Conteúdos sobre emagrecimento e suplementação viralizam em redes sociais sem filtro científico, frequentemente produzidos por pessoas sem qualificação profissional. Pacientes chegam aos consultórios com convicções formadas pela internet, dificultando o trabalho dos médicos em desconstruir ideias incorretas e apresentar tratamentos adequados.
Especialistas alertam para riscos de orientações nutricionais em redes sociais
Qualquer pessoa pode usar uma rede social e falar qualquer bobagem ali
Por que as redes sociais se tornaram tão perigosas para orientações sobre saúde? Não era para ser um espaço de compartilhamento?
Porque não há filtro. Qualquer pessoa pode postar qualquer coisa. Um influenciador com boa oratória consegue transmitir segurança mesmo sem formação técnica. Para quem assiste, aquilo parece autoridade.
Mas espera — quantas pessoas realmente estão deixando de ir ao médico por causa disso? O artigo fala em "muitos casos", mas não dá números. É uma tendência real ou uma preocupação teórica?
É uma preocupação que os especialistas estão vendo nos consultórios. Pacientes chegam com convicções formadas pela internet, cheios de suplementos. Luiz Luna relata isso regularmente.
E qual é o risco mais grave?
Quando alguém com uma doença já instalada deixa de procurar ajuda médica. Ou quando usa medicamentos para emagrecimento sem supervisão — podem perder massa muscular, ter problemas cardiovasculares, comprometer a saúde óssea.
As medicações que vocês mencionam — liraglutida, semaglutida — essas têm indicações legítimas, certo? O problema é o uso sem supervisão?
Exatamente. Elas só devem ser usadas em casos específicos, com IMC acima de 30 ou acima de 27 com comorbidades. Sem acompanhamento, o paciente só vê o número na balança e não percebe que está perdendo músculo.
E as crianças? O artigo menciona transtornos alimentares.
A exposição constante a imagens de corpos "ideais" — muitas delas fake, feitas com IA ou editadas — cria uma percepção distorcida. Isso aumenta o risco de transtornos alimentares e problemas psicológicos.
Mas o artigo não diz quantas crianças estão desenvolvendo transtornos por causa disso. É correlação ou causalidade comprovada?
É um risco identificado pelos especialistas. Não há números específicos no artigo, mas a preocupação é legítima.
Então qual é a solução?
Mais profissionais qualificados ocupando as redes sociais. Educação da população para verificar credibilidade. E responsabilidade compartilhada — imprensa, escolas, famílias.
Quem vai fazer isso? Os médicos têm tempo para estar no TikTok? E como você compete com alguém que promete resultado em 30 dias?
Essa é a questão. Não é fácil. Mas é necessário.
El Pulso
- Medicamentos como liraglutida, semaglutida e tirzepatida só devem ser prescritos para pacientes com IMC acima de 30 ou acima de 27 com comorbidades associadas
- Pacientes chegam aos consultórios com quantidades excessivas de suplementos, representando risco de hepatite medicamentosa
- XXX Congresso Brasileiro de Nutrologia ocorreu de 24 a 26 de setembro em São Paulo
- Marcella Garcez Duarte atua na medicina há mais de 40 anos, dos quais mais de 20 na nutrologia
Conteúdos sobre emagrecimento e suplementação viralizam em redes sociais sem filtro científico, frequentemente produzidos por pessoas sem qualificação profissional. Pacientes chegam aos consultórios com convicções formadas pela internet, dificultando o trabalho dos médicos em desconstruir ideias incorretas e apresentar tratamentos adequados.
Profissionais de saúde alertam sobre disseminação de informações nutricionais não comprovadas em redes sociais, que podem levar à automedicação e substituição de atendimento médico por orientações da internet.
As redes sociais se tornaram um consultório paralelo — um espaço onde qualquer pessoa com um jaleco, uma câmera e uma boa oratória pode prescrever dietas, vender suplementos e prometer transformações corporais rápidas. O problema, segundo especialistas reunidos no XXX Congresso Brasileiro de Nutrologia em São Paulo no final de setembro, é que essa facilidade de acesso a conteúdos sobre alimentação, emagrecimento e suplementação está levando pessoas a substituir avaliações médicas profissionais por orientações encontradas na internet — com riscos reais para a saúde.
Marcella Garcez Duarte, nutróloga e diretora da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran), observa que o fenômeno da "nutrologia de rede social" preocupa justamente porque o alcance do conteúdo não acompanha necessariamente o conhecimento de quem o produz. Uma pessoa com boa comunicação pode transmitir segurança mesmo sem formação técnica suficiente. Para o público leigo, essa aparência de autoridade torna difícil distinguir informação confiável de especulação. "Às vezes, na rede social, as pessoas colocam 'doutor' na frente, um jalequinho, e quem assiste já pensa que é médico. Às vezes a pessoa não é nem profissional de saúde, mas aquilo cai na rede social e muitas vezes viraliza", afirma Garcez. Diferentemente dos canais de mídia tradicionais, que mantêm controle editorial e compromisso com a verdade, as redes sociais aceitam qualquer informação sem filtro.
