Tem muita gente boa, mas que não tem carisma, que não tem essa sedução
Em meio à incerteza sobre o futuro da esquerda brasileira, a deputada Erika Hilton nomeou em voz alta aquilo que muitos apenas sussurram: competência técnica não substitui carisma, e Lula construiu com o eleitorado um vínculo que não se herda por decreto. Ao mesmo tempo, ela defendeu o presidente dos ataques etaristas da oposição e anunciou pressão popular caso o Senado ignore o projeto que extingue a escala 6x1 — sinalizando que, na ausência de um sucessor natural, a mobilização nas ruas pode ser a linguagem política mais eficaz disponível.
- A esquerda enfrenta um paradoxo incômodo: tem quadros tecnicamente preparados, mas nenhum com a capacidade de sedução popular que Lula cultivou ao longo de décadas.
- A oposição tenta transformar os 80 anos do presidente em argumento político, mas Hilton rebateu com ironia — comparando a forma física de Lula favoravelmente à sua própria, aos 33 anos.
- O projeto que acaba com a escala 6x1 foi aprovado na Câmara e agora enfrenta a inércia do Senado, criando uma tensão entre expectativa popular e ritmo legislativo.
- Hilton ameaça convocar atos de rua no Amapá — estado do presidente do Senado, Davi Alcolumbre — caso a Casa não avance a proposta, escalando a pressão política.
- Na Parada LGBT+ da Paulista, multidões entoavam 'Erika, presidenta' — um sinal de que a própria deputada pode estar respondendo, na prática, à pergunta sobre sucessão que ela mesma colocou em debate.
Erika Hilton, deputada federal do PSOL por São Paulo, foi direta ao nomear o dilema que ronda a esquerda brasileira: há nomes competentes, tecnicamente sólidos, espalhados pelo campo progressista — mas falta o ingrediente que não se aprende em seminário algum. Carisma. Aquela capacidade de cativar a sociedade que Lula construiu ao longo de décadas e que vai muito além de qualquer currículo ou programa de governo.
A parlamentar também entrou em campo para defender o presidente dos ataques etaristas que a oposição tem mobilizado. Com humor e seriedade, citou a rotina de exercícios que Lula exibe nas redes sociais e fez uma comparação pessoal: aos seus 33 anos, ela própria não está em forma tão boa quanto o presidente aos 80. Para Hilton, usar a idade como argumento político é simplesmente ridículo.
Outra frente aberta foi a da escala 6x1. Com o projeto já aprovado na Câmara e parado no Senado, Hilton avisou que não vai esperar passivamente: se a Casa não avançar, ela promete mobilizações nas ruas, com atos específicos no Amapá — estado do presidente do Senado, Davi Alcolumbre. A deputada reconhece que a pauta favorece o ano eleitoral, mas recusa o rótulo de eleitoreira.
No domingo anterior, ela foi uma das figuras mais aguardadas na 30ª Parada LGBT+ na avenida Paulista. Do alto de um trio elétrico, vestida como odalisca, voltou a cobrar Alcolumbre pela votação. Enquanto isso, parte do público entoava um coro que ecoava pela avenida: 'Erika, presidenta'. O momento capturou algo essencial — uma deputada jovem mobilizando multidões em torno de pautas concretas, enquanto a esquerda ainda busca resposta para a pergunta que ela mesma colocou em cima da mesa.
Erika Hilton enfrenta uma questão que assombra a esquerda brasileira: como substituir Lula? A deputada federal do PSOL por São Paulo tem uma resposta incômoda. Em entrevista ao programa Frente a Frente, da Folha e do UOL, ela diagnosticou o problema com precisão cirúrgica. A esquerda, disse, possui nomes tecnicamente sólidos, quadros preparados e talentosos espalhados pelo campo progressista. O que falta é aquilo que não se ensina em seminário algum: carisma. Aquela capacidade de seduzir a sociedade, de cativar, de manter uma conexão que transcende programas e propostas.
"Não é fácil suceder Lula, porque tem muita gente boa, tecnicamente preparada, talentosa, mas que não tem carisma, que não tem essa sedução com a sociedade, que não é cativante aos olhos da sociedade", afirmou Hilton. O diagnóstico toca em algo que os estrategistas da esquerda já sussurram nos corredores: competência administrativa não é moeda de troca suficiente quando se trata de herança política. Lula construiu ao longo de décadas uma relação com o eleitorado que vai além do currículo.
