Bolsonaro tem poder de mobilização de grupos radicais que podem desencadear ações violentas e provocar danos graves às instituições brasileiras. Golpes não se sabe como começam nem como terminam; movimentos golpistas pequenos podem vencer sem resistência adequada das forças democráticas.
Ensaio golpista de 7 de setembro exige mobilização democrática, alerta cientista político
Golpes não se sabe como começam nem como terminam
Por que um cientista político estava tão preocupado com o 7 de setembro especificamente? Era só um feriado.
Não era só um feriado. Havia inteligência de que Bolsonaro planejava usar a data — quando militares já estariam nas ruas para desfiles — para mobilizar grupos radicais e demonstrar força. Era um teste.
Mas quanto dessa mobilização era confirmada? Fornazieri fala de planos, mas quanto era especulação sobre intenções?
Havia prisões reais — Roberto Jefferson foi preso, operações do Supremo contra Sérgio Reis e outros. Não era especulação pura. Mas você tem razão: o tamanho e o alcance real da mobilização planejada não eram totalmente conhecidos.
E por que Fornazieri insistia tanto que os democratas precisavam agir antes, não depois?
Porque a história dos golpes na América Latina mostra que resistência depois que o golpe começa quase nunca funciona. Em 1964, ninguém resistiu. Em 2016, ninguém resistiu ao impeachment de Dilma. Ele estava dizendo: desta vez, mobilizem-se antes.
Mas há uma suposição ali: que a mobilização democrática preventiva realmente funciona. Há exemplos de quando funcionou?
Ele não cita exemplos de sucesso preventivo. Cita fracassos reativos. É um argumento sobre o que não fazer, não tanto sobre o que fazer.
Então qual era o apelo final?
Que lideranças políticas e sociais transformassem o 7 de setembro em um ato de defesa da democracia tão grande ou maior que o que os bolsonaristas planejavam. Que a maioria contrária a Bolsonaro se tornasse força política ativa, não apenas opinião.
E isso aconteceu? Houve mobilização democrática naquele dia?
Essa é a pergunta que o texto deixa em aberto. Ele é um chamado à ação, não um relato do que ocorreu.
Der Puls
- Bolsonaro planejava mobilizar caminhoneiros, militares da reserva, policiais e extremistas de direita no 7 de setembro de 2021
- Roberto Jefferson foi preso e operações do Supremo desarticularam partes da trama golpista
- General Augusto Heleno participou de reuniões em Brasília relacionadas ao movimento
- Fornazieri argumentava que defesa da democracia deve ser preventiva, não reativa
Bolsonaro tem poder de mobilização de grupos radicais que podem desencadear ações violentas e provocar danos graves às instituições brasileiras. Golpes não se sabe como começam nem como terminam; movimentos golpistas pequenos podem vencer sem resistência adequada das forças democráticas.
Colunista alerta que Bolsonaro mobilizará grupos radicais em 7 de setembro para ensaio golpista, intimidar STF e demonstrar força. Democratas precisam se mobilizar preventivamente para defender democracia.
Aldo Fornazieri, cientista político, vê no 7 de setembro que se aproximava em 2021 mais do que um feriado cívico. Enxergava um ensaio. Um teste de força orquestrado por Jair Bolsonaro para mobilizar grupos radicais — caminhoneiros, militares da reserva, policiais, motoqueiros, setores ruralistas e extremistas de direita — em um show de força destinado a intimidar o Supremo Tribunal Federal, outras autoridades e a sociedade em geral. O objetivo duplo era claro: assustar e sugerir que as Forças Armadas apoiavam o movimento, mesmo que institucionalmente não o fizessem.
Embora operações policiais tivessem desarticulado partes da trama — com a prisão de Roberto Jefferson e ações do Supremo contra Sérgio Reis, Otoni de Paula e Antônio Galvan — o movimento seguia em pé. Fornazieri argumentava que Bolsonaro operava sob uma lógica única: o golpe. Quanto mais percebia que não venceria as eleições, mais aprofundava essa estratégia, espelhando a tática da extrema-direita internacional de minar instituições democráticas por dentro. O centrão que havia ingressado no governo não representava aliança programática alguma, apenas um escudo contra o impeachment.
O alerta do cientista político não era alarmismo vazio. Ele apontava duas razões pelas quais o movimento não deveria ser subestimado. Primeiro, Bolsonaro tinha capacidade real de mobilizar grupos que poderiam desencadear violência e causar danos graves às pessoas e às instituições, prejudicando ainda mais a reputação do Brasil internacionalmente. Segundo — e aqui residia o perigo estrutural — golpes são fenômenos imprevisíveis. Movimentos golpistas que começam pequenos podem vencer se não encontrarem resistência organizada. Em ações de força, militares neutros e até setores da sociedade tendem a se alinhar com quem demonstra força e possibilidade de vitória.
Fornazieri invocava a história para sustentar seu argumento. No Chile, os bloqueios de caminhoneiros em 1972 e 1973 foram o prelúdio do golpe de Pinochet. Aqui, pretendia-se mobilizar caminhoneiros para pressionar o Senado a cassar juízes do Supremo e, potencialmente, invadir a própria corte. Quando Sérgio Reis, cantor sertanejo, havia falado sobre essas ações, não eram bravatas — havia reuniões em Brasília com militares, inclusive com a participação do general Augusto Heleno. Era dever dos parlamentares convocar o general para explicações.
A lição que Fornazieri extraía dos golpes latino-americanos era amarga: as instituições democráticas só tentaram reagir depois que os atos de força já estavam consumados, e essas reações fracassaram. Em 1964, forças sociais e até militares garantiam que resistiriam se um golpe ocorresse. Ocorreu, e nenhuma resistência significativa emergiu. Em 2016, não houve reação ao golpe parlamentar que removeu Dilma Rousseff. Os atos de defesa foram frágeis antes e inexistentes depois.
Por isso sua conclusão era enfática: a defesa da democracia precisava ser preventiva, não reativa. Exigia dois movimentos simultâneos. De um lado, as autoridades — principalmente o Judiciário, mas também políticos — precisavam cumprir seus deveres constitucionais. O Supremo vinha se mostrando assertivo, mas no Congresso apenas um punhado de deputados e senadores adotava posturas incisivas contra o golpismo. Do outro lado, apenas o povo mobilizado e organizado poderia impor temor aos golpistas. Existia uma maioria significativa e crescente contrária a Bolsonaro, e outra que rejeitava militares na política, mas essa maioria não estava mobilizada.
Fornazieri chamava as lideranças políticas e sociais à responsabilidade: se os bolsonaristas queriam fazer do 7 de setembro um marco do ensaio golpista, os democratas precisavam transformá-lo em marco da defesa da democracia. Isso exigia planejamento, mobilizações prévias, convocação ampla, politização do significado do ato. As principais lideranças do país precisavam se engajar. Seria, alertava, uma derrota política dolorosa e vergonhosa se os atos dos golpistas superassem em magnitude os atos em defesa da democracia.
Bemerkenswerte Zitate
Bolsonaro tem poder de mobilização de grupos radicais que podem desencadear ações violentas e provocar danos graves às pessoas e às instituições, desmoralizando ainda mais o Brasil no mundo— Aldo Fornazieri, cientista político
Se os bolsonaristas querem fazer do 7 de setembro um marco do ensaio golpista, os democratas precisam fazer dele um marco da defesa da democracia— Aldo Fornazieri