No coração de uma periferia curitibana, uma escola pública transforma vulnerabilidade em aprendizado — e o Paraná, com ela, ascende ao topo da educação brasileira. O Colégio Estadual Milton Carneiro, no Alto Boqueirão, não é uma exceção isolada, mas o rosto visível de uma política que combina disciplina fiscal, alimentação, presença e oportunidade técnica. O que emerge desse retrato não é apenas um ranking, mas uma pergunta antiga sobre o que uma sociedade deve garantir às suas crianças mais expostas.
Escola periférica de Curitiba supera média nacional e reflete destaque do Paraná em educação
Sem busca ativa de lado, a gente perde
Como uma escola em bairro periférico consegue superar a média nacional em educação?
O Colégio Milton Carneiro combina várias estratégias: aulas extras de português e matemática dentro da carga horária regular, três refeições diárias, controle rigoroso de faltas e um programa federal que paga os alunos por frequência. Mas o mais importante é que a escola entende a realidade dos seus alunos — quase 80% vivem em comunidades pobres com casas que sofrem alagamentos.
Espera aí. Essas notas — 5,6 e 5,2 — são realmente altas? Acima da média nacional, sim, mas em termos absolutos, estamos falando de um desempenho que ainda deixa espaço para melhoria significativa.
E quanto aos custos? Como o estado consegue manter tudo isso?
O Paraná tem uma gestão fiscal robusta — dívida negativa, ou seja, consegue investir. Até setembro de 2026 foram empenhados R$ 7,77 bilhões em investimentos estruturantes. Mas isso não resolve tudo.
Exatamente. O texto deixa claro que municípios menores ainda enfrentam desafios com desigualdades regionais e custos de infraestrutura. O sucesso de Curitiba não é automático em todo o estado.
Então o Pé de Meia — aquele programa federal de R$ 200 mensais — faz diferença real?
Faz. Beneficiou 202.444 estudantes paranaenses em dois anos. Mas é um incentivo, não uma solução. O diretor da escola diz que às vezes o pai consegue uma diária de servente e leva o filho para ajudar, ganhando dobrado. O dinheiro do programa compete com necessidades imediatas da família.
E não sabemos o impacto exato do Pé de Meia isoladamente — ele funciona junto com tudo mais. Difícil atribuir o sucesso a um fator único.
Qual é o maior desafio que a escola ainda enfrenta?
A vulnerabilidade socioeconômica. Habitações precárias, trabalho infantil, instabilidade. O diretor diz que sem busca ativa constante, perdem alunos. É um trabalho de contenção tanto quanto de educação.
E isso não aparece nos números do Ideb. O índice mede aprendizagem, não o custo humano de manter essas crianças na escola.
Il Polso
- Alunos de comunidades com alagamentos e trabalho infantil superam a média nacional no Ideb — a escola funciona como dique contra o abandono.
- Quatro aulas extras por semana, três refeições diárias e ligações para famílias a cada três faltas revelam que a permanência escolar precisa ser ativamente conquistada, não presumida.
- O programa Pé de Meia já beneficiou mais de 200 mil estudantes paranaenses, transformando frequência em renda e renda em razão para ficar.
- Quase 40% dos alunos da rede estadual cursam ensino técnico integrado, ancorando o projeto de vida de jovens que, sem isso, poderiam escolher o papelão ao invés da sala de aula.
- Municípios menores ainda enfrentam desigualdades regionais e custos de infraestrutura elevados, lembrando que o primeiro lugar no ranking não apaga as margens do mapa.
No coração de uma periferia curitibana, uma escola pública transforma vulnerabilidade em aprendizado — e o Paraná, com ela, ascende ao topo da educação brasileira. O Colégio Estadual Milton Carneiro, no Alto Boqueirão, não é uma exceção isolada, mas o rosto visível de uma política que combina disciplina fiscal, alimentação, presença e oportunidade técnica. O que emerge desse retrato não é apenas um ranking, mas uma pergunta antiga sobre o que uma sociedade deve garantir às suas crianças mais expostas.
O Paraná ocupa o primeiro lugar nacional em educação no Ranking de Eficiência dos Estados da Folha, com nota geral de 0,734. O estado também se destaca em infraestrutura, saúde e segurança, sustentado por equilíbrio fiscal que viabilizou investimentos estruturantes ao longo dos últimos anos.
No bairro Alto Boqueirão, distante do centro de Curitiba, o Colégio Estadual Cívico-Militar Milton Carneiro carrega uma placa de "escola ouro" concedida pela Secretaria da Educação. Seus 680 alunos — a maioria moradora das comunidades pobres da Vila Pantanal e da Vila Nova — alcançaram 5,6 nos anos finais do ensino fundamental e 5,2 no ensino médio, superando as médias nacionais de 5,0 e 4,3. O diretor Christian Ricardo dos Santos percorre os corredores apontando banheiros reformados e reconhecendo o desgaste natural de décadas de uso.
O desempenho resulta de um conjunto articulado de medidas. A secretaria de Educação implementou a "recomposição de aprendizagem": quatro aulas adicionais semanais no terceiro ano do ensino médio, integradas ao horário regular, com alunos de melhor desempenho atuando como monitores. Três refeições diárias sustentam a permanência — lanche na chegada, buffet completo ao meio da manhã e lanche na saída. O controle rigoroso de faltas completa a estratégia: três ausências seguidas ou sete alternadas em três meses acionam o contato com a família.
A realidade socioeconômica é severa. Quase 80% dos alunos vivem em casas precárias sujeitas a alagamentos, e muitos acompanham os pais em diárias de serviço ou coleta de recicláveis. O programa federal Pé de Meia — R$ 200 mensais por frequência e R$ 1.000 por ano concluído — reforça o vínculo com a escola. Até abril de 2026, mais de 202 mil estudantes paranaenses já haviam sido beneficiados.
