Quando o extraordinário vira ordinário, muda-se a natureza do próprio Estado
No Equador, Daniel Noboa decretou pela segunda vez a existência de um conflito armado interno, consolidando um padrão em que instrumentos concebidos para crises temporárias se tornam a gramática ordinária do poder. Com 45,9% de aprovação, o presidente navega entre a urgência real da violência do narcotráfico e a tentação de substituir a construção institucional lenta pela eficácia simbólica dos decretos de emergência. O que está em jogo não é apenas a segurança pública equatoriana, mas a pergunta que atravessa toda a América Latina: quando a exceção se repete, ela ainda é exceção?
- Noboa decretou novo conflito armado interno dias após anunciar estado de exceção, tornando o recurso emergencial uma ferramenta de rotina desde janeiro de 2024.
- O assassinato de uma figura apontada como liderança do crime organizado expôs dúvidas sobre se a retórica da guerra se traduz em fortalecimento real das instituições investigativas e judiciais.
- A popularidade presidencial permanece sólida, sinalizando que parcela significativa dos equatorianos ainda aceita medidas extraordinárias como resposta legítima à insegurança.
- O padrão ecoa experiências regionais como a de El Salvador, onde a concentração de poder executivo reduziu a violência mas gerou custos democráticos ainda em disputa.
- A questão central não é se o crime organizado deve ser combatido, mas se o Equador está construindo um Estado mais robusto ou apenas se habituando a viver sob lógica permanente de emergência.
Daniel Noboa governa o Equador com 45,9% de aprovação popular e, pela segunda vez desde que assumiu a presidência, decretou a existência de um conflito armado interno no país. A decisão veio poucos dias após a declaração de novo estado de exceção em parte do território, reforçando um padrão que marca sua administração desde janeiro de 2024, quando uma onda de violência o levou a declarar guerra às organizações criminosas.
A deterioração da segurança pública equatoriana é inegável: o país enfrenta expansão acelerada do narcotráfico, disputa por rotas internacionais de drogas e crescimento da capacidade operacional de grupos criminosos. Nenhum governo poderia ignorar essa realidade. Mas reconhecer a gravidade não dissolve uma questão fundamental: o que ocorre quando instrumentos pensados para momentos extraordinários se tornam recorrentes? A legitimidade dos estados de exceção repousa precisamente no seu caráter temporário.
Noboa enfrenta uma dificuldade comum na região: manter apoio popular não se traduz automaticamente em construção de consensos institucionais. Negociar com o Legislativo e fortalecer capacidades estatais é processo lento. Governar por decretos de emergência oferece resultados mais imediatos e transmite à população a sensação de ação permanente diante de ameaças que mobilizam medos legítimos. O assassinato recente de Carlos Alberto Suástegui, apontado como figura importante do crime organizado, voltou a levantar dúvidas sobre a eficácia real da estratégia oficial.
O fenômeno não é exclusivo do Equador. Em El Salvador, Nayib Bukele construiu uma das lideranças mais populares do continente apoiado na ideia de que crises excepcionais exigem respostas excepcionais. A redução da violência consolidou seu apoio, mas alimentou debates sobre os custos institucionais da concentração de poder. Ambos os casos ilustram uma tendência regional: quanto mais profunda a sensação de insegurança, maior a disposição dos cidadãos para aceitar a ampliação dos poderes do Executivo.
A pergunta que paira sobre o governo Noboa não é se o combate ao crime organizado deve ser prioridade — evidentemente deve. A questão é outra: depois de sucessivos estados de exceção e de uma nova declaração de conflito armado interno, o Equador está fortalecendo as instituições que sustentam o Estado de Direito ou apenas se acostumando a viver sob a lógica permanente da emergência?
Daniel Noboa segue com 45,9% de aprovação popular no Equador, segundo dados da agência Comunicaliza. Esse número oferece uma chave para entender um dos fenômenos políticos mais intrigantes da América Latina nos últimos anos: a transformação da emergência de resposta temporária a crises em um modo permanente de exercer o poder.
Pela segunda vez desde que assumiu a presidência, Noboa decretou a existência de um conflito armado interno no país. A decisão chegou poucos dias após anunciar um novo estado de exceção em parte do território equatoriano, reforçando um padrão que marca sua administração desde janeiro de 2024, quando uma onda de violência o levou a declarar guerra às organizações criminosas. A deterioração da segurança pública no Equador é inegável: o país enfrenta há anos uma expansão acelerada do narcotráfico, disputa por rotas internacionais de drogas e crescimento da capacidade operacional de grupos criminosos. Nenhum governo poderia ignorar essa realidade.
