Em meio ao processo de liquidação do Banco Master, o liquidante Eduardo Felix Bianchini estendeu o alcance de sua investigação até os estaleiros alemães Lürssen, fabricante do superiate Nixie — uma embarcação de 350 milhões de euros que passou pelas mãos do banqueiro Daniel Vorcaro antes de sua prisão. Valendo-se do Chapter 15 do código de falências americano, a liquidação busca rastrear fluxos financeiros internacionais que possam revelar a extensão das operações do grupo Master. O episódio ilustra como investigações de insolvência modernas atravessam fronteiras com crescente eficácia, transf
Estaleiro alemão Lürssen é intimado a depor sobre negócios com Vorcaro no caso Master
O liquidante pede que a Lürssen forneça dados de transação com Vorcaro
Por que um estaleiro alemão está sendo intimado a depor sobre negócios de um banqueiro brasileiro?
Porque a liquidação do Banco Master está sendo processada nos Estados Unidos, e o liquidante tem poder legal para buscar documentos e depoimentos de qualquer empresa que possa ter feito negócios com as pessoas envolvidas no caso — mesmo que essa empresa seja estrangeira.
E o iate tem algo a ver com isso?
O iate é um símbolo do que está sendo investigado. Vorcaro o possuiu em algum momento, e agora está em mãos de outro bilionário. Mas a intimação não pede especificamente sobre o navio — pede sobre todas as transações entre a Lürssen e Vorcaro ou pessoas ligadas ao banco.
Por que a Lürssen se recusa a falar?
É política corporativa deles. Mas também é comum empresas não comentarem sobre investigações em andamento. Falar poderia criar problemas legais ou prejudicar sua reputação.
Isso significa que Vorcaro comprou o iate com dinheiro do banco?
Não necessariamente. A intimação está tentando descobrir exatamente isso — se houve transferências de fundos do banco ou de pessoas ligadas a ele para a Lürssen. É uma investigação, não uma acusação.
E os outros nomes na lista — eles também compraram coisas caras?
Não sabemos. A intimação quer saber se qualquer uma dessas pessoas fez negócios com a Lürssen. Alguns negam qualquer relação. Outros não responderam.
Qual é o próximo passo?
A Lürssen terá de responder à intimação ou enfrentar consequências legais. Se entregar os documentos, eles podem revelar fluxos de dinheiro que ajudem a entender como recursos foram movimentados entre o banco e ativos no exterior.
The Pulse
- O liquidante do Banco Master acionou um mecanismo legal americano para intimar o estaleiro alemão Lürssen a entregar documentos sigilosos sobre negócios com o banqueiro Daniel Vorcaro.
- O superiate Nixie, avaliado em R$ 2,1 bilhões, tornou-se símbolo da investigação — uma embarcação de luxo que mudou de mãos três vezes em meio a prisões, congelamentos de bens e disputas judiciais internacionais.
- A Lürssen recusou-se a comentar se cumpriu a intimação, enquanto a defesa de Vorcaro permanece em silêncio, deixando o processo avançar sem resposta pública dos principais envolvidos.
- O escopo da investigação se expande para além do Banco Master, alcançando o LetsBank, o Banco Master de Investimentos e a Master Corretora, além de seis ex-executivos com bens congelados pelo Banco Central.
- Alguns investigados negam qualquer vínculo com o estaleiro, mas o silêncio de outros alimenta a incerteza sobre o destino dos fluxos financeiros rastreados pela liquidação.
Em meio ao processo de liquidação do Banco Master, o liquidante Eduardo Felix Bianchini estendeu o alcance de sua investigação até os estaleiros alemães Lürssen, fabricante do superiate Nixie — uma embarcação de 350 milhões de euros que passou pelas mãos do banqueiro Daniel Vorcaro antes de sua prisão. Valendo-se do Chapter 15 do código de falências americano, a liquidação busca rastrear fluxos financeiros internacionais que possam revelar a extensão das operações do grupo Master. O episódio ilustra como investigações de insolvência modernas atravessam fronteiras com crescente eficácia, transformando um estaleiro europeu em testemunha involuntária de uma crise financeira brasileira.
O estaleiro alemão Lürssen, conhecido por fabricar alguns dos maiores supériates do mundo, recebeu uma intimação do liquidante do Banco Master, Eduardo Felix Bianchini, exigindo documentos e depoimentos sobre possíveis transações com Daniel Vorcaro e outras pessoas ligadas à instituição financeira em colapso. A ordem foi expedida em 15 de junho, com prazo até 2 de julho, e se apoia no Chapter 15 do código de falências americano — mecanismo que permite ao responsável por uma liquidação estrangeira buscar informações dentro do território dos Estados Unidos.
No centro da trama está o Nixie, superiate de mais de 102 metros fabricado pela própria Lürssen. A embarcação, equipada com piscina de vidro suspensa, heliponto e terraços à beira-mar somando 270 metros quadrados, foi originalmente encomendada pelo empresário canadense Patrick Dovigi, depois vendida a Vorcaro. Com a prisão do banqueiro em novembro de 2025, Dovigi recomprou o iate e o revendeu a Nik Storonsky, fundador da fintech Revolut. O negócio gerou uma disputa judicial com a corretora britânica Cecil Wright & Partners, que reclama comissão de 17,5 milhões de euros por ter sugerido a compra.
