Em um distrito litorâneo do Ceará, uma liderança religiosa ergueu, com recursos próprios e autorização do poder público, uma estátua de onze metros dedicada ao Diabo — monumento que, ao mesmo tempo em que celebra vinte e nove anos de uma casa de quimbanda, coloca em relevo a tensão permanente entre liberdade de crença, intolerância religiosa e os limites do Estado laico. O gesto, legal e documentado, convida a sociedade a refletir sobre quais fés merecem respeito e por quê.
Estátua de 11 metros do Diabo no Ceará custou R$ 100 mil de bolso próprio
Os demônios são bons, os demônios ajudam
Por que ela decidiu construir uma estátua tão grande, tão cara, justamente do Diabo?
Para ela, não é sobre o Diabo como símbolo do mal. Na quimbanda, essas entidades são vistas como seres que ajudam, que recebem com braços abertos quem precisa. A estátua é um ato de reverência e de visibilidade para uma fé que historicamente foi marginalizada e incompreendida.
E como uma coisa assim passa pela prefeitura? Não há resistência?
Há resistência social, sim — comentários preconceituosos nas redes. Mas legalmente, ela cumpriu tudo. Obteve autorização ambiental, autorização de construção, respeitou a legislação. A prefeitura deixou claro que está protegendo o direito constitucional à liberdade religiosa.
Ela parece estar preparada para o conflito.
Está. Ela já enfrentou isso antes, quando abriu a Casa dos Caixões em Fortaleza. Sabe que vai haver julgamento. Mas diz que sua comunidade a respeita, que mantém o respeito como valor central. E faz doações de carne e brinquedos — mostra que sua fé também é sobre cuidado.
A quimbanda é realmente tão antiga quanto ela sugere?
Ninguém sabe ao certo quando começou. Mas o nome vem dos curandeiros bantos, dos kimbanda das tribos. É uma prática ancestral, transmitida oralmente, sem livro sagrado. O que é recente é essa visibilidade — uma estátua de onze metros é difícil de ignorar.
E o que ela quer com tudo isso?
Evolução espiritual. Na quimbanda, o objetivo é não voltar a reencarnar neste mundo. A estátua, os rituais, as giras mensais — tudo aponta para isso. Ela quer que sua comunidade evolua espiritualmente e que a sociedade a respeite enquanto faz isso.
El Pulso
- Uma estátua de onze metros ao Diabo surge em área rural do Ceará, financiada inteiramente pela própria líder religiosa e aprovada por órgãos municipais e estaduais, desafiando o imaginário coletivo sobre o que pode ocupar o espaço público e privado.
- Nas redes sociais, onde Mãe Rainha das Trevas reúne quase oitocentos mil seguidores, a inauguração desencadeou uma enxurrada de ataques preconceituosos que ela compara a anos de hostilidade acumulada desde que abriu a Casa dos Caixões em Fortaleza.
- A líder responde aos críticos invocando a Constituição Federal e o princípio do Estado laico, lembrando que respeita outras crenças e exige o mesmo em troca — um argumento que expõe a seletividade com que a tolerância religiosa é aplicada no Brasil.
- A quimbanda, prática ancestral de origem banto centrada na evolução espiritual por meio de exus e pombagiras, permanece sem reconhecimento oficial como religião, o que a mantém vulnerável ao estigma de culto marginal associado ao mal.
- Com ações sociais mensais, doação de toneladas de carne e festas para crianças, a comunidade do Palácio Estrela Negra da Quimbanda constrói uma narrativa de pertencimento e solidariedade que contrasta com a imagem demonizada projetada sobre ela.
Em um distrito litorâneo do Ceará, uma liderança religiosa ergueu, com recursos próprios e autorização do poder público, uma estátua de onze metros dedicada ao Diabo — monumento que, ao mesmo tempo em que celebra vinte e nove anos de uma casa de quimbanda, coloca em relevo a tensão permanente entre liberdade de crença, intolerância religiosa e os limites do Estado laico. O gesto, legal e documentado, convida a sociedade a refletir sobre quais fés merecem respeito e por quê.
Na Taíba, distrito tranquilo de São Gonçalo do Amarante na região metropolitana de Fortaleza, uma estátua de onze metros dedicada ao Diabo foi inaugurada em vinte e cinco de julho, durante a celebração dos vinte e nove anos do Palácio Estrela Negra da Quimbanda. A obra custou cem mil reais, pagos integralmente por Mãe Rainha das Trevas, líder da casa religiosa, em terreno de sua propriedade.
O projeto foi assinado por um engenheiro civil, e todas as autorizações foram obtidas junto à prefeitura de São Gonçalo do Amarante e ao Governo do Estado — necessárias porque o templo se localiza numa Área de Proteção Ambiental, as Dunas do Litoral Oeste. A Secretaria de Meio Ambiente e Urbanismo municipal confirmou que a construção respeitou integralmente a legislação vigente e reafirmou o compromisso do município com a liberdade de crença garantida pela Constituição Federal.
Mãe Rainha das Trevas afirma que a estátua é a maior do mundo dedicada ao Diabo, embora não haja registro oficial que confirme a declaração. O templo abre suas portas ao público uma vez por mês para giras, sessões e rituais, reunindo entre duzentas e trezentas pessoas. Nas redes sociais, a inauguração gerou tanto apoio quanto ataques preconceituosos — hostilidade que, segundo ela, não é novidade, e remonta à época em que mantinha a Casa dos Caixões no bairro Montese, em Fortaleza.
