Equipe de Flávio Bolsonaro quer encerrar única fábrica de chips do Brasil

Quanto o país deve investir em capacidade própria de semicondutores?
A declaração de Marques recoloca uma escolha industrial fundamental na disputa eleitoral brasileira.
Mark

Por que uma fábrica de chips com esses números financeiros — R$ 100 mil de receita contra R$ 80 milhões de custos — continua sendo defendida?

Mimi

Porque semicondutores não são um negócio comum. Países que perderam capacidade de fabricação ficam dependentes de importações. A Ceitec, mesmo deficitária, representa soberania tecnológica.

Luke

Mas precisamos ser claros: esses R$ 80 milhões são de quando? O relatório de 2024 mostra R$ 100 mil de faturamento. Não sabemos os custos atuais. Estamos comparando números de anos diferentes.

Mark

E o investimento de R$ 220 milhões anunciado — há garantia de que vai funcionar?

Mimi

Não há garantia. É uma aposta. O governo federal acredita que semicondutores de potência com carbeto de silício têm mercado. A meta é produção em escala até 2027.

Luke

Exatamente. É uma aposta com prazo. Se em 2027 a Ceitec não alcançar escala, o argumento de Marques fica muito mais forte. E se alcançar, talvez mude tudo.

Mark

Então a questão real é: quanto tempo e quanto dinheiro um país pode gastar em soberania tecnológica?

Mimi

E se consegue esperar. Porque a corrida global por chips não vai parar. Quem sair agora pode não conseguir voltar.

Luke

Verdade. Mas também é justo dizer que a Ceitec teve 16 anos para se tornar viável e não conseguiu. Isso também conta.

  • A proposta de encerrar a Ceitec reacende uma disputa que já levou a empresa à beira da dissolução em 2020 — e que agora retorna ao centro do debate eleitoral.
  • Os números são difíceis de ignorar: custos operacionais estimados em R$ 80 milhões anuais contra um faturamento de apenas R$ 100 mil em 2024, ano de suposta retomada.
  • O governo Lula reverteu a liquidação em 2023 e anunciou R$ 220 milhões para modernizar a fábrica, apostando em semicondutores de carbeto de silício para aplicações de eficiência energética.
  • Enquanto isso, o mundo trata chips como questão de soberania — e o Brasil precisa decidir se quer sentar à mesa ou depender de outros para fabricar os componentes que movem sua economia e sua defesa.

Em meio a uma corrida global por autonomia tecnológica, a campanha de Flávio Bolsonaro mira a Ceitec — única fábrica de semicondutores do Brasil — como símbolo de ineficiência estatal a ser eliminada. A coordenadora econômica Daniella Marques questiona a lógica financeira da empresa, cujos custos superam em muito sua receita. O debate, porém, transcende a contabilidade: trata-se de decidir se o Brasil quer ou não ter voz própria numa cadeia industrial que molda poder econômico e segurança nacional.

Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, colocou a Ceitec no topo da lista de estatais a encerrar. Em encontro com empresários em São Paulo, ela argumentou que os custos trabalhistas da empresa superam sua receita — uma afirmação que ressoa nos números, mas que abre uma questão muito maior do que a viabilidade de uma única companhia.

A Ceitec, criada por lei em 2008 e sediada em Porto Alegre, é a única fábrica de semicondutores do Brasil. Seu produto mais conhecido é o chamado 'chip do boi', dispositivo de rastreamento por radiofrequência instalado em brincos eletrônicos de bovinos. Ao longo de sua história, a empresa produziu cerca de 105 milhões de chips e registrou 46 patentes — embora nem toda essa produção tenha ocorrido integralmente em solo brasileiro.

O desequilíbrio financeiro é real: quando o governo Jair Bolsonaro tentou liquidar a empresa em 2021, apontou despesas de R$ 80 milhões anuais contra uma receita máxima de R$ 7,8 milhões. Em 2024, ano descrito como de retomada operacional, o faturamento foi de apenas R$ 100 mil. O governo Lula reverteu a dissolução em novembro de 2023 e anunciou investimentos de R$ 220 milhões para reposicionar a fábrica na produção de semicondutores de potência em carbeto de silício, com meta de escala até 2027.