Curiosamente, o Nixie não é mencionado diretamente na intimação. O liquidante pede à Lürssen informações amplas sobre contratos, transferências financeiras, extratos bancários e acordos envolvendo Vorcaro e um grupo de ex-executivos do Master com bens congelados pelo Banco Central — entre eles Maurício Quadrado, Luiz Antonio Bull, Reinaldo Hossepian, Felipe Simonsen e Armando Gallo. A investigação se estende ainda ao LetsBank, ao Banco Master de Investimentos e à Master Corretora.
A Lürssen recusou-se a comentar se cumpriu a ordem. Alguns dos investigados negaram qualquer relação comercial com o estaleiro, mas outros permaneceram em silêncio, deixando em aberto questões sobre a extensão dos fluxos financeiros que a liquidação tenta rastrear além das fronteiras brasileiras.
O estaleiro alemão Lürssen recebeu uma intimação para entregar documentos e indicar executivos dispostos a depor sobre possíveis transações comerciais com Daniel Vorcaro e outras pessoas vinculadas ao Banco Master. A ordem partiu de Eduardo Felix Bianchini, liquidante da instituição financeira, como parte do processo de liquidação que tramita nos Estados Unidos.
A intimação foi expedida em 15 de junho, com prazo até 2 de julho para entrega dos documentos. Quando a Folha procurou o estaleiro para saber se a empresa cumpriu a ordem, a Lürssen recusou-se a comentar, invocando sua política corporativa de não se pronunciar sobre o assunto. A defesa de Vorcaro também não respondeu aos questionamentos.
O mecanismo legal por trás dessa intimação é o Chapter 15 do código de falências americano. Quando um processo de insolvência estrangeiro recebe aprovação da Justiça dos Estados Unidos, o responsável pela liquidação no exterior ganha autoridade para buscar informações e documentos dentro do território americano. Por meio de seus advogados, esse representante pode solicitar intimações a empresas ou pessoas que detenham registros ou bens relevantes para a investigação.
O iate Nixie, fabricado pela Lürssen, tornou-se peça central nessa trama. Conforme reportado pelo Financial Times, a embarcação foi inicialmente encomendada pelo empresário e ex-jogador canadense Patrick Dovigi, depois vendida a Vorcaro. Quando o banqueiro foi preso em novembro de 2025, Dovigi recomprou o superiate e posteriormente o revendeu a Nik Storonsky, fundador da fintech Revolut. O navio, avaliado em 350 milhões de euros — aproximadamente 2,1 bilhões de reais pela cotação atual — tornou-se objeto de disputa judicial entre Storonsky e a corretora britânica Cecil Wright & Partners, que alega ter sugerido a compra e reclama comissão de 17,5 milhões de euros.
O Nixie é uma embarcação de mais de 102 metros de comprimento, equipada com piscina de vidro parcialmente suspensa, heliponto e um dos maiores beach clubs já instalados pela Lürssen — quatro terraços somando 270 metros quadrados de área de convivência à beira-mar. O sistema de propulsão é diesel-elétrico com armazenamento de energia.
Interessantemente, o iate não é mencionado na intimação. O liquidante solicita à Lürssen informações sobre transações ou negócios com Vorcaro e outras pessoas ligadas ao caso Master. Os documentos pedidos incluem contratos, acordos, cartas de intenção, registros de transferências de dinheiro ou bens, cheques, avisos de transferência eletrônica, extratos bancários e comprovantes de depósito.
O escopo da investigação vai além do Banco Master. A intimação abrange também o LetsBank — que integrava o grupo e foi liquidado pelo Banco Central — o Banco Master de Investimentos e a Master Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários. A Lürssen deve informar se realizou negócios ou recebeu recursos de pessoas cujos bens foram congelados pelo Banco Central brasileiro. Além de Vorcaro, a lista inclui Maurício Quadrado, ex-sócio do Master; Luiz Antonio Bull, ex-diretor de Compliance; Reinaldo Hossepian, ex-diretor do Letsbank; Felipe Simonsen, ex-sócio; e Armando Gallo, também ex-sócio.
Quando procurados, alguns dos investigados negaram qualquer vínculo com o estaleiro. A defesa de Luiz Antonio Bull afirmou que ele desconhece os fatos relatados e nunca foi comunicado sobre procedimentos relacionados. As assessorias de Maurício Quadrado e Reinaldo Hossepian disseram que os executivos nunca tiveram relação comercial nem realizaram transação alguma com a Lürssen. Felipe Simonsen e Armando Gallo não responderam aos contatos da reportagem.
Notable Quotes
A Lürssen recusou-se a comentar, invocando sua política corporativa de não se pronunciar sobre o assunto— Estaleiro Lürssen
Maurício Quadrado e Reinaldo Hossepian nunca tiveram relação comercial nem realizaram qualquer transação com a Lürssen— Assessorias dos executivos