A oferta de cursos técnicos integrados ao ensino médio também combate o abandono: quase 40% dos alunos da rede estadual estão matriculados, com formações que variam conforme a vocação regional — gestão portuária no litoral, hotelaria em Foz do Iguaçu, indústria e tecnologia em Curitiba. O avanço paranaense é real, mas municípios menores ainda enfrentam desigualdades regionais e altos custos de infraestrutura — lembretes de que o primeiro lugar é um ponto de partida, não de chegada.
O Paraná conquistou o primeiro lugar nacional em educação segundo o Ranking de Eficiência dos Estados da Folha, com uma nota geral de 0,734. O estado também se destaca em infraestrutura (segundo lugar), saúde (terceiro) e segurança (quinto), sustentado por um equilíbrio fiscal robusto que permitiu investimentos estruturantes.
No bairro Alto Boqueirão, distante do centro de Curitiba, funciona uma escola que abriga 680 alunos e remonta aos anos 1980. O Colégio Estadual Cívico-Militar Milton Carneiro recebeu recentemente uma placa da Secretaria da Educação do Paraná reconhecendo seu status de "escola ouro" — distinção concedida pela nota obtida no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) de 2025. Seus alunos, em sua maioria moradores das comunidades pobres da Vila Pantanal e da Vila Nova, alcançaram 5,6 nos anos finais do ensino fundamental e 5,2 no ensino médio, superando a média nacional de 5,0 e 4,3, respectivamente. O diretor Christian Ricardo dos Santos percorre os corredores da instituição apontando os banheiros recém-reformados, reconhecendo que o prédio, embora grande e bem-mantido, carrega o desgaste natural de décadas.
O desempenho paranaense no Ideb, o mais alto entre as redes estaduais, resulta de um conjunto articulado de medidas. A secretaria de Educação implementou o que chama de "recomposição de aprendizagem": quatro aulas adicionais por semana no terceiro ano do ensino médio, duas de português e duas de matemática, integradas à carga horária regular de 30 horas semanais. Diferentemente do reforço escolar tradicional oferecido em turno separado, essa estratégia ocorre no mesmo período e envolve todos os alunos, com os estudantes que apresentam melhor desempenho atuando como monitores para colegas. O secretário da Educação, Roni Miranda, enfatiza que não existe uma solução única: "É um conjunto de ações. Ensino médio é um desafio para toda a educação brasileira."
Além das aulas adicionais, a permanência dos alunos é sustentada por três refeições diárias oferecidas pela escola. Os estudantes recebem um lanche ao chegar, um buffet próximo às 10 horas com arroz, feijão, carne e salada, e outro lanche ao sair. Miranda relata que inicialmente havia preocupação com desperdício, mas o processo se naturalizou e gerou economia, já que os alunos pegam apenas o que vão consumir. Christian reconhece a importância dessa alimentação: "A comunidade é carente e tem aluno que vem esperando a merenda." O controle rigoroso de faltas também integra a estratégia — com três ausências seguidas ou sete alternadas em três meses, a escola contata a família, reconhecendo que o abandono não ocorre de repente, mas através de sinais progressivos.
A realidade socioeconômica dos alunos é severa. Quase 80% deles vivem nas vilas Pantanal e Nova, em casas precárias que sofrem com alagamentos frequentes. Muitos pais trabalham com reciclagem ou aceitam diárias como serventes, e às vezes levam os filhos para ajudar, dobrando o ganho familiar. Empresas que distribuem papelão para reciclagem atraem essas famílias. Sem uma busca ativa constante pela permanência dos alunos, a escola perderia muitos deles. O programa federal Pé de Meia reforça esse esforço, oferecendo R$ 200 mensais por frequência e R$ 1.000 por ano concluído. Até abril de 2026, quando o programa completou dois anos, 202.444 estudantes paranaenses já tinham sido beneficiados.
A oferta de cursos técnicos integrados ao ensino médio também combate o abandono. Quase 40% dos alunos da rede estadual estão matriculados em ensino técnico, com cursos variando conforme a região: gestão portuária no litoral, hotelaria em Foz do Iguaçu, indústria e tecnologia em Curitiba, saúde e educação em todo o estado.
O destaque paranaense em educação se insere num contexto mais amplo de investimento público. Até setembro de 2026, foram empenhados R$ 7,77 bilhões para investimentos, a maior parte em obras estruturantes de rodovias e municípios. O estado mantém uma dívida negativa, ou seja, capacidade de quitar débitos e manter saldo positivo. Na área de saneamento, a estatal Sanepar atende 343 dos 399 municípios paranaenses e planeja antecipar a meta do Marco Legal do Saneamento Básico de 2033 para 2029. Atualmente, 82,9% da população atendida conta com rede coletora de esgoto, e a meta é atingir 90% até 2029, com investimentos superiores a R$ 13 bilhões. Trinta e seis cidades, como Maringá, Cascavel, Pinhais, Londrina e Curitiba, já ultrapassaram essa marca.
Contudo, municípios menores enfrentam desafios ligados a desigualdades regionais, alto custo de infraestrutura e exigências ambientais. O avanço educacional do Paraná, embora significativo, ainda convive com vulnerabilidades estruturais que demandam atenção contínua.
Citazioni salienti
É um conjunto de ações. Ensino médio é um desafio para toda a educação brasileira— Roni Miranda, secretário da Educação do Paraná
A comunidade é carente e tem aluno que vem esperando a merenda— Christian Ricardo dos Santos, diretor do Colégio Milton Carneiro