Entidades médicas pedem à Anvisa proibição total dos chips da beleza

Dados registram dois óbitos e 257 relatos de complicações médicas associados ao uso dos implantes hormonais manipulados, com 63% dos casos envolvendo mulheres.
O hormônio permanece no organismo por meses e não pode ser prontamente ajustado
As entidades médicas destacam que, diferentemente de medicamentos convencionais, os implantes hormonais não permitem interrupção rápida em caso de efeitos adversos.
Mark

Por que agora, se a Anvisa já suspendeu esses implantes em outubro de 2024?

Mimi

A suspensão foi parcial. A agência proibiu apenas os esteroides anabolizantes e hormônios androgênicos para fins estéticos, mas deixou brechas. As entidades médicas veem que a prática continua se expandindo, agora com outras substâncias e justificativas. Essa carta é um pedido de proibição total.

Luke

Mas qual é exatamente o escopo da suspensão de 2024? O documento diz que a Anvisa "manteve proibida" a comercialização para certos fins, o que sugere que outras formas ainda circulam legalmente.

Mark

Os números de mortes e complicações — dois óbitos e 257 relatos — parecem altos ou baixos para um produto que circula há quanto tempo?

Mimi

Não sabemos exatamente há quanto tempo esses implantes estão em circulação em larga escala. O que sabemos é que em 45,9% dos casos registrados, foram usados para fins puramente estéticos, não para tratamento de uma condição médica real.

Luke

E esses 257 relatos — são apenas os que chegaram à plataforma Vigicom? Quantos casos podem estar não notificados? A notificação de eventos adversos é voluntária em muitos contextos.

Mark

A questão do "bioidêntico" é interessante. Por que as entidades acham que esse termo é enganoso?

Mimi

Porque "bioidêntico" soa científico e seguro, mas na verdade não garante nada. Um hormônio pode ser quimicamente idêntico ao que o corpo produz, mas quando você o coloca em um implante que libera doses por meses sem controle, o contexto muda completamente. É marketing.

Luke

Embora seja justo dizer que a terapia hormonal da menopausa, quando corretamente indicada, é respaldada por evidências científicas. A crítica das entidades é específica: é contra as formulações manipuladas com combinações e doses não estudadas.

Mark

E quanto à questão prática de não poder remover ou ajustar a dose?

Mimi

Esse é talvez o ponto mais grave. Se você toma um comprimido e tem um efeito colateral, para. Se você tem um implante e tem um efeito colateral, você está preso a ele por meses. E em alguns casos, nem conseguem remover completamente.

Luke

O documento menciona que a retirada "pode ser difícil ou incompleta", mas não dá exemplos específicos de casos em que isso aconteceu. Seria importante saber se isso é uma preocupação teórica ou se há relatos concretos disso nos 257 casos.

Mark

As entidades pedem uma proibição total. Isso significa que nenhuma mulher poderia mais receber esses implantes, nem para menopausa?

Mimi

Sim, é uma proibição total. Mas note que elas reconhecem que a terapia hormonal da menopausa, quando corretamente indicada, é válida. O problema é a forma — o implante manipulado sem estudos, não o tratamento hormonal em si.

Luke

E a única indicação de testosterona que elas reconhecem como válida é para transtorno do desejo sexual hipoativo em mulheres pós-menopáusicas cuidadosamente avaliadas, com doses dentro da faixa fisiológica feminina. Isso é muito restritivo.

  • Doze entidades médicas pedem proibição total dos implantes hormonais manipulados
  • Dois óbitos e 257 relatos de complicações médicas registrados na plataforma Vigicom Hormônios
  • Mulheres correspondem a 63% dos casos; 45,9% dos registros envolvem uso para fins estéticos
  • Anvisa suspendeu parcialmente os implantes em outubro de 2024, mas entidades pedem proibição completa

Os implantes hormonais manipulados apresentam riscos graves incluindo tromboembolismo, acidente vascular cerebral e possíveis efeitos sobre risco de câncer, sem comprovação científica de eficácia. Diferentemente de medicamentos convencionais, os hormônios liberados pelos implantes permanecem no organismo por meses e não podem ser prontamente ajustados ou interrompidos em caso de efeitos adversos.

Doze organizações médicas lançaram carta conjunta pedindo à Anvisa a retirada de circulação dos implantes hormonais manipulados, citando falta de estudos clínicos e riscos cardiovasculares, hepáticos e metabólicos.

