossaram o apoio. Essa simpatia do setor financeiro reverberou no exterior: em editorial de setembro, a revista britânica The Economist chamou de sombria a escolha entre Lula e Flávio e identificou em Renan o candidato mais adequado nas questões envolvendo economia.
A campanha de Santos também se viu no centro de decisões judiciais controversas que, paradoxalmente, lhe deram mais visibilidade. Em 30 de agosto, o ministro do TSE Dias Toffoli determinou a suspensão de sua candidatura, apontando que a chapa havia demorado 12 dias para informar seus perfis em redes sociais à Justiça Eleitoral, o que teria dado vantagem indevida nos algoritmos das plataformas. A decisão foi revertida dois dias depois. O episódio forneceu munição para Santos subir o tom nas críticas contra o STF, acusando Toffoli de censura.
Antes e depois desse episódio, Santos mirou o Supremo Tribunal Federal de forma consistente. Defendeu afastar e prender ministros ligados ao caso Master, acusou-os de fazer negócios e disse que descumpriria decisão da corte que barrasse seu regime de exceção contra facções, uma de suas promessas de campanha. Na reta final do primeiro turno, o tribunal deu uma decisão favorável a ele: o ministro Gilmar Mendes determinou que participasse do debate na Rede Globo, que acabou cancelado.
O Missão, partido que abrigava a candidatura de Santos, era um movimento de juventude, conservador e com forte presença nas redes sociais. O MBL havia ganhado projeção ao liderar atos pelo impeachment de Dilma Rousseff. Quando o partido foi criado, Santos declarou à Folha que os membros do movimento estavam "se afastando da ideia do liberalismo inicial" e fundando um partido "no campo da direita altamente pragmático". A aproximação do MBL com Eduardo Cunha em 2015 — já investigado pela Lava Jato na época do impeachment — e a filiação de quadros do movimento a partidos do centrão levantavam dúvidas sobre quando exatamente esse pragmatismo havia entrado na ordem do dia. Na Câmara dos Deputados, a bancada do Missão estreou com apenas uma cadeira. Kim Kataguiri, outro fundador do MBL, havia trocado o União Brasil pelo partido durante a janela partidária e buscava a reeleição como deputado federal.
Citations marquantes
Vamos matar quem roubar— Renan Santos, no lançamento de sua candidatura
Estavam se afastando da ideia do liberalismo inicial e fundando um partido no campo da direita altamente pragmático— Renan Santos, à Folha, sobre a criação do Missão