O desafio começa no consultório. Luiz Luna, membro da Câmara Técnica de Nutrologia do Conselho Regional de Medicina da Paraíba, relata que pacientes chegam com ideias pré-formadas pela internet, frequentemente carregando quantidades excessivas de suplementos. Em alguns casos, o excesso de princípios ativos representa risco de hepatite medicamentosa. "É muito difícil desconstruir uma ideia que o paciente traz achando que é a correta", diz Luna. Garcez concorda: no consultório, o profissional muitas vezes precisa primeiro desfazer uma convicção criada na internet antes de conseguir apresentar uma estratégia de tratamento adequada.
Mais preocupante ainda é quando pessoas com patologias já instaladas deixam de procurar atendimento médico para seguir dicas de redes sociais. Garcez, que atua na medicina há mais de 40 anos, dos quais mais de 20 na nutrologia, alerta: "Estamos observando muitos casos de pessoas que buscam nessas informações disponíveis nas redes soluções para eventuais patologias. Elas deixam de procurar assistência médica e passam a seguir dicas de internet, colocando a saúde em grande risco". A automedicação e a autossuplementação são particularmente perigosas quando envolvem medicamentos para emagrecimento usados fora de indicação clínica. Luna explica que medicações como liraglutida, semaglutida e tirzepatida — incretinas de alta potência — só devem ser prescritas para pacientes com IMC acima de 30 ou acima de 27 quando há alterações associadas ao excesso de gordura corporal, como colesterol LDL elevado, esteatose hepática, apneia do sono ou hipogonadismo. "Usar medicação para tratar a obesidade sem acompanhamento médico é dar um tiro no próprio pé", alerta. O uso inadequado pode levar à perda de massa muscular, comprometimento da saúde óssea, aumento do risco de quedas e fraturas, perda de cognição e desfechos cardiovasculares ruins.
Outro risco emerge da exposição permanente a imagens de corpos considerados ideais, especialmente entre crianças e adolescentes. Parte dessas imagens é modificada digitalmente ou produzida com inteligência artificial — irreais e praticamente impossíveis de alcançar. Garcez alerta que essa exposição pode contribuir para percepção distorcida da realidade e aumentar o risco de transtornos alimentares e problemas psicológicos. Luna também chama atenção para conteúdos que estimulam o uso de hormônios e anabolizantes. Ele relata atender pacientes que usam essas substâncias para ganhar massa muscular ou modificar a aparência, frequentemente induzidos por promessas milagrosas nas redes. Entre as mulheres, o uso de oxandrolona associada a testosterona pode provocar androgenização — engrossamento da voz, queda de cabelo, acne, aumento de pelos — além de consequências cardiovasculares e metabólicas como hipertensão e aumento do coração.
Os especialistas enfatizam que não existem fórmulas milagrosas. A obesidade é uma doença multifatorial com componentes metabólicos, endocrinológicos, psicológicos e psiquiátricos. O tratamento adequado requer acompanhamento profissional que considere não apenas a redução de peso, mas a preservação da saúde geral. Garcez orienta que a primeira medida diante de qualquer recomendação encontrada na internet deve ser verificar quem está por trás da informação e se a qualificação apresentada é verdadeira — especialmente importante porque a falsa autoridade frequentemente se soma a interesses comerciais. Conteúdos sensacionalistas que prometem rejuvenescimento ou emagrecimento costumam estar associados à venda de suplementos ou outros produtos.
Para Garcez, o desafio é aumentar a presença de profissionais qualificados nas redes sociais. "Os espaços estão ocupados por influenciadores, coaches e pessoas, muitas vezes, mal-intencionadas", afirma. Médicos e outros profissionais com conhecimento científico precisam ocupar esses espaços de maneira ativa e oferecer informação qualificada. A responsabilidade, acrescenta, também envolve a imprensa, as escolas, as famílias e a educação da população para a verificação de informações — assim como fazem no jornalismo, a população precisa aprender a checar se a informação é adequada e se quem a produz é realmente aquilo que diz ser.
Citas Notables
Às vezes, na rede social, as pessoas colocam 'doutor' na frente, um jalequinho, e quem assiste já pensa que é médico. Às vezes a pessoa não é nem profissional de saúde, mas aquilo cai na rede social e muitas vezes viraliza.— Marcella Garcez Duarte, nutróloga e diretora da Associação Brasileira de Nutrologia
Usar medicação para tratar a obesidade, sobretudo as incretinas de alta potência, sem acompanhamento médico é dar um tiro no próprio pé.— Luiz Luna, membro da Câmara Técnica de Nutrologia do CRM-PB