Mas reconhecer a gravidade não resolve uma questão fundamental: o que ocorre quando instrumentos pensados para momentos extraordinários se tornam recorrentes? Estados de exceção e poderes emergenciais existem justamente para enfrentar circunstâncias excepcionais. Sua legitimidade repousa no caráter temporário. Quando começam a se repetir, deixam de ser apenas uma resposta à crise e passam a redefinir a relação entre governantes, instituições e cidadãos.
Noboa enfrenta uma dificuldade comum na América Latina: vencer eleições e manter apoio popular não se traduz automaticamente em construção de consensos institucionais duradouros. Negociar com o Legislativo, produzir acordos políticos e fortalecer capacidades estatais é um processo lento e árduo. Governar por decretos de emergência oferece resultados mais imediatos. Permite transmitir à população a sensação de ação permanente diante de uma ameaça que continua mobilizando medos legítimos.
Recentemente, o assassinato de Carlos Alberto Suástegui, apontado pelas autoridades como figura importante do crime organizado, voltou a levantar dúvidas sobre a eficácia da estratégia oficial. O episódio expôs uma pergunta incômoda: até que ponto a retórica da guerra tem sido acompanhada por um fortalecimento efetivo das instituições encarregadas de investigar, processar e desarticular organizações criminosas? A popularidade presidencial permanece relativamente sólida, sugerindo que uma parcela significativa dos equatorianos continua disposta a apoiar medidas extraordinárias em nome da segurança.
O fenômeno não é exclusivo do Equador. Em El Salvador, Nayib Bukele construiu uma das lideranças mais populares do continente apoiado na ideia de que uma crise excepcional exigia respostas excepcionais. A redução da violência consolidou seu apoio, mas também alimentou debates sobre os custos institucionais da concentração de poder e do enfraquecimento dos mecanismos de controle democrático. O Equador não é El Salvador, e as situações dos dois países não podem ser comparadas mecanicamente. Ainda assim, ambos ilustram uma tendência regional: quanto mais profunda a sensação de insegurança, maior a disposição dos cidadãos para aceitar a ampliação dos poderes do Executivo.
A pergunta que paira sobre o governo Noboa não é se o combate ao crime organizado deve ser prioridade. Evidentemente deve. A questão é outra: depois de sucessivos estados de exceção e de uma nova declaração de conflito armado interno, o Equador está fortalecendo as instituições que sustentam o Estado de Direito ou apenas se acostumando a viver sob a lógica permanente da emergência? A resposta pode ser mais importante para o futuro do país do que qualquer decreto presidencial.
Notable Quotes
Quando passam a se repetir, deixam de representar apenas uma resposta à crise e começam a redefinir a relação entre governantes, instituições e cidadãos— Análise sobre estados de exceção recorrentes
A pergunta que paira sobre o governo Noboa não é se o combate ao crime organizado deve ser uma prioridade. A questão é outra: o Equador está fortalecendo as instituições que sustentam o Estado de Direito ou apenas se acostumando a viver sob a lógica permanente da emergência?— Questão central do dilema equatoriano
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que a aprovação de Noboa permanece tão sólida se há dúvidas sobre a eficácia real do combate ao crime?
Porque a sensação de ação importa tanto quanto os resultados. Quando você vive com medo, um presidente que decreta guerra, que mobiliza o exército, que faz algo visível, oferece alívio psicológico imediato. A população sente que há resposta.
Mas isso não é perigoso? Acostumar-se com a emergência?
Muito. Quando o extraordinário vira ordinário, você muda a natureza do próprio Estado. Os mecanismos de controle democrático — negociação legislativa, transparência, prestação de contas — ficam mais lentos, mais incômodos. A emergência permite contorná-los.
Então Noboa está escolhendo o caminho mais fácil?
Não é tão simples. A violência é real. Ele enfrenta uma crise genuína. Mas há uma escolha em como responder: construindo instituições duradouras ou governando por decretos que oferecem vitórias políticas imediatas.
El Salvador oferece alguma lição?
Oferece um aviso. Bukele reduziu a violência e consolidou poder extraordinário. Mas a que custo institucional? Quando a emergência se normaliza, é muito difícil voltar atrás.
O que você acha que vai acontecer no Equador?
Depende se as instituições conseguem se fortalecer enquanto isso tudo acontece. Se não conseguirem, o país pode acordar em alguns anos vivendo permanentemente sob lógica de exceção, sem saber como sair dela.