Doze organizações médicas entregaram nesta quinta-feira uma carta conjunta à Anvisa pedindo a retirada total de circulação dos implantes hormonais manipulados, conhecidos popularmente como chips da beleza. O documento, divulgado durante o 20º Congresso Mundial de Menopausa, reúne assinaturas de entidades como a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, a Sociedade Brasileira de Diabetes e a International Menopause Society, todas ligadas às especialidades que trabalham com terapias hormonais.

O cerne da preocupação das entidades está na falta de estudos clínicos que comprovem a segurança e eficácia desses dispositivos. Os implantes podem conter testosterona, gestrinona, estradiol e outras substâncias, sendo oferecidos para uma gama ampla de finalidades: sintomas da menopausa, disfunção sexual, emagrecimento, ganho de massa muscular, aumento de disposição, melhora do desempenho físico e antienvelhecimento. Para nenhuma dessas aplicações, afirmam as entidades, existem ensaios clínicos de qualidade que sustentem os benefícios anunciados ou dados de segurança que respaldem o uso.

Os riscos listados no documento são significativos: alterações cardiovasculares e metabólicas, problemas hepáticos, tromboembolismo, acidente vascular cerebral e possíveis efeitos sobre o risco de câncer. Há também uma questão prática que agrava a situação. Diferentemente de medicamentos convencionais cuja dose pode ser ajustada ou suspensos quando surgem efeitos adversos, o hormônio liberado por um implante permanece no organismo por meses. Diante de concentrações elevadas ou complicações, não é possível reduzir prontamente a dose ou interromper a administração. A retirada do dispositivo pode ser difícil ou incompleta, especialmente nos chamados pellets bioabsorvíveis.

As entidades também criticam o uso do termo "bioidêntico" na divulgação desses produtos, considerando-o uma estratégia de marketing que não garante eficácia, qualidade farmacêutica ou menor risco. A gestrinona, um dos hormônios utilizados, é particularmente questionada. Sem indicação científica estabelecida para terapia da menopausa ou reposição hormonal, seus possíveis efeitos adversos incluem acne, aumento de pelos, queda de cabelo, alteração da voz e aumento do clitóris, além de modificações metabólicas que podem ser persistentes. Outras substâncias encontradas em implantes manipulados, como metformina, ocitocina, tadalafila, oxandrolona e NAD, também carecem de respaldo ético ou científico para uso nesses dispositivos.

Os números revelam o alcance do problema. A plataforma Vigicom Hormônios, mantida pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, registrou dois óbitos e 257 relatos de complicações médicas associados ao uso dos implantes. Mulheres correspondem a 63% dos casos, e em 45,9% dos registros os hormônios foram utilizados para fins estéticos. A Anvisa já havia suspendido esses produtos em outubro de 2024, após receber denúncias de entidades médicas sobre problemas relacionados aos implantes. A agência alertou para a ausência de comprovação de segurança e eficácia para fins estéticos, tratamento de fadiga e sintomas da menopausa.

Além dos riscos clínicos, as entidades apontam para uma transformação na forma como esses implantes vêm sendo produzidos e comercializados. Há expansão de práticas que se afastariam da finalidade individualizada da manipulação magistral: produção em escala, formação de estoques, padronização comercial de protocolos, treinamento de prescritores e promoção dos produtos nas redes sociais. A manipulação, por definição, deve atender a uma necessidade individual não contemplada por medicamento disponível, não servindo à criação de linhas comerciais ou à indução de demanda.

A carta pede à Anvisa, com participação do Ministério da Saúde, dos conselhos de Medicina e Farmácia, do Ministério Público, das Defensorias Públicas, dos órgãos de defesa do consumidor e do Legislativo, a adoção de medidas para proibir completamente a manipulação, formação de estoques, comercialização, distribuição, publicidade e uso de implantes hormonais manipulados no país. As entidades também solicitam o fortalecimento da fiscalização, da farmacovigilância, da notificação obrigatória de eventos adversos e da responsabilização das cadeias comerciais envolvidas. O objetivo declarado é assegurar que cada paciente receba com segurança o tratamento apropriado, na menor dose eficaz, pela via adequada e com possibilidade de acompanhamento e interrupção quando necessário.

Para essas finalidades, não existem ensaios clínicos de qualidade que sustentem os benefícios anunciados ou dados de segurança que respaldem sua utilização
— Entidades médicas signatárias da carta
A manipulação deve atender a uma necessidade individual não contemplada por medicamento disponível; não pode servir à criação de linhas comerciais, à indução de demanda ou à publicidade desses implantes
— Documento das entidades médicas
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