Em resposta aos críticos, a líder invoca o princípio do Estado laico e pede reciprocidade no respeito às diferenças religiosas. Paralelamente, sua comunidade realiza ações sociais regulares: doação anual de toneladas de carne dos animais sacrificados nos rituais e uma festa no Dia das Crianças com centenas de brinquedos.
A quimbanda, prática de origem banto que não possui reconhecimento oficial como religião no Brasil, é frequentemente associada ao mal por desconhecimento. Mestres da tradição explicam que se trata, na verdade, de um culto ancestral voltado à evolução espiritual, cujo objetivo central é libertar o praticante do ciclo de reencarnações — entendido como um processo de sofrimento — para que ele ascenda ao mundo espiritual na forma de exus e pombagiras.
Na Taíba, um distrito tranquilo de São Gonçalo do Amarante na região metropolitana de Fortaleza, ergue-se uma estátua de onze metros de altura dedicada ao Diabo. A construção custou cem mil reais — dinheiro que saiu integralmente do bolso de quem a encomendou, uma mulher que se identifica como Mãe Rainha das Trevas e lidera o Palácio Estrela Negra da Quimbanda. Ela foi clara sobre a origem dos recursos: tudo veio de seu próprio patrimônio, em terreno que lhe pertence, numa propriedade particular onde ela mesma obteve as autorizações necessárias junto à prefeitura.
Um engenheiro civil assinou o projeto. Mãe Rainha das Trevas não revelou quanto tempo levou para que o monumento ficasse pronto, mas enfatizou que cumpriu todos os trâmites burocráticos exigidos. A prefeitura de São Gonçalo do Amarante confirmou, por meio de sua Secretaria de Meio Ambiente e Urbanismo, que a construção respeitou a legislação ambiental e urbanística vigente. Como o templo se localiza numa Área de Proteção Ambiental — as Dunas do Litoral Oeste — a autorização também passou pelo Governo do Estado, pela Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Mudança do Clima. O município reafirmou seu compromisso com a legalidade e com o respeito à liberdade de crença, direito fundamental garantido pela Constituição Federal.
A inauguração aconteceu em vinte e cinco de julho, durante uma cerimônia que celebrou os vinte e nove anos da casa religiosa. Mãe Rainha das Trevas afirmou que a estátua é a maior do mundo dedicada ao Diabo — uma informação que não possui registro oficial que a confirme. Ela disse ter se informado sobre o assunto antes de fazer a declaração. O templo fica numa área rural, cercado por sítios, ruas de areia e brisa do mar, e abre suas portas ao público uma vez por mês para as giras, sessões e rituais religiosos, além de festas mensais em homenagem às entidades cultuadas. Entre duzentas e trezentas pessoas participam desses eventos.
Nas redes sociais, onde acumula quase oitocentos mil seguidores, Mãe Rainha das Trevas compartilhou imagens da inauguração. Os comentários foram mistos: apoio de pessoas com fé semelhante e ataques preconceituosos. Ela respondeu aos críticos lembrando que vive num país laico onde tem direito à liberdade religiosa e à liberdade de professar aquilo em que acredita. Pediu que as pessoas respeitassem sua fé, assim como ela respeita as crenças diferentes da sua. Os comentários hostis, disse ela, não começaram com a estátua — começaram anos atrás, quando ela abriu a Casa dos Caixões, um local pintado de preto com quatro caixões dentro, no bairro Montese em Fortaleza, onde morou durante quatro anos antes de se mudar para a propriedade na Taíba.
Apesar dos ataques virtuais, ela afirmou não temer vandalismo. Sua comunidade conhece sua fé e a respeita, disse. Mãe Rainha das Trevas também mencionou suas ações sociais: anualmente doa toneladas de carne — frango, boi e bode — dos animais sacrificados nos rituais, e realiza uma festa no Dia das Crianças com centenas de brinquedos doados.
A quimbanda, a prática religiosa que ela segue, não é reconhecida oficialmente como religião. É classificada como um culto a entidades como exus e pombagiras, com fundamentos transmitidos oralmente, sem um livro específico que rege as regras, diferentemente da Bíblia, do Alcorão ou da Torá. Barok, um Tata N'ganga de Quimbanda brasileira — uma espécie de mestre ritualista e sacerdote supremo — explicou que a quimbanda é frequentemente vista como um culto marginalizado, associado ao mal. Mas isso, segundo ele, é uma visão preconceituosa. A quimbanda é, na verdade, um culto ancestral onde se busca evolução espiritual.
O nome da prática foi tomado emprestado dos povos bantos, onde existiam curandeiros das tribos chamados de kimbanda — justamente os curadores que praticavam magia para curar. Um dos pilares principais é a crença na reencarnação, mas na quimbanda esse processo é encarado como um castigo espiritual, um ciclo de morte e retorno à terra onde se experimenta dor, emoção e sofrimento. O objetivo dos praticantes é evoluir espiritualmente dentro da religião para não precisar voltar a este mundo, aspirando a se tornarem exus e pombagiras no mundo espiritual.
Citas Notables
A verba foi toda tirada do meu próprio bolso. Eu fiz ela toda com dinheiro próprio, num local próprio, que é meu— Mãe Rainha das Trevas
Eu vivo num país laico, onde eu tenho o direito à liberdade religiosa, de professar aquilo que eu acredito— Mãe Rainha das Trevas