No Brasil, onde a decomposição apaga rastros que a medicina legal tradicional não consegue recuperar, os insetos emergem como testemunhas silenciosas do crime. A entomologia forense — ciência que decifra o tempo da morte e até a identidade de agressores por meio de larvas e besouros — acumula décadas de produção científica de referência mundial, mas ainda aguarda protocolos, leis e reconhecimento institucional que transformem esse saber em prática cotidiana nas delegacias. É a tensão antiga entre o que a ciência já sabe e o que as instituições ainda não aprenderam a usar.
Entomologia forense: como insetos revelam segredos de investigações criminais
A entomologia é amiga do cadáver decomposto
Por que insetos são tão úteis em investigações criminais quando o corpo já está muito decomposto?
Porque depois de 48 horas, o corpo entra em um estado em que as técnicas tradicionais falham. Os insetos, porém, colonizam o cadáver de forma previsível. Você pode medir seu ciclo de vida, contar as gerações de larvas, considerar a temperatura — e com isso calcular quanto tempo se passou desde a morte.
E como larvas conseguem ajudar a identificar um criminoso?
Em crimes sexuais, o DNA do agressor desaparece do corpo quando ele se decompõe. Mas as larvas se alimentam dos tecidos e incorporam esse material genético. Analisando o intestino da larva, você consegue extrair evidências sobre quem cometeu o crime.
Parece uma ciência muito estabelecida. Por que ainda é tão pouco usada?
Porque faltam protocolos padronizados. Oito em cada dez peritos no Brasil não têm um procedimento claro para coletar e identificar insetos em cadáveres. Sem isso, as provas podem não ser confiáveis. Além disso, muitos policiais simplesmente não conhecem a técnica.
Qual é o futuro dessa área?
Está começando a se expandir para crimes ambientais. Pesquisadores já usam insetos para detectar espécies invasoras e avaliar se há negligência na proteção de ecossistemas. É um uso completamente novo que promete revolucionar como investigamos danos ao meio ambiente.
El Pulso
- Cadáveres em avançado estado de decomposição chegam às perícias sem resposta possível pela medicina legal convencional — e é exatamente aí que os insetos assumem o papel de única testemunha disponível.
- Larvas de moscas não apenas revelam o dia da morte, mas carregam no intestino o DNA de agressores sexuais e traços toxicológicos de venenos ou drogas, tornando-se provas vivas que o tempo não apaga.
- Apesar de décadas de pesquisa de ponta, mais de 80% dos profissionais da área no Brasil admitem não seguir nenhum protocolo padronizado de coleta — uma lacuna que compromete a validade das evidências em tribunal.
- Laboratórios surgem aos poucos — Rio de Janeiro em 2005, Santa Catarina apenas em 2022 — enquanto a resistência de servidores ao manuseio de insetos e a pressa em remover corpos para o IML freiam a adoção da técnica.
- A fronteira seguinte já está sendo desenhada: usar a entomologia para investigar crimes ambientais e medir o nível de preservação de ecossistemas, como demonstrou pesquisa em Fernando de Noronha com espécies invasoras.
No Brasil, onde a decomposição apaga rastros que a medicina legal tradicional não consegue recuperar, os insetos emergem como testemunhas silenciosas do crime. A entomologia forense — ciência que decifra o tempo da morte e até a identidade de agressores por meio de larvas e besouros — acumula décadas de produção científica de referência mundial, mas ainda aguarda protocolos, leis e reconhecimento institucional que transformem esse saber em prática cotidiana nas delegacias. É a tensão antiga entre o que a ciência já sabe e o que as instituições ainda não aprenderam a usar.
Um corpo chegou ao Brasil vindo do exterior em estado de decomposição tão avançado que a medicina legal tradicional não conseguia determinar quando a morte havia ocorrido. A resposta veio das larvas que habitavam o cadáver. Janyra Oliveira da Costa, perita criminal da Polícia Civil do Rio de Janeiro, identificou larvas da mosca Chrysomya megacephala e, cruzando dados sobre o ciclo de vida do inseto com as temperaturas às quais havia sido exposto, estimou com precisão o dia do óbito. "A entomologia é amiga do cadáver decomposto", resume ela.
A disciplina vai muito além de contar dias. Cerca de 95% das análises de Janyra envolvem calcular o intervalo pós-morte, mas os insetos também guardam o DNA de agressores sexuais — incorporado pelas larvas ao se alimentarem — e revelam traços toxicológicos de drogas ou venenos. Em Santa Catarina, onde a divisão de entomologia forense surgiu apenas em 2022, o perito Victor Botteon já aplicou a técnica em 34 casos no primeiro ano, incluindo uma ossada encontrada em floresta de Florianópolis: a degradação do crânio por cupins indicou que a morte ocorrera entre três e seis anos antes.
Patrícia Thyssen, professora da Unicamp que entrou na área em 1996 quando "ninguém sabia o que era", observa que moscas costumam chegar primeiro a um corpo, mas besouros, vespas e formigas também têm papel investigativo. O problema central, ela aponta, é a ausência de protocolos: um levantamento de 2022 mostrou que 80,5% dos profissionais da área no Brasil não seguem nenhum procedimento padronizado de coleta. Sem protocolo, as provas perdem confiabilidade diante de um tribunal.
Simão Dias Vasconcelos, da Universidade Federal de Pernambuco, identifica outro obstáculo: o foco excessivo no intervalo pós-morte num contexto em que os corpos são rapidamente removidos para o IML, antes que qualquer coleta entomológica seja feita. Ele defende expandir a disciplina para crimes ambientais — caminho já aberto por pesquisa do seu laboratório em Fernando de Noronha, onde tecidos em decomposição atraíram moscas que revelaram a dominância de espécies invasoras no arquipélago. O Brasil tem ciência de ponta; faltam as leis e a vontade institucional para colocá-la em prática.