O momento da declaração de Marques não é acidental. Semicondutores tornaram-se ativos estratégicos disputados por nações desenvolvidas e emergentes, essenciais a cadeias industriais, tecnológicas e de defesa. A pergunta que a campanha de Flávio Bolsonaro coloca — e que o Brasil terá de responder — é quanto vale manter uma capacidade própria de fabricação num setor que define quem detém poder no século XXI.

Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, colocou a Ceitec — Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada — no topo da lista de estatais a serem encerradas caso o senador chegue ao poder. Em encontro com empresários em São Paulo, ela questionou a viabilidade financeira da empresa, argumentando que seus custos trabalhistas superam sua receita. A declaração, reportada pela revista Veja em meados de setembro, traz à tona uma tensão que vai além da contabilidade de uma única companhia estatal.

A Ceitec é a única fábrica de semicondutores do Brasil. Criada por lei em 2008 e vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, ela funciona em Porto Alegre como centro de projeto e fabricação de circuitos integrados. Seu produto mais conhecido é o CTC11002, apelidado de "chip do boi": um dispositivo instalado em brincos eletrônicos que permite rastrear animais por radiofrequência, apoiando a identificação e o controle de rebanhos. O chip foi desenvolvido no Brasil, mas sua produção comercial inicial começou em 2011 na fábrica da X-FAB, na Alemanha. Gradualmente, a fabricação migrou para Porto Alegre — até o final de 2013, cerca de 30% das etapas do CTC11002 já eram realizadas na unidade brasileira. A empresa também desenvolveu chips para logística, identificação de veículos e outras aplicações. Segundo dados divulgados pela associação de seus empregados, a Ceitec produziu aproximadamente 105 milhões de chips e gerou 46 patentes ao longo de sua história, embora nem todos esses chips tenham sido fabricados integralmente em território brasileiro.

Os números financeiros da Ceitec formam o cerne da controvérsia. Quando o governo Jair Bolsonaro tentou liquidar a empresa em 2021, alegou que as despesas operacionais giravam em torno de R$ 80 milhões anuais, enquanto a receita havia alcançado, no melhor ano até então, apenas R$ 7,8 milhões. Um relatório federal mais recente registra faturamento de R$ 100 mil em 2024, descrito como um ano de retomada operacional. Essa distância abismal entre vendas e custos alimenta o argumento de Marques, embora, por si só, não resolva a questão sobre o valor de manter uma capacidade industrial estratégica.

O governo Bolsonaro determinou a dissolução da Ceitec em dezembro de 2020. O processo foi revertido por decreto em novembro de 2023, durante o governo Lula. Desde então, a estatal reposicionou-se para fabricar semicondutores de potência feitos com carbeto de silício, material empregado em aplicações de eficiência energética. O governo federal anunciou um investimento de aproximadamente R$ 220 milhões para modernizar a fábrica, distribuído entre 2024 e 2026, com meta de alcançar produção em escala desses dispositivos até o final de 2027.

O timing da declaração de Marques não é casual. Semicondutores ganharam peso estratégico no cenário global — são componentes indispensáveis a praticamente todas as cadeias industriais e tecnológicas, inclusive as de defesa. Países desenvolvidos e emergentes competem ferozmente por capacidade própria de fabricação. A declaração recoloca, portanto, uma escolha industrial fundamental na disputa eleitoral brasileira: quanto o país deve investir para manter uma capacidade própria de desenvolver e fabricar semicondutores, e quais resultados a Ceitec precisará apresentar para justificar esse investimento. A resposta que vier não afetará apenas uma estatal, mas a posição do Brasil em uma corrida tecnológica que define poder econômico e segurança nacional.

A companhia não tem sentido econômico e possui mais contingente trabalhista do que receita
— Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro
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