Mas Hilton não veio apenas para falar de sucessão. Ela também saiu em defesa do presidente contra o que chamou de ataques etaristas vindos da direita. Com 80 anos, Lula virou alvo de críticas sobre sua idade, um argumento que a oposição tenta transformar em impedimento político. Hilton rebateu com uma observação que mistura humor e seriedade. Ela citou a rotina de exercícios que o presidente compartilha nas redes sociais e fez uma comparação pessoal: aos seus 33 anos, ela não está em forma tão boa quanto Lula aos 80. "O homem está até marombadinho, está musculoso, eu não tenho mais massa magra", disse, descrevendo o presidente como mais atlético que ela própria. Para Hilton, a tentativa de usar a idade como argumento político é simplesmente ridícula.
A conversa também tocou em uma pauta que ganhou força recente: o fim da escala 6x1. O projeto foi aprovado na Câmara dos Deputados e agora aguarda movimento no Senado. Hilton deixou claro que não vai esperar passivamente. Se a Casa não avançar a proposta, ela promete convocar mobilizações nas ruas e especificamente no Amapá, estado do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, da União Brasil. A deputada negou que a pauta seja meramente eleitoreira, embora reconheça que beneficiará o ano eleitoral. Mas ela colocou a questão em perspectiva: diante do histórico do pré-candidato que concorre com Lula, não parece que o presidente precise de pautas eleitoreiras para vencer.
No domingo anterior, Hilton foi uma das figuras mais aguardadas na 30ª Parada LGBT+ na avenida Paulista. Do alto de um trio elétrico, vestida como odalisca, ela voltou a cobrar Alcolumbre pela votação do projeto que acaba a escala 6x1. Enquanto isso, parte do público entoava um coro que ecoava pela avenida: "Erika, presidenta". O momento capturou algo da dinâmica política atual: uma deputada jovem, carismática, mobilizando multidões em torno de pautas concretas enquanto a esquerda ainda busca respostas para a pergunta que Hilton colocou em cima da mesa.
Notable Quotes
Não é fácil suceder Lula, porque tem muita gente boa, tecnicamente preparada, talentosa, mas que não tem carisma, que não tem essa sedução com a sociedade— Erika Hilton
A tentativa etarista de colocar a idade do presidente Lula como um impeditivo é algo ridículo— Erika Hilton
The Hearth Conversation Another angle on the story
Quando Hilton fala que falta carisma, ela está dizendo que a esquerda não tem ninguém capaz de vencer uma eleição presidencial?
Não exatamente. Ela está identificando um vazio específico. Há competência, há ideias, há capacidade administrativa. O que não há é aquela conexão quase mágica que Lula construiu com o eleitorado ao longo de 50 anos. É a diferença entre ser bom no cargo e ser amado pelo cargo.
Mas por que o carisma é tão importante se a esquerda tem propostas melhores?
Porque política não é só propostas. É também narrativa, esperança, identificação. Lula representa algo que vai além de um programa de governo. Ele é uma história. A esquerda tem técnicos, mas não tem heróis.
Hilton está se oferecendo como alternativa?
Ela não disse isso explicitamente, mas o contexto fala. Ela está na Parada LGBT+ com multidões gritando "Erika, presidenta". Ela tem carisma. Mas ela também tem 33 anos e é deputada federal, não presidente. O tempo dirá.
E quanto ao etarismo? Lula realmente está em melhor forma que a maioria?
Hilton estava sendo irônica, mas há verdade ali. Lula se exercita, compartilha isso publicamente, e aparenta saúde. A direita tenta transformar idade em fraqueza. Hilton virou isso de cabeça para baixo: a idade dele não é problema, o problema é que a direita precisa inventar problemas.
A escala 6x1 é realmente uma pauta progressista ou é eleitoreira?
É ambas as coisas. Toda pauta tem dimensão eleitoral. Mas isso não a torna menos real. Milhões de trabalhadores trabalham seis dias por semana. Aprovar o fim disso é concreto, não é retórica. Hilton está certa em dizer que não é só eleitoreiro.