Um corpo chegou ao Brasil vindo do exterior, trazendo um mistério que a medicina legal tradicional não conseguia resolver. O cadáver estava em estado avançado de decomposição — tão avançado que determinar quando a morte havia ocorrido parecia impossível. A resposta veio de um lugar inesperado: das larvas que habitavam o corpo. Janyra Oliveira da Costa, perita criminal da Polícia Civil do Rio de Janeiro, recorreu à entomologia forense, a ciência que usa insetos e artrópodes para revelar segredos que os corpos guardam.
A entomologia forense funciona porque insetos colonizam cadáveres de forma previsível e mensurável. Cerca de 48 horas após a morte, o corpo entra em um estado de decomposição tão avançado que outras técnicas de investigação perdem sua eficácia. É nesse ponto que os insetos se tornam aliados. No caso da brasileira, Janyra identificou larvas da mosca Chrysomya megacephala, espécie presente tanto no país onde ela morreu quanto no Brasil. Usando dados sobre o ciclo de vida do inseto e as temperaturas às quais foi exposto, a perita conseguiu estimar com precisão o dia do óbito. "A entomologia é amiga do cadáver decomposto", resume Janyra em entrevista recente.
O trabalho de peritos como Janyra vai muito além de simplesmente contar dias. Aproximadamente 95% de suas análises envolvem calcular o intervalo pós-morte — o tempo decorrido entre a morte e a descoberta do corpo. Mas a disciplina oferece outras aplicações igualmente importantes. Em crimes sexuais seguidos de morte, um cadáver em avançado estado de decomposição perde os vestígios de DNA do agressor. As larvas, porém, incorporam esse material genético ao se alimentarem. Analisando o intestino das larvas, peritos conseguem extrair evidências sobre quem cometeu o crime. Os insetos também revelam informações toxicológicas — medicamentos, drogas ou venenos ingeridos antes da morte — permitindo inferências sobre a causa clínica do óbito.
Apesar do potencial científico, a entomologia forense permanece subutilizada no Brasil. Janyra montou o laboratório de entomologia forense da Polícia Civil do Rio em 2005, quando a área era ainda incipiente e pouco conhecida. Em Santa Catarina, a divisão de entomologia forense surgiu apenas em 2022, com dois servidores, entre eles o perito criminal Victor Botteon. No primeiro ano de funcionamento, o departamento coletou 21 espécies diferentes de insetos e realizou cálculos de intervalo pós-morte em 34 ocasiões. Um dos casos envolveu uma ossada humana parcialmente enterrada encontrada em agosto de 2024 em uma floresta de Florianópolis. Por meio da degradação do crânio provocada por cupins, as autoridades calcularam que a morte havia ocorrido entre 3 e 6 anos antes. Botteon observa que existe resistência entre servidores em fazer a coleta dos insetos, em parte por nojo, embora em Joinville o cálculo do intervalo pós-morte por entomologia tenha se tornado praxe.
Patrícia Thyssen, professora de entomologia da Unicamp, entrou nessa área em 1996, quando "ninguém sabia o que era". Ela começava estudando suínos e as pessoas achavam que pesquisava moscas que comiam suínos. À medida que a entomologia forense provou sua utilidade, passou a ser chamada para análises de corpos, sendo referida como "moça das moscas". A entomologista nutria interesse pela função ambiental dos insetos de ciclar materiais. Embora besouros, vespas e formigas também possam ser usados em investigações forenses, as moscas costumam chegar primeiro a um corpo em decomposição.
O Brasil possui uma produção científica de entomologia forense de referência mundial, mas na esfera policial faltam leis e diretrizes. Um levantamento publicado na revista International Journal of Legal Medicine em 2022 mostrou que, dos 82 profissionais de entomologia forense que responderam ao questionário, 80,5% disseram não ter procedimento padronizado para coleta, manejo ou identificação de insetos em cadáveres. "O perito não vai ao local coletar as coisas a esmo. Ele tem um protocolo padrão para seguir. Isso vai garantir que ele recolha provas confiáveis", explica Thyssen.
Simão Dias Vasconcelos, coordenador do Laboratório de Insetos de Importância Forense vinculado à Universidade Federal de Pernambuco, aponta que uma das razões pelas quais a entomologia forense ainda é subutilizada é o foco excessivo no intervalo pós-morte em um momento em que cadáveres são rapidamente recolhidos e levados ao Instituto Médico-Legal. "Falta popularizar mais a eficiência da entomologia forense e expandir para outras áreas", diz. A entomologia forense no Brasil passou a se consolidar nos últimos 20 anos, e uma das aplicações mais promissoras é a obtenção de evidências sobre crimes ambientais. Uma pesquisa realizada pelo laboratório utilizou tecidos em decomposição de animais para atrair moscas em Fernando de Noronha, permitindo observar a dominância de espécies invasoras no arquipélago, mesmo sendo área de Unidades de Conservação. Embora não se possa falar em crime com base nesses dados, o estudo abre caminho para usar a entomologia na análise do nível de preservação ambiental e na detecção de negligência na proteção de ecossistemas.
Citas Notables
A entomologia é amiga do cadáver decomposto— Janyra Oliveira da Costa, perita criminal da Polícia Civil do Rio de Janeiro
O perito não vai ao local coletar as coisas a esmo. Ele tem um protocolo padrão para seguir. Isso vai garantir que ele recolha provas confiáveis— Patrícia Thyssen, professora de entomologia da Unicamp